O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou movimentos de reaproximação com o Congresso Nacional após um período marcado por conflitos e desgastes institucionais. A avaliação no Palácio do Planalto é de que o recesso parlamentar pode ajudar a reduzir as tensões, enquanto o foco das crises se desloca gradualmente para o Judiciário, em meio a operações policiais contra congressistas e à expectativa de julgamentos sensíveis no Supremo Tribunal Federal.
A leitura de aliados do governo é que decisões envolvendo a impositividade das emendas ao Orçamento e ações recentes de investigação passaram a concentrar a insatisfação dos parlamentares, diminuindo momentaneamente a pressão direta sobre o Executivo.
Prioridades no retorno do recesso
No retorno das atividades legislativas, a principal aposta do governo será a agenda de segurança pública. Estão no centro das articulações a proposta de emenda à Constituição sobre o tema e o projeto antifacção, ambos em tramitação na Câmara dos Deputados. Paralelamente, o Planalto trabalha para viabilizar no Senado a aprovação do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF.
O semestre legislativo, no entanto, será mais curto por causa das eleições, e parlamentares avaliam que o volume de votações tende a ser mais restrito, o que exige negociações mais concentradas e seletivas.
Relação turbulenta com a Câmara
A relação entre o governo e a gestão do presidente da Câmara, Hugo Motta, passou por momentos de instabilidade ao longo do ano. Entre os principais atritos estiveram a derrubada do decreto do IOF, a escolha do deputado Guilherme Derrite como relator do projeto antifacção, a votação do projeto de redução de penas para o ex-presidente Jair Bolsonaro e a chamada PEC da Blindagem.
Na última semana, Lula atuou diretamente para distensionar a relação. Telefonou para Motta para alinhar a pauta econômica e nomeou o deputado Damião Feliciano, filho de um aliado do presidente da Câmara, para o Ministério do Turismo, no lugar de Celso Sabino, movimento que também reaproximou o governo do União Brasil.
Segundo Motta, a relação está estabilizada e a expectativa é de mais diálogo em 2026. Ele afirmou que os atritos fazem parte da dinâmica entre Poderes e ressaltou que não há obrigação constitucional de concordância total entre Executivo e Legislativo.

Pontes com o Senado
No Senado, Lula prometeu retomar o diálogo com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, após desentendimentos relacionados à indicação para o STF. Alcolumbre defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco, aliado político, enquanto o governo optou por Messias.
O Planalto também se reuniu com líderes partidários que cobravam interlocução mais frequente. A retomada das conversas ocorreu após o adiamento da votação de Messias para 2026 e depois da reação do Senado a uma decisão do ministro Gilmar Mendes que dificultou pedidos de impeachment contra integrantes da Corte, o que ajudou a deslocar o foco da crise.
Ainda assim, persistem dificuldades. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, enfrenta resistências internas, inclusive com Alcolumbre e com o senador Renan Calheiros, que criticou acordos recentes de procedimento legislativo.
Congresso e STF em rota de colisão
Enquanto o Planalto tenta recompor pontes políticas, a tensão entre Congresso e STF segue em alta. Em dezembro, operações da Polícia Federal atingiram parlamentares de diferentes campos políticos. Mandados de busca e apreensão alcançaram assessores ligados ao centrão, senadores da base governista e deputados da oposição.
Uma das operações, autorizada pelo ministro Flávio Dino, apura suspeitas de irregularidades na destinação de emendas parlamentares. O caso gerou reação de líderes do centrão e levou Motta a divulgar nota em defesa de uma assessora envolvida, afirmando que sua atuação era técnica.
Outras ações atingiram o senador Weverton Rocha e deputados do PL, incluindo Carlos Jordy e Sóstenes Cavalcante. Apesar do impacto político, um fator que ajudou a conter parte da insatisfação foi o fato de as buscas não terem ocorrido dentro dos gabinetes do Congresso, ponto sensível para os parlamentares.
Cassações e desgaste institucional
Motta também enfrentou desgaste ao conduzir a perda de mandato dos ex-deputados Carla Zambelli e Alexandre Ramagem. No caso de Zambelli, o plenário havia rejeitado a cassação, mas uma decisão do STF determinou a retirada imediata do mandato, o que levou à renúncia. Já em relação a Ramagem, o presidente da Câmara recuou de levar o caso ao plenário e decretou a perda do mandato por faltas, decisão que provocou críticas da oposição.
O cenário revela um ambiente político ainda instável, no qual o governo tenta recompor sua base no Legislativo ao mesmo tempo em que o Congresso convive com o avanço de investigações e decisões judiciais que ampliam a tensão institucional.






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