Governo Trump proíbe uso da inteligência artificial chinesa DeepSeek em agências federais

Washington alega riscos de espionagem e transferência de dados sigilosos para a China; Pequim acusa os EUA de politizarem tecnologia em meio à disputa pela liderança mundial em IA

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O governo dos Estados Unidos determinou que agências federais interrompam o uso de ferramentas de inteligência artificial desenvolvidas pela empresa chinesa DeepSeek, alegando riscos à segurança nacional e à proteção de informações sigilosas, informa a Folha de S. Paulo. A decisão, anunciada nesta segunda-feira (19), amplia as restrições dos EUA à tecnologia chinesa e provocou uma reação imediata de Pequim, que acusou Washington de utilizar argumentos de segurança para prejudicar empresas do país.

A determinação foi divulgada pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e abrange tanto os produtos oferecidos diretamente pela DeepSeek quanto aplicações desenvolvidas por outras empresas que utilizem seus modelos de inteligência artificial.

Segundo o comunicado, as ferramentas deverão ser removidas dos dispositivos utilizados pelas agências civis federais. A ordem não se estende automaticamente às Forças Armadas nem aos serviços de inteligência, que possuem estruturas próprias de comando e regulamentação.

A decisão ocorre em um momento de intensificação da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, especialmente no desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial, considerados estratégicos para a economia, a segurança e a competitividade internacional.

Washington aponta risco de espionagem e vazamento de informações

O Departamento de Segurança Interna justificou a proibição afirmando que a utilização de sistemas da DeepSeek por funcionários públicos e prestadores de serviços poderia comprometer informações sensíveis do governo dos EUA.

“Os modelos da DeepSeek apresentam múltiplos vetores de ameaça”, afirma um documento anexado ao comunicado.

As autoridades estadunidenses argumentam que o armazenamento e o processamento de informações em servidores localizados na China representam riscos adicionais, diante das possibilidades de acesso aos dados previstas na legislação chinesa.

O uso das ferramentas de IA da DeepSeek “pode resultar na transferência de dados sigilosos (para a China) caso sejam utilizadas por funcionários ou fornecedores do governo dos Estados Unidos”, advertiu o departamento.

Segundo o governo dos EUA, o sistema jurídico chinês concede uma “ampla autoridade” às autoridades locais para acessar a infraestrutura de empresas privadas.

A avaliação de Washington é que essa estrutura legal poderia permitir o acesso a informações governamentais inseridas nas plataformas de inteligência artificial, mesmo quando utilizadas por servidores públicos estadunidenses.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos não respondeu ao pedido de comentário encaminhado pela agência AFP. A empresa chinesa também não se manifestou sobre a decisão.

China acusa Estados Unidos de politizar disputa tecnológica

A reação do governo chinês veio nesta terça-feira (20), quando o Ministério das Relações Exteriores criticou a medida e prometeu defender os interesses das empresas nacionais.

Pequim considera que Washington utiliza uma interpretação excessivamente abrangente do conceito de segurança nacional para impor restrições comerciais e tecnológicas a companhias chinesas.

“A China sempre se opôs à ampliação excessiva do conceito de segurança nacional e à politização de questões relacionadas à ciência, à tecnologia e ao comércio”, afirmou a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Mao Ning, nesta terça-feira (20).

Nos últimos anos, a competição entre os dois países passou a envolver não apenas a produção de semicondutores e equipamentos eletrônicos, mas também o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial, infraestrutura de processamento e controle de dados.

DeepSeek desafiou liderança dos EUA com modelos de baixo custo

A DeepSeek ganhou projeção internacional em janeiro de 2025, quando apresentou um chatbot de inteligência artificial com desempenho competitivo e custos de desenvolvimento e operação inferiores aos de muitos concorrentes.

O lançamento surpreendeu o mercado tecnológico e colocou em discussão a percepção de que os Estados Unidos manteriam uma vantagem incontestável no desenvolvimento dos modelos mais avançados de inteligência artificial.

A empresa chinesa demonstrou que poderia competir com grandes laboratórios estadunidenses utilizando estratégias de treinamento e processamento mais econômicas.

Desde então, a DeepSeek ampliou sua presença no setor e passou a ser considerada uma das principais representantes da indústria chinesa de inteligência artificial.

Em abril de 2026, a companhia apresentou o modelo V4, dando continuidade à expansão de sua tecnologia. Neste mês de outubro, lançou uma atualização mais rápida e leve da mesma família de modelos.

A evolução dessas ferramentas intensificou a concorrência internacional e pressionou empresas dos EUA a revisar preços e estratégias comerciais.

Ao mesmo tempo, autoridades dos Estados Unidos passaram a questionar as práticas adotadas por desenvolvedores chineses.

Washington acusa a DeepSeek e outras companhias do país asiático de utilizar indevidamente recursos e conhecimentos de modelos avançados criados por concorrentes estadunidenses.

As acusações integram um ambiente de crescente rivalidade tecnológica, no qual o acesso a dados, a capacidade computacional e a propriedade intelectual se tornaram questões centrais.

Inteligência artificial estará na pauta de encontro entre líderes

Apesar das divergências, Estados Unidos e China mantêm canais de diálogo sobre os riscos associados ao desenvolvimento e à utilização da inteligência artificial.

Em setembro, os dois governos concordaram em estabelecer um “canal de comunicação” destinado ao tratamento de incidentes relacionados à tecnologia.

A iniciativa busca criar mecanismos de contato entre as autoridades dos dois países em situações que possam envolver riscos tecnológicos ou consequências para a segurança internacional.

A inteligência artificial também deverá integrar a agenda do encontro previsto para novembro entre os líderes dos dois países, durante uma cúpula na cidade de Shenzhen, na China.

A reunião ocorrerá em um cenário de competição crescente pela liderança mundial no setor, marcado por restrições comerciais, investimentos em infraestrutura tecnológica e disputas sobre o controle de informações.

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