Herdeiros da cúpula do jogo do bicho lideram e comandam o Carnaval do Rio

Quatro das cinco primeiras colocadas do Grupo Especial do Rio têm ligação direta com famílias de contraventores

Quatro das cinco primeiras colocadas do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 são comandadas ou influenciadas por herdeiros de contraventores ligados ao jogo do bicho. A apuração do Grupo Especial, realizada na Quarta-feira de Cinzas, confirmou o protagonismo dessas famílias no topo da maior festa popular do país. As informações são de reportagem de O Globo.

A grande campeã foi a Unidos do Viradouro, que conquistou seu quarto título e consolidou uma trajetória recente de ascensão e vitórias. A escola é presidida por Marcelo Calil Petrus Filho, conhecido como Marcelinho Calil.

Ele é neto de Antônio Petrus Kalil, o Turcão, figura histórica do jogo do bicho no estado do Rio de Janeiro, falecido em 2019. Desde que assumiu a presidência, em 2017, quando a agremiação ainda estava no antigo Grupo de Acesso, Marcelinho conduziu a escola a uma sequência de conquistas e desfiles marcados pelo luxo e pela grandiosidade.

Viradouro amplia hegemonia recente

Com o título de 2026, a Viradouro soma campeonatos em 1997, 2020, 2024 e agora 2026. A escola saiu do acesso para se tornar uma das maiores potências do carnaval carioca na última década.

A gestão de Marcelinho Calil é apontada como decisiva para a reestruturação financeira e artística da agremiação, que passou a investir em produções grandiosas e elencos de peso na avenida.

A influência familiar no comando da escola reforça uma tradição histórica do carnaval do Rio, em que patronos ligados ao jogo do bicho tiveram papel relevante no financiamento e fortalecimento das agremiações.

Vila Isabel mantém protagonismo no pódio

A terceira colocação ficou com a Unidos de Vila Isabel, presidida por Luiz Guimarães desde 2022. Ele assumiu o cargo aos 24 anos.

Luiz é filho de Aílton Guimarães Jorge, conhecido como Capitão Guimarães, nome histórico do jogo do bicho no Rio. O pai segue como patrono da escola e mantém influência nos bastidores.

Em seu primeiro ano na presidência, Luiz levou a Vila ao terceiro lugar, resultado que se repetiu no Carnaval de 2026, consolidando a agremiação entre as favoritas do Grupo Especial.

Imperatriz segue tradição familiar

Na quinta posição apareceu a Imperatriz Leopoldinense, presidida por Cátia Drumond. Ela é filha de Luizinho Drumond, que comandou a escola por décadas até sua morte, em 2020.

Luizinho esteve à frente da agremiação de Ramos desde os anos 1970 e acumulou oito títulos no período. Sob a gestão de Cátia, a escola conquistou mais um campeonato, em 2023.

A sucessão familiar manteve a tradição administrativa da verde e branco, uma das mais vitoriosas da história recente do carnaval carioca.

Beija-Flor tem patrono histórico e nova geração nos bastidores

Vice-campeã em 2026, a Beija-Flor de Nilópolis segue tendo como patrono Aniz Abraão David, o Anísio, apontado como um dos nomes mais conhecidos do jogo do bicho no estado.

Aos 87 anos, ele continua presente nos desfiles e nos eventos preparatórios da escola, mesmo com limitações de locomoção. A Beija-Flor foi campeã no ano anterior e soma 15 títulos no Grupo Especial.

Nos bastidores, o dia a dia da agremiação é atribuído a Gabriel David, filho de Anísio. Atualmente, ele preside a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e é apontado como uma das principais lideranças da nova geração do carnaval carioca.

O resultado da apuração de 2026 reforça um cenário em que tradição familiar, poder financeiro e influência histórica seguem entrelaçados no comando das principais escolas de samba do Rio, mantendo viva uma relação antiga entre o jogo do bicho e o espetáculo da Marquês de Sapucaí.

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