Dez dias após o atentado em Israel completar um ano, o Exército israelense afirmou ter eliminado aquele que é apontado pelas autoridades do país como o principal idealizador do ataque. O líder do Hamas, Yahya Sinwar, a quem autoridades do Estado judeu se referiam como um “homem morto ambulante”, foi assassinado em uma operação militar no sul da Faixa de Gaza nesta quarta-feira, anunciaram fontes israelenses nesta quinta depois de uma série de exames periciais para confirmar sua identidade.
Parte da estrutura decisória do grupo palestino há quase uma década, Sinwar sai de cena após ter sido uma figura-chave no maior ataque contra o território de Israel, que causou a morte de 1,2 mil pessoas e resultou no sequestro de cerca de 250 reféns.
— Nós vamos continuar a trabalhar para trazer de volta os nossos reféns. O Hamas não vai permanecer no poder — afirmou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em pronunciamento na tarde desta quinta-feira, o primeiro no qual se referiu à morte de Sinwar.
Rumores sobre a morte do chefe do Hamas, acusado por Israel de ser o idealizador do ataque de 7 de outubro de 2023, começaram a ganhar força na manhã desta quinta, quando as Forças Armadas de Israel afirmaram que havia uma “probabilidade” de que ele tivesse sido morto durante uma operação. A confirmação oficial ocorreu horas depois, em um comunicado conjunto do Exército e do serviço de inteligência.
“A FDI e a ISA confirmam que após uma perseguição de um ano, ontem (quarta-feira), 16 de outubro de 2024, soldados do Comando Sul das FDI eliminaram Yahya Sinwar, o líder do Hamas, em uma operação no sul da Faixa de Gaza. Yahya Sinwar planejou e executou o ataque de 7 de outubro, promoveu sua ideologia antes e durante a guerra e foi responsável pelo assassinato e sequestro de muitos israelenses”, afirma o comunicado conjunto.
Ainda no comunicado, o comando israelense afirma que dezenas de operações realizadas no último ano, incluindo algumas nas últimas semanas na área onde Sinwar foi morto, restringiram o movimento operacional do líder do Hamas, levando a sua localização e eliminação.
“Nas últimas semanas, as forças das FDI e da ISA, sob o comando do Comando Sul, têm operado no sul da Faixa de Gaza, seguindo a inteligência das FDI e da ISA que indicou as localizações suspeitas de membros seniores do Hamas. Soldados da 828ª Brigada (Bislach) das FDI operando na área identificaram e eliminaram três terroristas. Após concluir o processo de identificação do corpo, pode ser confirmado que Yahya Sinwar foi eliminado”, acrescenta a nota.
O Hamas não confirmou a morte de Sinwar de forma oficial, mas fontes ligadas ao movimento ouvidos pela agência de notícias Reuters antes da declaração final de Israel afirmaram ter recebido indicações de que o chefe do grupo estava morto. Veículos de comunicação próximos ao grupo informaram mais cedo que os palestinos deveriam esperar pelo pronunciamento do Hamas e que não confiassem na imprensa ocidental e israelense, que teria por objetivo quebrar “o espírito” da resistência palestina.
“A eliminação de Sinwar abre a possibilidade para a libertação imediata dos reféns e abre caminho para uma mudança que levará a uma nova realidade em Gaza — sem o Hamas e sem o controle iraniano”, escreveu o chanceler israelense, Israel Katz.
O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, também se pronunciou após a confirmação oficial do governo. Referindo-se a uma reunião realizada na quarta-feira no Conselho de Segurança da ONU para discutir a situação em Gaza, Danon disse que a morte de Sinwar era a resposta aos questionamentos sobre a continuidade das operações do Estado judeu em Gaza.
Duas fontes israelenses ouvidas em anonimato pelo Washington Post afirmaram que exames de DNA e um reconhecimento feito a partir da arcada dentária permitiram confirmar a identidade do palestino, apontado por Israel como o mentor do atentado de 7 de outubro de 2023. Em uma nota publicada mais cedo, os próprios militares israelenses haviam citado a realização de testes de DNA.
