- Paulo Baía
Há pessoas que parecem nascer sob a vocação do serviço público, não por dever, mas por destino. São aquelas cuja trajetória ilumina o caminho coletivo, cujas palavras transformam conceitos áridos em gestos de fé cívica. Luiz Roberto Barroso é uma dessas raras figuras. Sua vida é uma construção de ideias, uma arquitetura de justiça, um monumento à inteligência e à dignidade. E, ainda assim, por trás do jurista, do professor, do ministro, existe um homem carioca, humano, torcedor, que carrega no olhar uma serenidade que só possuem os que creem, não apenas em Deus ou no Direito, mas na humanidade.
Há quase meio século Barroso percorre o espaço público brasileiro como uma espécie de mediador entre o sonho e a razão, entre o texto constitucional e a alma popular. Sua trajetória não cabe em títulos ou cargos; ela se desenha como um fio contínuo de coerência, uma fidelidade ao princípio maior da República: o de que todos os seres humanos merecem respeito.
Tive o privilégio de conhecê-lo em momentos diversos, em tempos diferentes, sempre em contextos de construção e reflexão. Eu, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ambos caminhando, cada um a seu modo, pelas veredas da docência e da vida pública. Cruzamos caminhos em anos em que exerci a gestão na Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Rio de Janeiro, enquanto ele atuava como membro titular do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, entre 2003 e 2006. Recordo-me das reuniões, dos debates, das formulações de políticas e da convicção ética que o guiava. Era um tempo em que ainda acreditávamos que o Direito poderia ser instrumento de emancipação, e Barroso, com sua clareza e serenidade, personificava essa crença.
Ele trazia para as discussões não apenas o rigor técnico do constitucionalista, mas o olhar moral do humanista. Via o ser humano antes do caso, via o sofrimento antes da sentença, via a justiça não como abstração, mas como ato de reparação. Era impressionante observar como, mesmo nos temas mais áridos, Barroso conseguia enunciar a lei com ternura.
Mas talvez o encontro mais significativo e simbólico tenha se dado muito tempo depois, em circunstâncias que pertencem mais à delicadeza da vida do que à solenidade das instituições. Foi no batizado de minha neta, na Igreja e Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, das Irmãs Clarissas, no alto da Gávea. Um lugar de paz, silêncio e montanha, onde o tempo parece rezar junto com as freiras e os sinos. Barroso seria padrinho de outra criança. Entre risos, bençãos e o perfume antigo do incenso, conversamos. E o tema, naturalmente, foi o Flamengo.
Falamos com a alegria infantil dos que amam o futebol não como espetáculo, mas como identidade. O Flamengo é mais do que um clube, é uma emoção coletiva, uma religião laica, uma metáfora de redenção. Ali, entre o sagrado e o profano, vi nele o torcedor, o homem que vibra, que sofre, que canta o hino rubro-negro com a mesma fé com que defende a Constituição. E percebi que sua grandeza vinha justamente dessa combinação rara: a razão iluminada pela emoção, o saber que não se afasta da alma, o intelectual que continua povo.
Barroso nasceu em Vassouras, em 1958, cidade de memórias imperiais e de modernidade tardia, cenário que talvez tenha forjado sua sensibilidade histórica. Formou-se em Direito pela UERJ em 1980, tornou-se mestre pela Yale Law School, doutor e livre-docente pela mesma UERJ, com pós-doutorado em Harvard. É professor titular da UERJ desde 1982, e nas salas de aula moldou gerações de juristas, sempre com a generosidade de quem ensina para libertar, e não para doutrinar.
Como advogado e Procurador do Estado do Rio de Janeiro, cargo que exerceu de 1985 a 2013, participou de casos que marcaram a história do país: a defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias, a união estável entre pessoas do mesmo sexo, o direito das mulheres à interrupção da gestação em casos de anencefalia, o combate ao nepotismo. Em todas essas causas, sua argumentação transcendeu o formalismo. Barroso deu voz à ética da vida e à dignidade do corpo humano. A cada vitória, o país se tornava um pouco mais civilizado.
