O retrato do eleitor brasileiro está envelhecendo — e os números das eleições de 2026 deixam essa mudança ainda mais evidente. Enquanto diminui a presença dos mais jovens entre os cidadãos habilitados a ir às urnas, cresce de forma acelerada a participação dos eleitores com 60 anos ou mais.
Dados extraídos do Cadastro Nacional de Eleitores, atualizado mensalmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram que 158.745.763 brasileiros estão aptos a votar em 2026. Dentro desse universo, porém, as diferentes gerações caminham em direções opostas.
Entre os jovens de 16 a 18 anos, faixa que inclui eleitores para os quais o voto ainda é facultativo, houve uma redução expressiva em comparação com a eleição presidencial anterior. O grupo passou de 4.177.627 eleitores, em 2022, para 3.571.159 neste ano. São 606.468 jovens a menos no cadastro eleitoral, uma retração de 14,52% em quatro anos.
Mais idosos ganham peso nas urnas
No outro extremo da pirâmide etária, o movimento é inverso. O contingente de eleitores com 60 anos ou mais saltou de 32,8 milhões em 2022 para 37,4 milhões em 2026, crescimento próximo de 14%.
Com o avanço, essa faixa etária passou de 21,02% para 23,60% do eleitorado brasileiro. Isso significa que quase um em cada quatro cidadãos aptos a votar no país tem pelo menos 60 anos.
No Estado do Rio de Janeiro, o envelhecimento do eleitorado é ainda mais acentuado. Cerca de 28% dos eleitores fluminenses têm 60 anos ou mais, percentual superior à média nacional.
Mudança também é demográfica
A transformação observada nas urnas acompanha uma mudança mais ampla na composição da população brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a parcela de pessoas com 60 anos ou mais praticamente dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6%.
Ao mesmo tempo, a redução da fecundidade diminui proporcionalmente o peso das gerações mais novas. O resultado dessa combinação aparece progressivamente no cadastro eleitoral e tende a aumentar a participação relativa das faixas etárias mais elevadas.
Voto facultativo desafia participação
A queda entre os eleitores de 16 e 17 anos ganha relevância porque, nessa idade, o voto é facultativo. A obrigatoriedade começa aos 18 anos e deixa de existir novamente a partir dos 70. Quem tem 16 ou 17 anos e não comparece às urnas não precisa justificar a ausência nem está sujeito a multa.
Para Lícia Damasceno, diretora da Escola do Legislativo (Elerj) e professora do ensino fundamental, a redução da participação eleitoral entre adolescentes não deve ser interpretada simplesmente como falta de interesse por assuntos públicos. Na avaliação dela, existe um distanciamento entre os jovens e as instituições políticas.
Uma das estudantes que não participará da eleição deste ano é Carolina de Oliveira, de 16 anos, que perdeu o prazo para fazer a inscrição eleitoral. Apesar de acompanhar debates na escola, ela identifica uma dificuldade de aproximação de parte de sua geração com a política.
“Apesar de todas as ferramentas que possuímos atualmente, acabamos não tendo tanta informação. Vejo que os jovens não se sentem representados pela política ou acham que ela não faz diferença”, afirma.
Carolina Marski, também de 16 anos, decidiu não votar em 2026 e aponta a polarização e a dinâmica das redes sociais entre os fatores que influenciam esse afastamento.
“Acho que a internet influencia bastante os adolescentes, já que muitas vezes as propostas dos políticos não são tão divulgadas quanto seus erros e polêmicas”, diz.
Para Lícia, ampliar a educação para a cidadania pode ajudar a aproximar esse público das instituições. “Precisamos mostrar ao jovem que o voto aos 16 anos é uma oportunidade de começar a participar das decisões que irão impactar o seu próprio futuro, e não apenas uma obrigação eleitoral”, afirma.
Iniciativas para atrair adolescentes
No Rio, iniciativas institucionais procuram estimular essa aproximação. Desde 2023, a Lei 10.238/23 institui o Dia de Incentivo à Emissão do Título de Eleitor para jovens de 16 a 18 anos, celebrado em 2 de março.
Outra ação é o Parlamento Juvenil, realizado há mais de duas décadas em parceria com a Secretaria de Estado de Educação. O programa seleciona 97 estudantes da rede estadual para vivenciar simbolicamente, durante uma semana, a rotina parlamentar.
Em 2026, 853 estudantes dos 92 municípios fluminenses demonstraram interesse em participar — recorde do programa e 184 inscrições a mais do que em 2025. Os selecionados recebem capacitação, acompanham o funcionamento do Legislativo e elaboram propostas que podem posteriormente ser incorporadas por deputados e seguir a tramitação formal.
“Nosso papel é justamente aproximar o jovem do Parlamento, explicar como as decisões políticas impactam sua vida e mostrar que política não é apenas eleição. É participação, cidadania e construção coletiva”, diz Lícia.
Os números de 2026, porém, revelam um desafio que vai além das ações de conscientização. Ao mesmo tempo em que o envelhecimento populacional amplia naturalmente o peso dos mais velhos nas urnas, a redução do contingente de jovens habilitados a votar reforça uma mudança geracional que já começa a alterar a composição do eleitorado brasileiro.







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