A exploração clandestina de serviços de internet deixou de ser uma atividade periférica e passou a integrar o núcleo financeiro do crime organizado no Rio de Janeiro. Facções criminosas e milícias vêm ampliando o controle sobre a oferta de conexão em comunidades e bairros dominados, impondo taxas a empresas legalizadas, expulsando concorrentes e assumindo diretamente a operação do serviço em diversas regiões do estado.
Levantamento do jornal O Globo baseado em investigações policiais, registros do Disque-Denúncia, relatos de moradores e informações repassadas por operadoras e provedores aponta que a atuação criminosa ligada ao setor já foi identificada em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses. Nos quatro primeiros meses de 2026, empresas do ramo foram alvo de ataques violentos em cidades como Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá, onde veículos e instalações acabaram incendiados.
O avanço dessa prática está diretamente ligado à consolidação do controle territorial exercido por traficantes e milicianos. Segundo investigadores, a ausência do Estado em determinadas áreas permite que grupos armados monopolizem serviços básicos e transformem atividades econômicas em fontes permanentes de arrecadação.
Controle territorial alimenta esquema
O delegado Pedro Brasil, titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), afirma que a principal dificuldade para combater esse tipo de crime está justamente no domínio territorial exercido pelas organizações criminosas.
“Eles (bandidos) monopolizam os serviços e produtos e passam a atuar em todos os locais que dominam. Não é só internet, mas também venda de gás, carvão e gelo. O problema é o domínio de território. Todo território dominado é explorado dessa maneira”, diz o delegado, antes de apontar um obstáculo à ação da polícia: “O crime organizado também usa empresas legais para explorar o negócio, o que pode dificultar as investigações.”
A expansão do negócio ilegal começou em áreas sob influência da milícia, mas rapidamente foi reproduzida por facções do tráfico de drogas, especialmente pelo Comando Vermelho. Com o passar do tempo, a atividade deixou de se restringir às favelas e alcançou bairros do asfalto e cidades do interior fluminense.
Em muitos locais dominados por criminosos, operadoras oficiais são proibidas de fazer manutenção, instalar novos equipamentos ou acessar clientes. A partir desse bloqueio, grupos armados assumem a prestação do serviço ou passam a cobrar pedágios das empresas que desejam continuar atuando.
A DDSD registra atualmente cerca de 15 ocorrências mensais relacionadas a denúncias de concessionárias e provedores. Os casos incluem ameaças, ataques a funcionários, destruição de equipamentos e impedimento de acesso a determinadas áreas.
As denúncias se espalham por regiões distintas do estado, incluindo municípios da Baixada Fluminense, São Gonçalo, Cachoeiras de Macacu, Saquarema e Cabo Frio.
Ataques e ameaças aumentam
O primeiro caso registrado em 2026 ocorreu em 6 de janeiro, quando o carro de uma empresa de internet foi incendiado em Papucaia, distrito de Cachoeiras de Macacu. Em março, novos episódios ocorreram em Japeri e Paracambi.
Em Japeri, criminosos incendiaram um escritório e um automóvel ligado à empresa. Em Paracambi, um veículo utilizado na manutenção de redes de fibra óptica também foi destruído. Em um dos casos, um criminoso chegou a divulgar ameaças pelas redes sociais contra empresários que se recusassem a pagar taxas de extorsão.
O episódio mais recente aconteceu em 28 de abril, em Maricá, quando o veículo utilizado por um técnico acabou incendiado durante um ataque.
Empresas e provedores relatam dificuldades crescentes para manter atendimento regular em áreas afetadas pela atuação criminosa. Regiões de Angra dos Reis, Fonseca, em Niterói, São Gonçalo, Macaé, Duque de Caxias e Brás de Pina estão entre os pontos apontados como críticos.
A pressão exercida pelo crime organizado vem provocando prejuízos econômicos e operacionais. Um empresário do setor, que pediu anonimato por questões de segurança, afirma que deixou de atender áreas de 27 bairros em São Gonçalo devido ao risco enfrentado pelos funcionários.