Em 2013, foi indicado pela presidenta Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal. Sua chegada à Corte não foi apenas uma nomeação, foi um acontecimento moral. O STF ganhou, com ele, um pensador que transformou a linguagem jurídica em instrumento de reflexão pública. Sua atuação, pautada por sobriedade e independência, reafirmou o papel do tribunal como guardião da Constituição e da democracia.
Como ministro, Barroso foi muitas vezes a voz do equilíbrio, o contraponto sereno em meio a tempos de polarização e ruído. Sempre defendeu o diálogo entre as instituições, a transparência dos atos públicos e a supremacia da ética sobre a conveniência política. Foi um juiz que nunca se esqueceu de ser cidadão.
No Tribunal Superior Eleitoral, que presidiu entre 2020 e 2022, conduziu as eleições municipais em meio à pandemia. Sob sua liderança, o TSE enfrentou campanhas de desinformação e reafirmou a confiança no voto eletrônico. Sua voz foi uma âncora de serenidade em um mar de incertezas.
Entre 2023 e 2025, presidiu o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça, liderando a Corte em tempos de tensões políticas e desafios institucionais. Foi um período de reafirmação do Estado Democrático de Direito, e Barroso soube exercê-lo com equilíbrio e coragem. Sob sua presidência, o STF manteve-se como instituição republicana, autônoma e vigilante.
Em outubro de 2025, anunciou sua saída antecipada do Supremo, encerrando uma trajetória de doze anos no tribunal. O gesto, discreto e simbólico, foi recebido com emoção. Sua despedida não foi apenas de um cargo, mas de uma etapa da história do Direito brasileiro.
Luiz Roberto Barroso é, antes de tudo, um educador. Cada sentença, cada voto, cada palestra, cada aula é um gesto pedagógico. Ele ensina que o Direito não é uma coleção de normas, mas uma arte de convivência. Ensina que a liberdade exige responsabilidade, que a igualdade não é concessão, mas conquista, que a democracia é sempre um trabalho inacabado.
Sua biografia é a linha contínua de uma vida dedicada à República. De 1980, quando começou a lecionar, até 2025, quando deixa o Supremo, são mais de quatro décadas de serviço público, de fidelidade à Constituição, de amor pela docência e pela vida democrática.
Mas o que o distingue, no fundo, é essa humanidade discreta, esse olhar calmo e essa forma de fé que habita a sua inteligência. Barroso é um homem público de primeira grandeza não apenas pelos cargos que exerceu, mas pelo modo como os honrou. Há nele uma ética solar, uma confiança na luz da razão, uma alegria civilizatória que lembra os grandes mestres humanistas do século XX.
Lembro-me, com gratidão e ternura, daquele dia no Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, em que falamos sobre o Flamengo sob o olhar silencioso das Clarissas. Aquilo foi mais do que uma conversa de torcedores. Foi um instante em que se tocavam duas dimensões da vida brasileira: a da fé e a da paixão, a do sagrado e a da arquibancada.
Hoje, escrevo não como observador distante, mas como alguém que testemunhou sua integridade. Como professor, como gestor público, como cidadão. Escrevo para agradecer e desejar boa sorte. Que Barroso siga iluminando o debate público com sua inteligência ética, com sua alegria serena, com sua coragem de pensar em tempos de medo.
E espero, sinceramente, reencontrá-lo um dia, quem sabe, no Maracanã. Que seja em uma noite de jogo grande, com o estádio tomado por vozes e tambores, o vermelho e o preto pulsando no coração da cidade. Talvez ali, entre a emoção e o som do hino, troquemos novamente palavras sobre o país, o Flamengo e a vida.
Porque, no fundo, tudo se mistura. A Constituição e a arquibancada, o Direito e a paixão, o país que sonhamos e o país que lutamos para preservar. Luiz Roberto Barroso pertence a essa rara categoria de brasileiros que ajudam o Brasil a continuar acreditando em si mesmo.
Que venham os próximos capítulos, ministro. Boa sorte, e que a vida, generosa como o tempo e justa como a lei, lhe conceda ainda muitas vitórias, dentro e fora de campo.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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