Investigação aponta Vorcaro usou financeira nas Bahamas como hub para movimentar dinheiro no exterior

Instituição financeira nas Bahamas teria sido usada para distribuir recursos a empresas nos Estados Unidos, adquirir bens de luxo e repatriar valores; investigadores buscam identificar destinatários das transferências

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Uma instituição financeira sediada nas Bahamas entrou no centro das investigações sobre o destino do dinheiro movimentado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo investigadores ouvidos pela Folha de S.Paulo, a Mosaic teria funcionado como uma central de distribuição de recursos no exterior, permitindo transferências para diferentes países, aquisição de bens de luxo e operações que dificultariam a identificação dos beneficiários.

A suspeita é de que a estrutura tenha sido utilizada para movimentar grandes quantias fora do Brasil, especialmente por meio de empresas registradas em Delaware, nos Estados Unidos. O estado americano possui regras societárias que oferecem maior privacidade sobre a identidade de proprietários e administradores de determinadas empresas.

Os investigadores trabalham agora para reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro, identificar os destinatários das operações e verificar se parte dos valores teve relação com outras movimentações financeiras investigadas pela Polícia Federal (PF).

Procurada na quarta-feira (21), a defesa de Vorcaro não respondeu aos questionamentos da reportagem. A Mosaic também não se manifestou após contatos por telefone e e-mail.

Bahamas e Delaware entram na rota do dinheiro

A Mosaic é uma instituição financeira especializada na administração de fundos de investimento, com sede em Nassau, capital das Bahamas. De acordo com investigadores, a empresa teria sido utilizada como intermediária para enviar recursos do Banco Master a diferentes destinatários internacionais.

Parte significativa do dinheiro teria seguido para Delaware, estado americano frequentemente utilizado na constituição de empresas por oferecer condições tributárias e societárias consideradas favoráveis.

A investigação aponta que o volume financeiro movimentado pela Mosaic superou os repasses destinados ao Havengate, fundo registrado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto.

O Havengate também é investigado pela Polícia Federal por ter recebido recursos de Vorcaro relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os investigadores apuram se o dinheiro transferido ao fundo, supostamente por solicitação de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, foi efetivamente aplicado na produção cinematográfica ou se parte dos valores foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Polícia Federal investiga possíveis beneficiários

Uma das principais frentes da investigação busca esclarecer se a Mosaic também serviu para transferir recursos a pessoas ou empresas ligadas aos demais negócios de Vorcaro nos Estados Unidos.

Os agentes procuram identificar quem recebeu os valores enviados a Delaware e se existe conexão entre essas transferências e aquelas realizadas por meio do Havengate.

Segundo a apuração da Folha, Vorcaro também teria recorrido à Entre, empresa utilizada para intermediar pagamentos internacionais, para movimentar recursos que passaram pela Mosaic.

A Entre pertence a Antonio Carlos Freixo, cujo advogado informou estar impedido de comentar o caso fora dos autos em razão de um acordo de colaboração firmado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Os investigadores consideram a participação da empresa uma peça relevante para compreender a estrutura de movimentação internacional atribuída ao ex-banqueiro.

Dinheiro teria retornado ao Brasil após crise do Master

As suspeitas não se limitam às remessas internacionais. Investigadores afirmam que a Mosaic também teria sido utilizada para trazer parte dos recursos de volta ao Brasil.

A hipótese investigada é de que, após o agravamento da crise do Banco Master, Vorcaro tenha recorrido ao dinheiro mantido no exterior para custear despesas jurídicas e financiar campanhas de comunicação contra o Banco Central e outros adversários.

As autoridades também apuram se valores enviados à instituição financeira poderiam ter sido utilizados para quitar obrigações no Brasil.

Segundo investigadores, Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, teria considerado a possibilidade de utilizar recursos mantidos na Mosaic para pagar dívidas trabalhistas. A iniciativa não teria avançado após sua prisão, em maio deste ano.

O dinheiro movimentado pela instituição acabou congelado pelo liquidante do Banco Master, que contratou uma empresa internacional especializada no rastreamento de patrimônio para localizar ativos associados a Vorcaro fora do país.

Disputa judicial envolve recursos bloqueados

Os valores congelados na Mosaic passaram a ser objeto de uma disputa judicial entre a instituição das Bahamas e a EFB Regimes Especiais, responsável pela liquidação do Banco Master.

O liquidante sustenta que os recursos devem ser utilizados para ressarcir credores e funcionários da instituição financeira.

A Mosaic, por sua vez, defende que o dinheiro seja destinado à União.

A controvérsia envolve a titularidade e a destinação dos valores, enquanto as investigações procuram esclarecer a origem dos recursos e a legalidade das operações realizadas no exterior.

A própria Mosaic apresenta seu modelo de atuação de maneira reservada. Em seu site, afirma que, “por concepção, não se verá muita publicidade” sobre suas atividades, porque foi “concebida para operar nos bastidores”.

Relato aponta R$ 20 bilhões enviados ao exterior

A preocupação com o patrimônio mantido fora do Brasil também aparece em conversas reveladas pela revista piauí.

Em um dos diálogos divulgados pela publicação, o empresário Fabiano Zettel, pastor da Igreja Lagoinha, cunhado e apontado como operador financeiro de Vorcaro, comenta a mobilização do ex-banqueiro e de seus aliados durante o colapso do Master.

Na conversa com uma mulher com quem manteve um relacionamento extraconjugal, Zettel afirma que Vorcaro teria enviado R$ 20 bilhões para fora do país.

Segundo o relato, o ex-banqueiro enfrentava dificuldades para acessar os valores diante do avanço das investigações e das medidas adotadas pelas autoridades.

A quantia mencionada na conversa é uma declaração atribuída a Zettel e não representa, por si só, uma confirmação independente do montante efetivamente transferido.

Obras de arte, imóveis, jatinhos e iates estão sob investigação

Além das transferências financeiras, os investigadores examinam a utilização de recursos no exterior para a aquisição de patrimônio de alto valor.

Entre os bens mencionados nas apurações estão imóveis, aeronaves particulares, embarcações e obras de arte.

Conforme revelou a Folha, a EFB Regimes Especiais apresentou à Justiça americana informações sobre operações envolvendo quatro obras de arte avaliadas em aproximadamente US$ 20 milhões, equivalentes a cerca de R$ 103,9 milhões pela cotação utilizada na reportagem original.

Os documentos relatam compras e tentativas de venda dessas peças, que passaram a integrar o esforço de rastreamento do patrimônio relacionado ao ex-banqueiro.

A investigação busca estabelecer se os bens foram adquiridos com recursos vinculados ao Banco Master e se poderão ser alcançados por medidas judiciais destinadas à recuperação de valores.

A identificação dos beneficiários das transferências realizadas pela Mosaic e o desfecho da disputa sobre o dinheiro bloqueado serão determinantes para esclarecer a dimensão das operações internacionais atribuídas a Vorcaro e a possibilidade de ressarcimento dos credores da instituição.

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