A Ilha do Governador, na Baía de Guanabara, Zona Norte do Rio, vive uma espécie de universo paralelo em comparação com outras áreas sob domínio do crime organizado. Longe dos holofotes das megaoperações policiais, o tráfico local intensificou o uso de táticas de milícia em uma realidade violenta devido às ameaças impostas por uma guerra interna do Terceiro Comando Puro (TCP) nos últimos meses e por ataques do Comando Vermelho (CV).
Os conflitos se intensificaram após a morte de Fernandinho Guarabu, baleado em uma troca de tiros com a polícia há seis anos. Na ocasião, ele era apontado pelas autoridades como o mais antigo chefe do tráfico no Rio, com quase duas décadas à frente das favelas em uma região com mais de 200 mil moradores. Sob nova gestão, o TCP passou a instalar barricadas, prática até então proibidas por Guarabu.

“A cobrança típica de milícia por oferecimento ilegal de sinal de internet, TV a cabo, venda de gás e até cobrança de água é uma prática principalmente no Morro do Dendê, que atua em uma região onde há um vácuo do Estado”.
Marcus Amim, delegado e ex-secretário da Polícia Civil do Rio
Mas é a guerra interna na Ilha que tem imposto um ambiente de terror aos moradores desde o começo do ano. Mario Henrique Paranhos de Oliveira, o Neves, que chefia o TCP na região, agora conta com a resistência de um antigo aliado. Fabio Corrêa de Andrade, o Neguinho, que era um dos homens de confiança de Guarabu, se desentendeu com Neves, dando início a uma disputa dentro da própria facção. Neguinho está à frente da facção na comunidade Boog Woogie, que tem cerca de 15 mil moradores e fica às margens da Baía de Guanabara.
Informações obtidas pela Agenda do Poder junto a inquéritos policiais que investigam o tráfico na Ilha indicam um cenário de intimidações e troca de tiros. Em junho deste ano, Neves enviou um comunicado por WhatsApp. Nele, restringiu a ida de moradores à área de domínio de Neguinho, permitindo apenas visitas a parentes. “Quem for, vai ser chamado pro desenrolado”, escreveu.

Dias depois, um vídeo nas redes sociais mostrava um confronto a tiros do TCP chefiado por Neves contra o grupo de criminosos sob as ordens de Neguinho, que fazem parte da mesma facção. Os disparos teriam atingido veículos de moradores. No fim de agosto deste ano, um criminoso de confiança de Neves teria sido vítima de um atentado tramado por Neguinho.
Em setembro, um novo recado foi atribuído a Neves, reforçando a mensagem anterior: “Lembrando que será permitido a ida ao Bw [Boog Woogie] somente quem vai visitar família ou trabalho”. Há apenas três semanas, Neves se manifestou mais uma vez sobre o assunto, proibindo moradores do Morro do Dendê a frequentar um baile funk em comemoração ao aniversário de Neguinho.
‘Fator CV’: o inimigo mora ao lado
O TCP exerce o domínio em cerca de 80% do território da Ilha do Governador. O Morro do Dendê, QG da facção criminosa na região sob o domínio de Neves e antigo reduto de Guarabu, não enfrenta só os ataques em meio à guerra interna do TCP.
A região também tem enfrentado ataques do CV, que ocupa um pequeno território no Morro do Barbante. O caso mais recente ocorreu há duas semanas. Na ocasião, duas mulheres ficaram feridas após uma tentativa de invasão. As vítimas estavam perto de um food truck quando homens armados atiraram em direção a um dos acessos da comunidade. Em maio, um motociclista morreu ao ser atropelado por criminosos em fuga de uma perseguição da PM após um ataque ao Morro do Dendê. Os suspeitos acabaram sendo detidos em seguida.
Mas o grupo chefiado por Neves também ataca o Morro do Barbante, área ocupada pela facção rival. Em março deste ano, um ataque do TCP no território da facção rival resultou na morte de um morador. Há dois meses, outro morador morreu no meio do fogo cruzado e outras duas pessoas se feriram em confronto em uma nova tentativa de invasão do TCP.

Barricadas e táticas de milícia
O uso de barricadas nas áreas sob o domínio do tráfico, prática combatida como plano de governo do Rio, só passou a ser explorada na Ilha do Governador após a morte de Guarabu.
“Neves começou um movimento de instalação de barricadas nas favelas do TCP da Ilha, em especial no entorno do Dendê, prática essa que não foi realizada quando Fernandinho Guarabu esteve à frente das comunidades da localidade”.
Trecho do livro “Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro”, de Daniel Ferreira de Souza
As próprias ações do poder público indicam isso. Em fevereiro deste ano, a Secretaria de Ordem Pública (Seop) removeu dez barricadas na região com o apoio da Polícia Militar. Segundo o órgão, o recurso também era usado para cobrar pedágio aos moradores e como pontos de extorsão a motoristas de aplicativo. A estrutura era feita com trilhos de trem, tijolos e latões com concreto erguidos no meio da via pública.
Em julho, a Prefeitura voltou à região para demolir 11 construções irregulares, que ocupavam ilegalmente uma área de 420 metros quadrados da área pública que seriam usados como pontos comerciais. Na ocasião, duas barricadas também foram removidas.

Em agosto, criminosos no Morro do Dendê reagiram a tiros a uma operação policial e ainda usaram 13 ônibus incendiados para fazer barricada, impedindo o avanço dos veículos das forças de segurança. Na ocasião, a PM apreendeu quatro fuzis e prendeu quatro suspeitos. Cinco escolas particulares suspenderam as atividades.
Há duas semanas, a PM voltou a retirar barricadas da região e entrou em confronto com criminosos. Um suspeito ficou ferido e acabou sendo preso. Duas pistolas, uma granada e munições foram apreendidas. Na ação, os agentes localizaram muros com furos para apoio de fuzis, onde criminosos se abrigam para atirar, em mais uma evidência da fortaleza do crime em uma região distante do epicentro da guerra imposta pelas forças policiais nas favelas do Rio de Janeiro.


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