Lula busca motoristas de app e tenta ampliar apoio político

Categoria é considerada prioridade diante do peso eleitoral: mais de 3 milhões de pessoas atuam como motoristas ou entregadores no país

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma ofensiva política para se aproximar de motoristas de aplicativos como Uber e 99, categoria vista no Planalto como majoritariamente alinhada ao bolsonarismo. A estratégia passa pela abertura de diálogo com os trabalhadores para incluir sugestões no projeto que regulamenta o trabalho por aplicativos de entrega, atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados.

Segundo integrantes do governo ouvidos pelo Uol, a categoria é considerada prioridade diante do peso eleitoral: mais de 3 milhões de pessoas atuam como motoristas ou entregadores no país, de acordo com dados do Ministério do Trabalho. A interlocutores, Lula afirmou que não pode cometer “bola fora” com o segmento e reconheceu erros na condução do Projeto de Lei Complementar enviado ao Congresso em 2024, que acabou travando após forte reação negativa dos trabalhadores, que não foram consultados previamente.

A Secretaria-Geral da Presidência, comandada por Guilherme Boulos, deve percorrer estados nas próximas semanas para ouvir motoristas e motoboys. A intenção é formar ainda neste mês um grupo de trabalho com representantes do setor, encaminhar sugestões ao relator da proposta, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), e discutir novas políticas públicas voltadas à categoria.

O diálogo, no entanto, enfrenta obstáculos. Diferentemente de outros grupos profissionais, motoristas e entregadores de aplicativo não são sindicalizados e têm perfil mais individualizado, com forte resistência à chamada “CLTização” do trabalho. No caso dos entregadores, a organização ocorre de forma informal, como na Aliança Nacional dos Motoboys (ANM), criada a partir de grupos de WhatsApp e responsável por mobilizações conhecidas como “breques”.

Entre os motoristas, o desafio é ainda maior devido à pulverização regional e ao caráter muitas vezes temporário da atividade. Além disso, integrantes do governo identificam forte desconfiança ideológica em relação à regulação, frequentemente associada a controle estatal.

A orientação de Lula é priorizar a escuta, evitando a imposição de modelos. A expectativa do Planalto é retomar a votação do projeto de regulamentação dos entregadores no primeiro semestre, após o início do ano legislativo. O parecer em discussão prevê, entre outros pontos, remuneração mínima por entrega, maior transparência nas informações repassadas pelas plataformas, seguro obrigatório contra acidentes e contribuição previdenciária compartilhada entre trabalhadores e empresas.

Para o governo, a aposta é que o diálogo possa reduzir resistências e abrir caminho para uma aproximação política com um eleitorado considerado estratégico nas eleições de 2026.

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