Gestão de Castro comandou 3 das 4 operações policiais mais letais do Rio; relembre

Desde 2020, ações policiais deixaram 1.886 mortos; especialistas apontam aumento da letalidade e falhas de investigação nas chacinas

A gestão do governador Cláudio Castro (PL) concentra três das quatro operações mais letais já registradas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro desde 2007. Além da megaoperação realizada nesta terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha — que já é considerada a mais violenta da história fluminense, com mais de 100 mortos confirmados — Castro também estava à frente do estado durante os massacres do Jacarezinho (2021) e da Vila Cruzeiro (2022), que resultaram em 28 e 23 vítimas, respectivamente.

Os números são do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF), da Universidade Federal Fluminense, que monitora a letalidade policial desde 1989. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o levantamento aponta que, desde que Cláudio Castro assumiu o governo em agosto de 2020, as operações no estado deixaram 1.886 mortos, entre civis e agentes de segurança — uma média de 30 mortes por mês.

Escalada da violência nas operações

A chamada Operação Contenção, deflagrada na terça-feira (28), consolidou-se como a mais letal já registrada no estado. Foram 64 mortos, entre eles dois policiais civis e dois militares. Segundo a Polícia Civil, ao menos 60 dos mortos seriam suspeitos ligados ao tráfico.

Durante a noite, corpos foram fotografados sendo transportados na caçamba de veículos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), sem perícia prévia nos locais de confronto. A cena remeteu a episódios anteriores, como a chacina do Jacarezinho, em que as investigações não conseguiram esclarecer a maioria das mortes.

Casos sem solução no Jacarezinho

A operação do Jacarezinho, em maio de 2021, foi até então a mais violenta da história do Rio. Deixou 28 mortos e provocou forte reação de entidades de direitos humanos e da comunidade internacional. Um ano depois, o Ministério Público do Rio de Janeiro concluiu que não havia provas suficientes para confirmar o que ocorreu na maior parte das mortes.

Do total de 28 vítimas, os inquéritos sobre 24 foram arquivados. Apenas quatro casos resultaram em denúncias contra policiais. O promotor André Luís Cardoso, que coordenou o grupo responsável pela investigação, afirmou: “Não foi possível confirmar que houve legítima defesa dos policiais na maior parte dos casos.”

Witzel teve o auge da letalidade

Antes de Castro, o governo de Wilson Witzel (PSC) já havia registrado um nível extremo de letalidade policial. Ele assumiu em janeiro de 2019 prometendo dar “tiro na cabecinha” de criminosos armados, frase que marcou seu discurso de segurança pública.

Nos 20 meses em que governou, foram contabilizadas 104 chacinas com 904 mortos — uma média de 45 por mês, segundo o Geni-UFF. O ano de 2019, o único em que Witzel esteve integralmente no cargo, foi o mais letal da série histórica, com 634 mortos em ações policiais. Cláudio Castro era vice-governador à época e assumiu o comando do estado após o afastamento de Witzel.

Dimensão da tragédia fluminense

O levantamento da UFF revela que, entre 2007 e 2025, o estado registrou 707 operações consideradas chacinas — aquelas com três ou mais mortes —, somando 7.343 vítimas. Em termos comparativos, é como se 33 aviões Airbus A320, modelo usado em voos comerciais, tivessem caído sem deixar sobreviventes em um intervalo de 18 anos.

Nesta terça-feira, confrontos ainda persistiam em áreas de mata conhecidas como Vacaria, que conectam os complexos da Penha e do Alemão. Policiais relataram que havia corpos espalhados e que a retirada estava impedida pela falta de segurança para a perícia, impossibilitada de acessar o local devido às trocas de tiros.

A marca de uma política de confronto

As estatísticas reforçam a tendência de endurecimento das ações policiais no Rio de Janeiro, com resultados cada vez mais letais e investigações inconclusas. Desde 2020, Cláudio Castro tem defendido a atuação das forças de segurança, afirmando que o estado não pode “recuar diante do crime organizado”.

Entidades de direitos humanos, no entanto, argumentam que as operações refletem uma política de confronto permanente e sem controle efetivo, que expõe tanto moradores de comunidades quanto os próprios policiais.

Com três das quatro maiores chacinas em menos de cinco anos, o Rio volta a ocupar o centro do debate nacional sobre o uso da força policial e o fracasso histórico do estado em romper o ciclo de violência nas favelas.

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