É janeiro em Salvador e um grupo de estudantes baianas, todas com pouco mais de 20 anos, é abordado na Praia do Porto da Barra por dois estadunidenses com uma pequena câmera. A conversa começa sem que as garotas percebam que estavam sendo filmadas. Em meio ao bate-papo simpático, um deles pergunta se elas preferem ter um primeiro encontro num restaurante ou na praia. Uma das jovens responde que, sem conhecer bem a outra pessoa, o ideal seria um jantar. Fim de cena. Dias depois, as amigas se chocam ao descobrir que estavam num vídeo que sugeria que, como outras brasileiras, topavam ter encontros com homens por 10 ou 20 dólares.
O diálogo curto à beira-mar foi editado fora de contexto e publicado, com uma legenda maliciosa, num canal do YouTube do estadunidense Auston Holleman, de 23 anos. Ele é o homem que as abordou para produzir imagens que atraem milhares de seguidores em suas redes sociais, a maioria homens com perfil misógino e dispostos a viajar com a única intenção de buscar sexo com mulheres que, na visão deles, não teriam sido impregnadas por conceitos feministas. Em geral, visam países como Brasil, Colômbia, República Dominicana, Filipinas e Tailândia.
Karine Santos, de 26 anos, estudante de Nutrição, era uma das garotas que estavam na Praia do Porto da Barra e, ao perceber que era filmada, insistiu para que Holleman informasse o canal em que o vídeo seria exibido, imaginando que se tratasse de conteúdo sobre turismo. Ela definiu a experiência como “traumática”.
— Ele não queria passar o nome do canal de jeito nenhum. Na minha cabeça, seria um conteúdo inocente para o YouTube e Instagram. Como a gente entende inglês, ele não fez comentário agressivo na nossa frente — relembra Karine, acrescentando que ficou assustada ao ver como ele se referia às mulheres em suas postagens no canal do YouTube, que tem 52 mil seguidores.
— No post do vídeo, ele escreveu: “venham para o Brasil porque aqui um encontro custa menos de 30 dólares”. Eu me senti muito ofendida e até culpada por ter sido solícita.
Em seu canal e em outros perfis, Hollemann se apresenta como YouTuber a estadunidenses do grupo Passport Bros, que incentiva um turismo de “pegação” ao redor do mundo, explorando o fenômeno internacional de avanço de um machismo radical que bebe na fonte dos redpills — movimento de homens que pregam a submissão das mulheres. Ao mesmo tempo, compartilham conceitos colonialistas de que em países mais pobres, como o Brasil, eles vão se livrar das feministas e desfrutar de mulheres exóticas e disponíveis, como as brasileiras.
A Polícia Federal já investiga Mike Pickupalpha e David Bond, ambos dos EUA, que ficaram conhecidos como “coaches de pegação”, após uma festa, em fevereiro, para turistas em busca de diversão sexual através do grupo Millionaire Social Circle. Pickupalpha e Bond levaram para uma mansão no Morumbi, em São Paulo, mulheres que alegaram desconhecer a natureza do evento em que seriam oferecidas aos convidados. O caso também é investigado pela Polícia Civil do estado que está tomando depoimentos, inclusive para saber se havia envolvimento de menores.
Os infuencers do Passaport Bros também estão sendo investigados. Outras jovens em Salvador passaram por situações constrangedoras em praias, ruas e boates nas mãos de Holleman, que age junto com um amigo que se identifica como Fred Fowler. Os dois são alvo de um procedimento no Ministério Público da Bahia, que apura exploração sexual. E o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, promete levar o caso à Polícia Federal:
—Vamos firmar um convênio com a Embratur e a PF para mapear os destinos turísticos do país que têm mais ocorrência de exploração sexual.
Numa investigação sobre os métodos usados por Holleman, é possível descobrir que ele monetiza seu negócio pedindo doações e cobrando 150 dólares por consultorias para ensinar como conseguir encontros. O bordão mais usado por ele é: “Peguem seus passaportes”. Embora em vídeos tenha dito que se mudou para Salvador, Holleman estaria no momento na Ásia.
Uma estudante de Humanidades da Universidade Federal da Bahia (UFB) de 19 anos foi filmada no ano passado pelo amigo de Holleman numa boate. Ela, que pediu para não ter o nome divulgado por medo, já prestou depoimento ao MP.
— Ele não estava filmando a gente se divertindo: a câmera mirava as nossas bundas. Me senti incomodada e parei de dançar. Dois meses depois, uma amiga mandou o link do vídeo para meu ex-namorado. Quando vi, me senti muito mal, me vi como um produto. Minha mãe ficou sem chão.
A promotora Sara Gama, do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero do MP da Bahia, explica que, se for denunciado, ele responderá por seus crimes no Brasil:
— Prostituição não é crime no Brasil. Mas o que ele (Holleman) faz é entrar em contato com meninas muito jovens que são ludibriadas e têm imagens usadas no que chamamos de “prostiturismo”.
Além de responderem por crime de exploração sexual, os estadunidenses do Passport Bros que filmaram brasileiras em Salvador podem ser enquadrados em crime contra a honra. Rodrigo Faucz, advogado criminalista e pós-doutor em Direito, diz que as penalidades somadas podem chegar a cinco anos e meio. O artigo 228 que trata de exploração sexual estabelece como crime “induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone”. A pena é de reclusão de dois a cinco anos, e multa.
— Esse caso pode se caracterizar num crime contra a honra se houve exploração de forma a levar a pessoa ao ridículo ou se expôs imagem que faça com que a vítima se sinta constrangida na sua honra. Seria, então, caso de injúria ou até de difamação — ressalta o advogado.
Nos artigos sobre difamação e injúria, as penas variam de um mês a um ano e multa, podendo aumentar em um terço se forem cometidos na presença de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação. E, se são cometidos e divulgados em redes sociais, a penalidade é triplicada. O advogado acrescenta que Auston Holleman, se denunciado, responderá no Brasil por seus crimes.
— Nesse caso, ele pode ser citado nos Estados Unidos. Se for condenado aqui, o cumprimento da pena levará em consideração a localidade dele. Os Estados Unidos não fazem extradição; o cumprimento da pena vai depender que ele venha para cá. Mas o Brasil pode usar a Difusão Vermelha da Interpol para que ele seja preso em outo país. Se ele estiver em outro país que não seja o país natal dele, ele pode ser extraditado para o Brasil.
Com informações do Extra online.
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