Louvar a vida, entristecer-se com a morte

Respeitar os mortos, mesmo quando foram adversários políticos, é um dos primeiros gestos de civilização

Ser pejorativo, raivoso e ofensivo com Raul Jungmann morto não é o meu sentimento, nem o sentimento de milhões de brasileiros. Pelo contrário. Meu sentimento é de tristeza diante da perda de uma vida. Sou sempre a favor de louvar a vida e de me entristecer com a morte. Há algo de civilizatório nesse gesto simples, quase elementar, que distingue a política como prática humana da política como brutalidade.

Alguns comentários feitos após a morte de Raul Jungmann, e até mesmo sobre Sérgio Arouca, falecido há muitos anos, são depreciativos de suas vidas, de suas ações e de suas trajetórias públicas. Não ofendo cadáveres, seja de quem for. Como comentarista, cronista, ensaísta e analista político profissional, falo das pessoas vivas, que podem me contradizer, responder, discordar. Falo de vidas públicas, de escolhas políticas, de projetos e ideias, sempre no terreno da democracia.

É evidente que, desde 1968, tive divergências com Raul Jungmann e Sérgio Arouca. Divergências reais, claras, firmes. Nunca pessoais. Nunca morais. Sempre políticas, sociais, intelectuais e democráticas.

Alguns lembram que Raul Jungmann apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e que foi ministro de Michel Temer. Sim, isso é fato. Mas curiosamente muitos dos que hoje o atacam são os mesmos que, em outros momentos históricos, pediram o impeachment de Fernando Collor, de Itamar Franco, de Fernando Henrique Cardoso e de Jair Bolsonaro.

Uma das lições mais sólidas que aprendi com Leonel Brizola foi ser contra qualquer impeachment. Qualquer. Seja quem for o presidente. Quem tem legitimidade e soberania para retirar um presidente da República do cargo é o voto popular, exercido em eleições livres e soberanas. Por isso fui contra o impeachment de Dilma Rousseff e também contra o de Fernando Collor. Não se trata de conveniência política, mas de coerência democrática.

Aos que agora blasfemam contra Raul Jungmann, mesmo depois de morto, cabe uma pergunta incômoda. Por que, em 2022, foram pedir seu voto e seu apoio a Lula? Por que continuam pedindo votos a todos para Lula em 2026? A resposta costuma ser imediata. Dirão que é por causa da ameaça fascista, do bolsonarismo, de que só Lula seria alternativa possível.

Ainda assim, insistem em afirmar que não existe polarização política no Brasil, como se de um lado estivesse a civilização e do outro a barbárie. Essa contradição revela mais sobre quem acusa do que sobre quem é acusado.
Respeitar os mortos, mesmo quando foram adversários políticos, é um dos primeiros gestos de civilização.

Os gregos já nos ensinaram isso. A recusa em reconhecer esse princípio é sinal de empobrecimento moral, simbólico e político. Por isso, reafirmo minha tristeza pela morte de Raul Jungmann. Reafirmo meu agradecimento por sua trajetória pública. Reafirmo também meu respeito pelas divergências que tivemos, divergências que sempre fizeram parte de um diálogo democrático.

Ser pejorativo, raivoso e ofensivo não é o meu sentimento. Tive a honra, o prazer e a oportunidade de conviver com Sérgio Arouca e Raul Jungmann. Dois brasileiros de fibra, construtores de instituições democráticas, republicanos. Dois brasileiros que honraram vidas dedicadas à sociedade brasileira. Não eram pessoas frustradas com a vida. Eram vencedores. Eram semeadores de civilização.

Sérgio Arouca e Raul Jungmann não representavam a barbárie disfarçada de radicalismo verbal, feita de gritos e palavras soltas. Eram dialéticos. Fizeram a sociedade brasileira avançar. Nunca foram frustrados. Neles havia a alegria de viver, de lutar, de fazer.

Em suas trajetórias existia a alegria seminal de quem faz acontecer no mundo e na vida. A vida lhes foi leve e feliz. É essa leveza que deixam como herança. Se fossem pretos, negros, diria que foram griôs.

Aos que escolhem atacar um morto, talvez fosse oportuno buscar alguma alegria na vida, por menor que seja, e aprender a saudar a vida. Especialmente aqueles que, em tese, dizem combater a barbárie.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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