As guardas municipais ultrapassaram o efetivo das polícias civis e se consolidaram como a segunda maior força de segurança pública do Brasil, atrás apenas das polícias militares. Dados divulgados nesta terça-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que as corporações municipais reuniam 107.457 agentes em 2025, crescimento de 12,9% em relação a 2023.
No mesmo período, o número de policiais civis chegou a 96.902, alta de apenas 1%. As polícias militares permanecem como as maiores forças do país, com 413.319 profissionais na ativa, avanço de 2% na comparação com o levantamento anterior.
A pesquisa, intitulada Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, contabilizou 818.521 profissionais ativos em todas as corporações, aumento geral de 2,8%. O estudo, porém, aponta uma expansão desigual: enquanto as guardas municipais ganham espaço, forças voltadas à investigação criminal enfrentam estagnação ou redução de efetivos.
Expansão das guardas ocorre sem controle uniforme
O crescimento das guardas municipais é acompanhado por lacunas na fiscalização e na produção de informações sobre essas corporações. Os pesquisadores estimam a existência de 1.384 guardas ativas no país, mas ressaltam que o número é aproximado e foi obtido a partir do cruzamento de dados do IBGE, do Ministério do Trabalho e do Ministério da Justiça.
Para o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, o avanço do policiamento municipal não é necessariamente negativo, mas exige regras mais claras e mecanismos de controle. “Tem um deslocamento do papel das guardas, um crescimento do protagonismo, só que ninguém controla”, afirmou.
Segundo ele, ainda faltam dados consolidados sobre quantas corporações estão armadas, como atuam e quais estruturas de fiscalização estão disponíveis. O cenário ganha relevância diante do aumento do protagonismo das guardas na segurança urbana e do debate sobre a ampliação de suas atribuições.
O relatório também aponta que 44 cidades brasileiras mantêm efetivos acima dos limites previstos no Estatuto Geral das Guardas Municipais, instituído por lei federal em 2014. A pesquisa questiona a concessão de atribuições policiais a instituições cujo número exato de agentes, códigos de conduta e mecanismos de controle externo ainda não são plenamente conhecidos.
Investigação policial e previdência preocupam
Enquanto as guardas cresceram quase 13%, as polícias civis registraram expansão de apenas 1%, o que, na avaliação do FBSP, representa basicamente a reposição de profissionais. A Polícia Penal, responsável pela custódia dos presos, teve redução de 3% no efetivo.
“O debate eleitoral fala em mais prisão e mais pena. Só que aí você pergunta: cadê a investigação policial?”, questionou Renato Sérgio de Lima, em entrevista ao Globo. Para ele, o baixo crescimento das estruturas investigativas pode dificultar o enfrentamento de organizações criminosas e a solução de crimes.
Outro ponto de alerta é o peso da previdência sobre as contas públicas. O país tinha 424.415 aposentados das forças de segurança, grupo que representa 22% dos servidores inativos, mas responde por 34% das despesas com remuneração.
A folha de pagamento do setor chegou a aproximadamente R$ 230 bilhões em 2025. Desse total, R$ 135 bilhões foram destinados aos profissionais da ativa e R$ 96 bilhões aos inativos. Em média, aposentados da segurança recebem 24% a mais do que os agentes em atividade, enquanto a diferença em outras áreas do serviço público é de cerca de 1%.
Salários desiguais e excesso de cargos de chefia
O levantamento também identificou grandes diferenças salariais entre os estados. Um soldado da Polícia Militar no Rio Grande do Norte recebe, em média, R$ 4.276, enquanto a remuneração média para o mesmo cargo no Ceará chega a R$ 11.609.
No topo da carreira, a média salarial dos coronéis varia de R$ 25.871 no Piauí a R$ 42.363 no Paraná. O estudo aponta ainda que o país possui mais sargentos do que soldados, indicando uma estrutura com grande número de postos intermediários e de chefia.
Segundo os pesquisadores, as promoções verticais passaram a ser utilizadas como forma de reajuste salarial, em vez da adoção de planos de carreira compatíveis com as atribuições exercidas. O modelo pode ampliar a presença de agentes em funções administrativas e reduzir o número de profissionais disponíveis para o policiamento direto.
O FBSP defende a revisão da distribuição dos efetivos e o aproveitamento de agentes atualmente cedidos a outros órgãos ou empregados em atividades burocráticas. Para os pesquisadores, a reorganização pode ampliar a presença das forças de segurança no policiamento ostensivo e nas investigações sem exigir, necessariamente, uma expansão imediata dos quadros.






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