Dinheiro, documentos de identificação e equipamentos de combate teriam sido encontrados junto aos corpos dos três mortos na operação, segundo o jornal israelense Haaretz.
— A eliminação de Sinwar neste momento, após a eliminação de diversas outras lideranças do Hamas e do Hezbollah, prova a disfuncionalidade em que o Hamas se encontra. Sua morte abre oportunidades para que egípcios e cataris possam usar mais influência para um acordo definitivo e a libertação dos reféns. Sua eliminação também acelera o processo de desmantelar o controle do Hamas no enclave palestino — avaliou o cienista político André Lajst, presidente da StandWithUs Brasil, organização de educação que apoia Israel e combate o antissemitismo.
Porém, há grupos em Israel que afirmam que a operação militar em nada acrescenta aos objetivos de resgatar os reféns e de criar um novo patamar de segurança para a região.
“Mesmo que Sinwar tenha realmente sido morto em uma operação das FDI ontem na Faixa de Faza, isso não muda nada. Não vai trazer de volta os sequestrados, não vai parar a guerra, não vai trazer de volta os mortos e não vai nos trazer segurança. Simplesmente porque nosso governo não está interessado em nada disso. Sinwar é um assassino em massa, sem dúvidas, mas aqueles que celebram sua eliminação estão celebrando a morte e nada mais”, pronunciou-se Alon-Lee Green, um dos líderes do movimento Standing Together, que defende a coexistência pacífica entre israelenses e palestinos.
Quem é Yahya Sinwar?
Líder do Hamas em Gaza desde 2017, Sinwar, de 62 anos, foi apontado como o maior responsável pelo ataque contra Israel em 7 de outubro de 2023, quando quase 1,2 mil pessoas foram mortas e mais de 250 foram sequestradas. Ele nasceu no campo de refugiados de Khan Younis e entrou para a militância armada quando Israel ainda ocupava a Faixa de Gaza. Sua primeira prisão foi em 1982, por “atividades islâmicas”, sendo novamente detido em 1985. Na época, se aproximou do fundador do Hamas, Ahmed Yassin, e assumiu o serviço de segurança interna do grupo. Seus alvos, além de pessoas acusadas de colaborarem com Israel, eram as “atividades imorais”, como lojas com material pornográfico. Em 1989, foi condenado à prisão perpétua por quatro homicídios.
Na prisão, tornou-se fluente em hebraico e, após ter feito uma cirurgia para retirar um tumor no cérebro, chegou a receber uma proposta para colaborar com Israel. Ele recusou. Em 2011, quando houve aquela que, até agora, era a mais famosa troca de reféns por prisioneiros da História de Israel — a de mil palestinos pelo soldado Gilad Shalit — Sinwar ganhou a liberdade e voltou para Gaza como um nome de destaque do Hamas.
Seis anos depois, em 2017, quando já integrava uma lista de pessoas consideradas terroristas pelos EUA, foi escolhido chefe do conselho político do Hamas na Faixa de Gaza, sucedendo a Ismail Haniyeh, que vivia no Catar. Apesar do passado “linha-dura”, que incluiu a ordenação de execuções de adversários mesmo quando estava na cadeia, os primeiros sinais enviados a Israel eram diferentes.
Em 2018, mandou mensagens, incluindo o próprio premier Benjamin Netanyahu, afirmando que estava cansado da guerra e que seu objetivo era transformar Gaza numa sociedade funcional e pacífica. Um discurso que, como apontam analistas hoje, convenceu muita gente.
Ao longo dos anos, Sinwar manteve contatos indiretos com o governo israelense e com a Autoridade Nacional Palestina, que controla a Cisjordânia ocupada, obtendo inclusive novas permissões para cerca de 18 mil palestinos que vivem em Gaza trabalhassem em Israel. A ideia que passava era de que o Hamas não estava preocupado com a guerra, mas sim com o dia a dia dos mais de 2 milhões de habitantes do enclave.
Após a morte do chefe do Gabinete político do Hamas, Ismail Haniyeh, em um bombardeio israelense em Teerã, em julho, Sinwar foi nomeado como seu sucessor.
Com informações de O Globo.





