Ágeis para deslocamentos curtos e perfeitas para passeios urbanos, as bicicletas passaram a ser alvo dos assaltantes. Seja no modelo elétrico, esportivo ou até o tradicional — algumas chegando a custar até R$ 16 mil — nenhuma delas está segura. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, as delegacias registraram 838 furtos desse tipo de veículo no estado, o que corresponde a uma média de 14 casos diários, conforme dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). No mesmo período de 2024, foram registrados 526 furtos. Essa comparação revela um aumento de 59%.
Na capital, o cenário foi ainda mais preocupante: o aumento nos dois primeiros meses de 2025 foi de 106%. Foram 470 furtos em janeiro e fevereiro, contra 228 no mesmo período de 2024. A delegacia com o maior número de ocorrências foi a do Leblon (14ª DP), com 121 registros. O número de roubos (aqueles em que há o uso de violência ou grave ameaça) de bicicletas no estado também mais do que dobrou, mas em uma escala bem menor: 80 casos este ano, enquanto no mesmo período de 2024, houve 34 registros.
O subsíndico Milton Augusto da Silva, de 44 anos, ciclista amador, está prestes a fazer parte dessa estatística. No dia 23 de março, um homem, utilizando uma máscara cirúrgica, calça jeans e camisa branca, entrou no prédio onde Milton mora, no Catete, na Zona Sul, depois de abrir o portão com uma chave mestra. O criminoso dirigiu-se até o bicicletário, cortou as travas da roda e da bateria, sendo uma delas de aço, cortou também uma corrente e, finalmente, desligou o alarme. Depois disso, ele fugiu com a bicicleta que Milton havia comprado menos de dois meses antes por R$ 6 mil. A ação durou cerca de dez minutos. A bicicleta era utilizada pela esposa de Milton para levar a filha do casal à escola. No ano anterior, a bicicleta esportiva dele, avaliada em R$ 9 mil, já havia sido furtada.
— É uma sensação de insegurança, uma sensação de incapacidade de manter o local seguro. O medo que a gente tem hoje de sair de dentro do apartamento é maior até do que sair pelo portão da rua. Porque dentro do prédio o cara (ladrão) não está num local público, à vista de todos, então ele pode aproveitar este momento e fazer barbaridades — diz o subsíndico.
O caso é investigado pela 9ª DP (Catete). Uma semana depois, na noite de 30 de março, um homem — que vestia roupa muito parecida com a do ladrão do Catete e também estava de máscara — entrou em um prédio de Copacabana. Imagens de circuito de segurança flagraram o momento em que ele, usando uma chave mestra, conseguiu abrir o portão. O suspeito ainda disfarça acenando com uma das mãos, como se estivesse falando com um morador, e entra no local. Dentro do edifício, vai até onde estão guardadas as bicicletas e escolhe um modelo elétrico. Em seguida, sai calmamente levando o veículo.
— Ele levou até o capacete. Minha bicicleta é elétrica e está avaliada em R$ 8 mil. Ganhei de presente há um ano — lamenta a analista de licitação Mariana Fernandes, de 32 anos, que só descobriu o que havia acontecido quando foi procurar o veículo no dia seguinte.
Locais com mais roubos
No Estado do Rio, a capital e Niterói são as cidades com mais registros de furtos de bicicleta. Ao analisar os casos em todas as delegacias, a 14ª ficou no topo, seguida pela 77ª DP (Icaraí), 76ª DP (centro de Niterói), 12ª DP (Copacabana), 16ª DP (Barra da Tijuca) e 9ª DP (Catete). Titular da 14ª DP, a delegada Thaiane Barbosa conta que o Departamento Geral de Polícia da Capital (DGPC) tem uma força-tarefa que investiga em conjunto os furtos ocorridos no Rio. Segundo ela, é provável que as bicicletas furtadas estão servindo para abastecer um mercado clandestino de revenda.
— As delegacias trocam informações de inteligência e analisam os casos separadamente. Não podemos dar detalhes para não atrapalhar o andamento das investigações. O que posso dizer é que é muito importante que a pessoa furtada faça o registro para que a gente produza um monitoramento das ações. Os furtos são praticados por grupos de pessoas. A principal linha é que as bicicletas estejam sendo revendidas, mas não descartamos outras hipóteses — explica a delegada.
Seguro fica perto de 10%
Vale de tudo para se prevenir contra a onda de furtos de bicicletas, desde fazer uma apólice de seguro até apelar para alarmes, cadeados ou trancas de aço. Presidente da Associação de Ciclistas do Estado do Rio e morador de Niterói, Cláudio Santos diz que quem pedala tem preferido estacionar as bicicletas em locais com mais segurança:
— Sentimos que os furtos aumentaram. O pessoal aqui em Niterói amarrava as bikes com cadeados de cabo de aço. Como os ladrões passaram a cortar os cabos, agora têm sido usadas travas de aço maciço. Também há preferência por estacionar em bicicletários fechados, onde há portarias e mais segurança.
A prevenção contra furtos e roubos também é realizada em larga escala. A Tembici, empresa responsável pelo sistema de compartilhamento de bicicletas no município do Rio, não divulga o número exato de furtos, mas garante que seus veículos são equipados com GPS e alarme. Com isso, a taxa de perdas é inferior a 0,2%, o que significa que mais de 99% dos casos resultam na recuperação da bicicleta furtada.
De acordo com Jarbas Medeiros, presidente da comissão de riscos patrimoniais massificados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), algumas seguradoras registraram um aumento na procura por seguros para bicicletas elétricas no primeiro trimestre de 2025, especialmente nas regiões Metropolitana e Litorânea. O preço da apólice varia conforme as coberturas contratadas. Se o cliente optar por uma versão básica, que cobre acidentes, roubo, furto e oferece assistência, o custo fica entre 8% e 10% do valor do bem. Também é possível contratar um seguro mais completo, que inclui danos a terceiros e assistência total, com um custo de 10% a 12% do valor do bem por ano.
— O seguro só pode ser contratado por maiores de idade. Porém, em algumas companhias, é possível incluir na cobertura as bicicletas utilizadas por menores — afirma Medeiros.
Com informações de O GLOBO.





