Diante da crescente desaprovação e das dificuldades de comunicação nas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu investir em uma ofensiva digital para tentar recuperar popularidade.
A nova estratégia, revelada pelo Estadão, tem como base o uso do WhatsApp por ministérios para enviar mensagens personalizadas a milhões de brasileiros, seguindo o modelo da Prefeitura do Recife, administrada por João Campos (PSB), aliado de Lula e considerado promessa para o pós-Lula na esquerda.
A comunicação direta, com linguagem informal e foco em prestação de serviços, busca reconectar o governo com eleitores de baixa renda e jovens que se beneficiam de políticas públicas, mas que, segundo avaliações internas, não identificam essas ações como sendo do governo federal. “Temos um sistema de comunicação que é uma via de mão dupla”, afirmou o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias. Segundo ele, o canal 121 está disponível para orientar beneficiários dos 48 programas integrados ao Cadastro Único, incluindo o Bolsa Família.
A iniciativa surge num contexto de desgaste político causado por episódios como o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias do INSS e o aumento do IOF. A oposição, especialmente aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), domina a comunicação nas redes sociais e critica o que chama de “modo analógico” de Lula, que sequer utiliza celular.
A estratégia digital do governo inclui os ministérios da Saúde, da Educação e do Desenvolvimento Social. O Ministério da Saúde, por exemplo, passou a alertar pelo WhatsApp cerca de 2 milhões de hipertensos cadastrados no programa Farmácia Popular que não retiraram medicamentos nos últimos três meses. “A lei permite o uso de dados para políticas públicas”, informou a pasta, destacando respaldo da Advocacia-Geral da União (AGU) e amparo na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além da Lei de Governo Digital (nº 14.129/2021).
Já o Ministério da Educação começou a enviar mensagens a cerca de 650 mil estudantes do programa Pé-de-Meia que ainda não acessaram suas contas. O programa, voltado à permanência de jovens no ensino médio, ainda tem baixa adesão. Como muitos beneficiários são menores de idade, a movimentação dos recursos depende da autorização dos responsáveis.
Recife como referência nacional
O modelo que inspira o Planalto nasceu no Recife durante a pandemia de covid-19. João Campos, então em seu primeiro mandato como prefeito, criou o “Conecta Zap”, uma versão do Conecta Recife no WhatsApp. A ferramenta permite que moradores autorizem o recebimento de mensagens e escolham os temas de interesse. Desde 2021, mais de 60 milhões de mensagens já foram disparadas pela prefeitura, com conteúdo que vai de campanhas de vacinação a avisos de desconto no IPTU.
Segundo Rafael Cunha, secretário de Transformação Digital do Recife, a ideia central é prestar serviço e ampliar a participação popular. “A melhor propaganda de um governo é o trabalho, e o que fazemos na plataforma digital é isso: serviço público”, disse ele ao Estadão. Entre os próximos passos da gestão, está o envio de mensagens aos pais sobre o desempenho escolar dos filhos, que precisarão justificar ausências às aulas.
A atuação digital de Campos, que acaba de assumir a presidência nacional do PSB, também é vista com atenção por seu potencial político. Com 2,9 milhões de seguidores no Instagram e mais de 900 mil no TikTok, ele se tornou um fenômeno nas redes sociais, usando uma linguagem direta e popular — perfil que o diferencia de Lula nas plataformas digitais, onde o petista ainda enfrenta dificuldades para engajar.
Desafios e alertas
Especialistas, no entanto, alertam para os riscos da prática. A pesquisadora Luciana Moherdaui, do Instituto de Estudos Avançados da USP, elogia a ideia, mas destaca a importância do consentimento dos usuários. “É preciso que o cidadão saiba que pode sair da base de dados. O investimento em microtarget pode influenciar uma eleição”, afirmou.
Desde a chegada de Sidônio Palmeira ao comando da Secretaria de Comunicação Social, o governo federal tem se aproximado cada vez mais da equipe de João Campos. A jornalista Mariah Queiroz, por exemplo, deixou o Recife para atuar no Planalto como secretária de Estratégia e Redes da Presidência.
Agora, Lula tenta transformar esse know-how em capital político. O WhatsApp, até então explorado com eficácia pela oposição, passa a ser peça central da estratégia do governo para enfrentar o desgaste e disputar corações e mentes no ambiente digital.





