O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar o comportamento do líder dos Estados Unidos, Donald Trump, ao afirmar que a condução da política internacional não deve ser pautada por ameaças ou demonstrações de força. Em entrevista concedida ao jornal espanhol El País, em Brasília, Lula defendeu que chefes de Estado adotem uma postura baseada no diálogo e no respeito entre as nações.
“Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, afirmou o presidente brasileiro. “Ele não foi eleito para isso, e sua Constituição não permite.”
As declarações ocorrem em meio à escalada de tensão envolvendo os Estados Unidos e o Irã. Nos últimos dias, Trump intensificou o tom de suas falas e chegou a declarar que poderia destruir a civilização persa, o que provocou reações internacionais.
“Ninguém tem o direito de amedrontar os outros”, acrescentou Lula. “É essencial que os poderosos assumam maior responsabilidade na manutenção da paz.”
Crítica ao uso do poder global
Durante a entrevista, Lula afirmou que a postura adotada pelo governo dos EUA representa um risco não apenas para a estabilidade internacional, mas também para os próprios Estados Unidos. Segundo ele, o atual cenário parte de uma lógica baseada na imposição de poder econômico, militar e tecnológico.
O presidente brasileiro avaliou que essa estratégia pode gerar consequências negativas, inclusive no campo econômico. Ao mencionar o conflito com o Irã, Lula citou o impacto direto sobre o mercado de energia.
“Mas não pode ser assim, porque, no fim, isso cria problemas para os próprios Estados Unidos. Quando decidiu atacar o Irã, não sei se percebeu que o preço dos combustíveis subiria e que quem pagaria seria o povo”, disse o petista.
Relação com Trump e tentativa de diálogo
Apesar das críticas, Lula relatou que buscou estabelecer um canal de diálogo com Trump em encontros anteriores. Ele relembrou uma conversa nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, no ano passado, quando tentou adotar um tom conciliador.
“Decidi ter muita paciência e disse a ele, literalmente, que dois países governados por dois homens de 80 anos deveriam conversar com maturidade”, contou.
A fala evidencia uma tentativa de manter a interlocução entre os dois países, mesmo diante das divergências políticas e diplomáticas que marcam a relação bilateral desde o início do atual mandato de Trump.
Viagem à Europa e articulação internacional
Lula também se prepara para uma agenda internacional nos próximos dias. O presidente brasileiro viajará à Europa, onde tem encontro previsto com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, em Barcelona.
Sánchez é um dos líderes europeus que têm adotado postura crítica em relação à política externa dos EUA, especialmente diante das tensões recentes. O encontro deve reforçar a articulação entre países que defendem o multilateralismo e a diplomacia como caminhos para a resolução de conflitos.
Posições sobre América Latina e isolamento diplomático
Na entrevista, Lula também abordou a situação política na América Latina, com destaque para a Venezuela. Ele defendeu a realização de eleições livres no país, sem interferência externa, especialmente por parte dos Estados Unidos.
“O que não pode acontecer é os EUA acharem que podem mandar na Venezuela. Isso não é normal; não tem lugar em uma democracia”, afirmou.
O presidente também comentou sua relação com outros líderes da região e disse que “não tem, nem tem interesse em ter” diálogo com o presidente da Argentina, Javier Milei.
As declarações reforçam a linha adotada pelo governo brasileiro de defesa da soberania nacional e de soluções negociadas para crises internacionais, em contraposição a intervenções unilaterais.





Deixe um comentário