“O tráfico não está só na comunidade. Alcançou a área do Fonseca, na Alameda, em Niterói, e São Gonçalo. Neste município, perdemos quase 10 mil clientes. Sem a expansão de 10% que era prevista ao ano, cerca de 150 empregos diretos, de carteira assinada, deixaram de ser gerados”, afirma o empresário.
“O Rio de Janeiro é uma zona minada, é muito difícil trabalhar. A Região dos Lagos também tem cidades com locais que você não consegue mais atender. Cabo Frio tem, Rio das Ostras tem, Búzios também”, conclui.
Empresas de fachada e taxas ilegais
As investigações mostram que os grupos criminosos atuam de duas formas principais. Em alguns casos, criam ou utilizam empresas formalmente registradas para operar o serviço de internet em regiões dominadas. Em outros, impõem cobranças ilegais às operadoras já estabelecidas.
Segundo investigadores, as taxas cobradas pelos criminosos podem chegar a até metade do valor pago pelos clientes.
Em Duque de Caxias, nos bairros Campos Elíseos e Saracuruna, a polícia identificou esse tipo de prática em investigações conduzidas pela 23ª DP (Méier). O inquérito apontou a atuação dos traficantes Joab da Conceição Silva, conhecido como Joab, e Carlos Henrique Santos de Araújo, o CH, ambos considerados foragidos.
A delegada Patrícia Uana afirma que os grupos atuavam tanto na exploração direta do serviço quanto na cobrança de taxas de empresas locais.
“O Joab explorava serviços de internet através de empresa legalizada gerida por pessoas interpostas. Esta empresa entrou depois que bandidos ameaçaram os prestadores de serviço que atuavam na região. O grupo do Joab tomou pontos físicos de internet e subtraiu objetos de quem foi expulso. No caso do CH, ele cobrava taxas de uma empresa já estabelecida”, revela a delegada Patrícia Uana, da 23ª DP (Méier), que prendeu 15 pessoas e indiciou 31 suspeitos de integrar os grupos criminosos.
Plano prevê retomada territorial
A gravidade do problema levou o tema ao Supremo Tribunal Federal, no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. O governo estadual apresentou à Corte um Plano de Reocupação Territorial que prevê ações iniciais em três comunidades da Zona Sudoeste do Rio atualmente dominadas por criminosos.
Nessas localidades, a proposta inclui um projeto-piloto para substituir cabos convencionais de internet por transmissão via rádio. A medida busca reduzir furtos, sabotagens e danos às redes físicas.
Segundo o subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública, delegado Pablo Sartori, apenas nas regiões da Muzema, Rio das Pedras e Gardênia Azul foram identificadas 18 empresas explorando irregularmente o serviço de internet.
As autoridades estimam que os grupos criminosos arrecadem cerca de R$ 3 milhões por mês nessas áreas.
“Conversamos com grandes operadoras, todas aceitaram fornecer para essas comunidades a internet via rádio. Funcionaria tal qual os telefones celulares, que recebem internet de boa qualidade via sinal de rádio, sem cabeamento. Toda casa teria um modem que receberia o sinal via antena de telefonia”, diz o subsecretário. E complementa: “A exploração de internet está na base da estrutura do crime organizado. Hoje o crime vive sem venda de drogas, mas não sem atividades econômicas como a internet.”
Denúncias aumentam
Os números do Disque-Denúncia mostram crescimento das queixas relacionadas à comercialização clandestina de internet e TV a cabo.
Em 2024, o serviço recebeu 1.772 denúncias sobre o tema. No ano seguinte, o total subiu para 2.047 registros, alta superior a 15%. Somente entre janeiro e 8 de maio de 2026 já haviam sido contabilizadas 593 denúncias, sendo 279 delas na capital fluminense.
Procurada pelo Globo, a Polícia Militar informou que a exploração clandestina de serviços e a extorsão costumam ocorrer de forma velada, o que torna essencial a colaboração da população por meio de denúncias.
Já a Polícia Civil afirmou, em nota, que delegacias especializadas e distritais intensificaram ações de inteligência, monitoramento e operações voltadas à desarticulação das estruturas financeiras das facções criminosas.





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