Governo vai congelar recursos de bets ilegais para reforçar combate ao crime organizado, diz Lula

Valores congelados em instituições financeiras serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública, segundo medida regulamentada pelo governo federal

O governo federal deu mais um passo na ofensiva contra o mercado ilegal de apostas online. Nesta sexta-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que recursos vinculados a plataformas clandestinas de apostas serão bloqueados e direcionados ao Fundo Nacional de Segurança Pública, ampliando os instrumentos de combate ao financiamento do crime organizado.

A medida foi divulgada pelo presidente por meio das redes sociais e integra um conjunto de ações associadas à regulamentação da chamada Lei Antifacção. Segundo o governo, o objetivo é atingir diretamente o fluxo financeiro utilizado por organizações criminosas e empresas que operam apostas de forma irregular no país.

“Com a nova Lei Antifacção e a inteligência acumulada no combate a crimes financeiros, Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça e Advocacia-Geral da União avançam para sufocar o fluxo de recursos de bets ilegais”, escreveu o presidente.

O anúncio ocorre em um momento de crescente preocupação das autoridades com o uso de plataformas clandestinas para movimentação de recursos de origem suspeita. A decisão foi divulgada um dia após uma operação policial que investigou um esquema bilionário envolvendo movimentações financeiras por meio de sites de apostas não autorizados.

Como funcionará o bloqueio

Os detalhes da medida foram apresentados pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que explicou o funcionamento do novo mecanismo de bloqueio administrativo dos recursos.

De acordo com o ministro, a regulamentação permitirá que o governo determine o congelamento imediato de valores identificados como provenientes de operações realizadas por bets ilegais.

“O decreto que o presidente assinou hoje permite que a gente faça um bloqueio dos recursos identificados nas instituições financeiras que provenham dessas bets ilegais”, afirmou ele.

Segundo Durigan, a responsabilidade de executar o bloqueio será das instituições financeiras, que deverão agir assim que receberem a comunicação oficial do Ministério da Fazenda.

“Uma vez que a instituição receber essa nova notificação, a obrigação legal passa a valer e a instituição financeira tem que bloquear todas as contas que ela tiver identificado por onde passou recursos dessas bets ilegais. É um bloqueio administrativo imediato que tem que ser confirmado no prazo de 48 horas pelas instituições financeiras ao Ministério da Fazenda”.

A expectativa do governo é que a medida reduza a circulação de dinheiro oriundo de operações clandestinas e aumente a capacidade de rastreamento de recursos utilizados por organizações criminosas.

Dinheiro irá para a segurança pública

Os valores congelados não permanecerão apenas sob custódia das autoridades. Segundo Lula, os recursos identificados e bloqueados serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública.

A intenção é utilizar esse dinheiro para fortalecer ações de inteligência, investigações financeiras e operações voltadas ao combate às estruturas econômicas que sustentam o crime organizado.

Nos bastidores do governo, a avaliação é de que o ataque às finanças criminosas tem potencial para gerar resultados mais efetivos do que ações exclusivamente voltadas para a repressão policial tradicional.

Mercado de apostas passou por transformação

O endurecimento da fiscalização ocorre em paralelo ao processo de regulamentação do setor de apostas esportivas e jogos online no Brasil.

Durante anos, as chamadas bets operaram em uma zona cinzenta da legislação brasileira, movimentando bilhões de reais sem regras específicas definidas pelo poder público.

O cenário começou a mudar no fim de 2023, quando o Congresso Nacional aprovou o marco regulatório do setor, posteriormente sancionado pelo presidente Lula.

A proposta original, encaminhada pelo Ministério da Fazenda, tinha como foco principal regulamentar as apostas esportivas online, criando mecanismos de fiscalização, arrecadação tributária e proteção aos consumidores.

Entretanto, durante a tramitação na Câmara dos Deputados, o relator do projeto, deputado Adolfo Viana (PSDB-BA), ampliou o escopo da proposta ao incluir a autorização para os chamados jogos online.

A categoria engloba diversas modalidades de cassino virtual, incluindo jogos amplamente conhecidos pelo público brasileiro, como o popular “tigrinho”.

O Senado chegou a restringir essa autorização, defendendo que a regulamentação se limitasse às apostas esportivas. Contudo, a Câmara restabeleceu a previsão antes da votação final do texto.

A versão aprovada foi sancionada por Lula em dezembro de 2023, consolidando um novo marco regulatório para o setor.

Pressão sobre operações clandestinas

Desde a entrada em vigor das regras, o governo tem buscado diferenciar operadores autorizados daqueles que continuam atuando à margem da legislação.

A estratégia envolve exigências de licenciamento, monitoramento financeiro, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e regras mais rígidas para publicidade e proteção dos apostadores.

Com a possibilidade de bloqueio administrativo imediato dos recursos, o governo aposta agora em uma nova etapa da fiscalização, mirando diretamente a sustentabilidade financeira das plataformas ilegais.

A avaliação das autoridades é que restringir o acesso aos recursos movimentados por essas empresas pode reduzir significativamente sua capacidade operacional e dificultar a utilização do sistema financeiro para atividades ilícitas.

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