comScore img tag

Entenda como funciona o Leqembi, primeiro medicamento liberado pela Anvisa a agir contra progressão do Alzheimer

O medicamento é capaz de desacelerar a destruição do cérebro; antes, não havia tratamento direcionado à doença em si, apenas às suas consequências

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou um novo tratamento para a doença de Alzheimer no Brasil, informa reportagem do portal g1. O medicamento Leqembi representa um avanço relevante ao atuar diretamente sobre o processo que leva à destruição progressiva do cérebro, algo que até então não era possível com as terapias disponíveis no país. A liberação ocorreu em 2025.

A doença de Alzheimer é a principal causa de demência neurodegenerativa no mundo. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de um milhão de pessoas convivem com o diagnóstico, que provoca perda gradual de memória, comprometimento cognitivo e impacto profundo na autonomia dos pacientes.

Até recentemente, os tratamentos disponíveis se limitavam a aliviar sintomas e retardar algumas consequências da doença, sem interferir diretamente em sua progressão. A aprovação do Leqembi marca uma mudança nesse cenário ao atingir um dos principais mecanismos biológicos associados ao Alzheimer.

Como o novo medicamento atua

O Leqembi é produzido a partir do anticorpo lecanemabe e é indicado para pessoas que já apresentam demência leve causada pela doença de Alzheimer. O medicamento utiliza um anticorpo semelhante aos produzidos naturalmente pelo sistema imunológico humano para reconhecer e atacar agentes estranhos ao organismo.

No caso do Alzheimer, o lecanemabe foi projetado para estimular a limpeza da beta-amiloide no cérebro. Essa substância pegajosa se acumula entre os neurônios e forma placas que estão entre as principais características da doença. Ao reduzir esse acúmulo, o medicamento busca desacelerar o processo de degeneração cerebral.

O tratamento é feito por meio de infusões intravenosas e é recomendado apenas para pacientes nos estágios iniciais da doença, quando ainda há maior potencial de benefício clínico.

Resultados comprovados em estudo internacional

A eficácia do lecanemabe foi demonstrada em um estudo publicado em 2022 na revista científica New England Journal of Medicine. A pesquisa envolveu 1.795 voluntários diagnosticados com Alzheimer em estágio inicial, que receberam infusões do medicamento a cada duas semanas.

Após 18 meses de acompanhamento, os pesquisadores observaram uma redução do declínio cognitivo-funcional nos pacientes tratados, indicando uma progressão mais lenta da doença em comparação com o grupo que não recebeu o anticorpo.

Desde 2023, o medicamento já havia sido aprovado nos Estados Unidos pela Food and Drug Administration e passou a ser comercializado no país. Com a decisão da Anvisa, o tratamento também passa a estar disponível no Brasil.

Do cuidado paliativo às terapias que tentam frear a doença

Durante décadas, o tratamento do Alzheimer foi essencialmente paliativo. Até os anos 1970, sabia-se que a doença estava associada ao envelhecimento, à atrofia cerebral e ao acúmulo de duas proteínas anormais: a tau, que se deposita dentro dos neurônios, e a beta-amiloide, que se acumula fora deles. As opções terapêuticas se restringiam a medidas de suporte, como mudanças de hábitos, uso de vitaminas, vasodilatadores e estimulantes de memória, sem comprovação científica de eficácia.

Com o avanço das pesquisas, a compreensão da causa biológica da doença se aprofundou, permitindo o desenvolvimento de terapias direcionadas aos mecanismos que levam à neurodegeneração. O Leqembi surge nesse contexto como uma das primeiras tentativas bem-sucedidas de interferir diretamente na evolução do Alzheimer.

“Isso representa uma nova linha de pesquisa e uma porta que se abre de oportunidade para intervir na evolução da doença”, explica Helder Picarelli, neurocirurgião do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Expectativas e cautela entre especialistas

Apesar do avanço, especialistas alertam que ainda é cedo para considerar o medicamento uma solução definitiva para o Alzheimer. O próprio Helder Picarelli destaca que, embora promissora, a terapia ainda precisa ser observada com cautela ao longo do tempo.

“Esse tipo de terapia é usando um anticorpo específico, ele tem modificado o tratamento, mas ainda é ainda é novo. Acho que a gente precisa aguardar um pouquinho mais para a gente ter uma conclusão definitiva. Eu não sei se o custo que é elevado e o risco compensa o benefício obtido pelo uso desse tipo de medicação”, afirma o médico.

A aprovação do Leqembi abre caminho para novas pesquisas e tratamentos voltados a frear a progressão do Alzheimer, mas também traz desafios relacionados ao custo, à segurança e à definição de quais pacientes realmente se beneficiarão da terapia no longo prazo.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading