Flip que começa hoje em Paraty vai debater temas que vão de I.A a polarização política, racismo e emergência climática

A festa que homenageia João do Rio, cronista da Belle Époque carioca, vai ter, ao todo, 36 autores

Na semana passada, Ana Lima Cecilio, curadora da 22ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa nesta quarta (9), repassou a programação e lamentou não ter incluído nenhum autor libanês. Ana desenhou a programação com um olho na literatura e outro nas notícias. Tanto é que, embora a previsão do tempo indique chuva e calor moderado, a temperatura no Auditório da Matriz deve permanecer elevada até domingo (13), quando termina a festa que homenageia João do Rio, cronista da Belle Époque carioca. É difícil apontar um assunto que mobilize a opinião pública e que não tenha sido contemplado na programação.

Mesmo sem nenhum autor do Líbano, a guerra que devasta o país desde a invasão israelense, no fim de setembro, deve respingar na mesa “Não existe mais lá”, que na sexta-feira (11) reunirá o escritor e ex-ministro da Cultura da Palestina Atef Abu Saif, autor de um diário da guerra no território palestino, e a romancista gaúcha Julia Dantas, que teve a casa alagada durante as enchentes em Porto Alegre.

A programação também aborda temas como inteligência artificial, maternidade, masculinidades, polarização política, racismo e emergência climática. Na semana passada, foi anunciada uma mesa extra, “Cessar o fogo”, para discutir as queimadas que arrasaram o país nos últimos meses. Será a última mesa do sábado (12), com o escritor Pablo L. C. Casella, autor de “Contra fogo” (Todavia), romance protagonizado por uma brigada de combate a incêndios na Chapada Diamantina, e a ativista indígena Txai Suruí, que, no dia anterior, conversa com o cacique Raoni Metuktire, também na programação principal.

A última vez que a Flip aumentou a programação no calor da hora foi em 2013, com a criação de três mesas para debater os protestos que sacudiam o Brasil. Naquele ano, o evento aconteceu entre 3 e 7 de julho.

Ao privilegiar uma programação quente e pé no chão, a curadoria deste ano se distancia da anterior, que optou por temas descolados do noticiário e foi criticada por não apresentar grandes estrelas capazes de atrair multidões.

Controverso

Agora, aconteceu quase o oposto. Profissionais do mercado editorial reclamaram do convite a uma figura que é pop (e controversa) até demais: o influenciador Felipe Neto, que acaba de lançar o livro “Como enfrentar o ódio” (Companhia das Letras). Na sexta (11), o youtuber debate polarização política e redes sociais com a jornalista Patrícia Campos Mello.

Este ano, a independente Elefante emplacou três autores na programação principal, comprovando ainda mais a vocação desta edição: além do palestino Atef Abu Saif, ela tem o americano Danny Caine, autor de “Como resistir à Amazon e por quê”, e a espanhola Brigitte Vasallo, que discute os desafios dos relacionamentos poliamorosos. É a primeira vez da editora na Flip. Desde 2018, a Elefante participava da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes), que ocorria paralelamente à Flip em Paraty e desta vez aconteceu em São Paulo, em agosto.

— Gosto de pensar que essa programação antenada, interessada nos debates contemporâneos, é influência da Flipei, que foi capaz de juntar editoras de não ficção e chamar o público para debater cultura, comportamento e política. No ano passado, com a (feminista italiana) Silvia Federici, a Flipei chegou a fazer mais barulho que a Flip — opina o editor Tadeu Breda.

A política, no sentido mais generoso do termo, deve dar as caras até mesmo nas mesas mais literárias, como “Inventar na América Latina”, que na quinta (10) junta o colombiano Juan Cárdenas e o mato-grossense radicado em São Paulo Joca Reiners Terron, cujos romances recentes abordam temas como destruição da Amazônia, ataques aos povos indígenas e até a questão palestina. A curadora, porém, assegura que não pretende usar a literatura como desculpa para discutir o noticiário (uma acusação que vez ou outra atinge a Flip).

— Não me guio por uma visão utilitária da literatura. Não é que a Flip vai mostrar como a literatura pode nos ajudar a sair da crise climática. É que a literatura nos oferece instrumentos para olhar de outro jeito para essas questões que nos atropelam hoje — diz Ana Lima Cecilio.

Stéphanie Roque, editora da Companhia das Letras, acredita que o interesse pelo presente pode tornar a Flip mais acessível ao público não especializado e, dessa forma, ampliar o debate.

— Vai caber aos mediadores não deixar de fora a discussão estética, que também não está dissociada de tudo o que acontece no mundo — diz Stéphanie.

Sem maniqueísmo

A crítica literária Ligia Gonçalves Diniz comemora a presença de muito “ficcionista raiz” nesta Flip, autores que apostam mais na invenção do que na elaboração da experiência biográfica, como o senegalês Mohamed Mbougar Sarr e o paulista Evandro Cruz e Silva, que tratam de “temas importantes sem maniqueísmo e sem fazer sociologia”.

— Vejo na programação um elogio da ficção como uma das formas mais interessantes de se falar da realidade, de questões políticas, sociais ou ambientais, só que por meio da invenção, sem as amarras do noticiário — afirma a autora de “O homem não existe” (Zahar), que no sábado (12) tem mesa com a mexicana Jazmina Barrera.

Ao todo, 36 autores vão passar pela Flip. A data da festa foi anunciada em maio e o prazo curto para contatar autores internacionais levou vários a recusar o convite por falta de agenda. Na coletiva de apresentação da programação, no início de setembro, o diretor artístico Mauro Munhoz disse que a festa planeja voltar para o meio do ano em 2025 também para conseguir “convidar autores relevantes”.

Desta vez, a principal reclamação veio das casas parceiras que organizam a disputada programação paralela. Elas acusaram a Flip de tentar impedir a venda de livros nesses espaços (a festa tem uma livraria oficial, a Travessa). O GLOBO apurou que a proibição foi aventada em reuniões e algumas casas chegaram a receber um contrato com uma cláusula que vetava a comercialização de livros.

Depois, foi autorizada a venda mediante o pagamento de uma taxa de R$ 1 mil. Segundo a Flip, o valor “representa uma contrapartida social para reciclagem dos resíduos gerados durante os dias de festa”.

Novo espaço

A 22ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty tem novidades no seu mapa oficial. Depois de anos ocupando as margens esquerda ou direita do Rio Perequê-Açu, e de uma temporada dentro dos salões da igreja, o principal palco do festival terá uma nova localização. Em 2024, o Auditório da Matriz foi transferido para a quadra de basquete na praça mais importante da cidade, onde — em anos anteriores — funcionou a livraria da festa.

O novo espaço, à primeira vista, parece bem mais modesto do que as estruturas gigantescas do passado. Embora a organização da Flip garanta que a capacidade total da tenda tenha diminuído em apenas 24 lugares (de 495 em 2023 para 471 este ano), o novo auditório parece ter reduzido de forma considerável o tamanho do palco onde acontecem os debates e também a distância que separa os autores do público, resultando num design compacto, para dizer o mínimo. Nas edições recentes, sobretudo nos painéis realizados ao longo das manhãs, a festa vinha convivendo com sessões esvaziadas, distantes da lotação máxima.

Informações de reportagem de O Globo

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