* Paulo Baía
Helena Theodoro é uma dessas presenças que não cabem em molduras estreitas. Sua trajetória é um espelho reluzente contra as estruturas racistas que tentaram interditar a voz da mulher negra na universidade, no rádio, na filosofia e na política. Nascida em 12 de junho de 1943, na Tijuca, no Rio de Janeiro, filha de militantes negros históricos, cresceu entre livros, cultura e resistência. Aos quinze anos, já atuava na Rádio MEC, onde iniciou uma longa carreira de inovação e democratização da comunicação. Quando se tornou doutora em Filosofia pela Universidade Gama Filho, em 1985, não apenas fez história: abriu uma clareira luminosa num campo obscurecido por séculos de exclusão.
Helena foi a primeira mulher negra a conquistar um doutorado em Filosofia no Brasil, e o fez com a coragem dos que sabem que pensar é também um ato político. Sua tese “O negro no espelho” tornou-se um marco ao colocar o sujeito negro como protagonista da reflexão ética, estética e cultural. Helena não pediu licença à academia: ergueu, com sua presença, um outro marco epistemológico. Trouxe à cena saberes de matriz africana com rigor teórico, sofisticação conceitual e profunda vinculação à vida concreta da população negra. Sua ousadia não foi apenas acadêmica; foi civilizatória.
Nos microfones da Rádio MEC, criou programas como “Origens” e “Samba na Palma da Mão”, que levaram o pensamento negro ao cotidiano de milhares de ouvintes. Entrevistou intelectuais, artistas, líderes de terreiro, ativistas e fez da rádio um quilombo eletrônico. Na sala de aula, lecionou com firmeza e encantamento, orientando gerações de estudantes nas universidades. Na política, foi protagonista durante a Assembleia Constituinte de 1987-88, onde sua fala sobre a abolição inacabada entrou para a história. Helena não era voz isolada: era a síntese vibrante de uma ancestralidade em movimento.
Sua obra inclui reflexões sobre mitologia africana, carnaval, espiritualidade e cultura afro-brasileira. Escreveu com beleza e profundidade, sempre comprometida com o coletivo. Para Helena, produzir conhecimento é partilhar sabedoria e lutar por justiça. Sua escrita não isola: aproxima. Sua palavra não impõe: convoca. Seus livros são instrumentos de luta, celebração e reencantamento do mundo. Ela pensa com o corpo, com o axé, com a história e com o futuro. Faz da filosofia uma dança sagrada, uma festa da lucidez.
Mais do que uma intelectual, Helena Theodoro é uma referência pública em constante atividade. Aos 82 anos, continua presente nos debates sobre democracia, reparação, identidades e espiritualidade negra. É conselheira, professora, colaboradora em instituições e projetos que promovem o saber afro-brasileiro e o direito à dignidade. Sua atuação é reconhecida nacionalmente e celebrada artisticamente, como na ocupação cultural Trilogia Matriarcas, no CCBB, que homenageou seu legado. A vitalidade de Helena não é um traço biográfico: é um fenômeno político e espiritual.
Helena Theodoro é um farol aceso nas noites longas da história brasileira. Representa um Brasil que ousa não se curvar, um pensamento que não se domestica. Sua existência é um chamado à coragem, à liberdade e à beleza de existir com consciência. Celebrar Helena é celebrar um Brasil que pensa com outros olhos, ouve com outros ouvidos e sonha com outros mundos possíveis. Ela está viva, lúcida, produtiva, em plena atividade intelectual, artística e política, com o mesmo vigor de sempre. Porque há pessoas que não passam: permanecem. E Helena Theodoro permanecerá.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ




