Fintech alvo da PF por ligação com o PCC tinha contratos com órgãos federais e prefeituras

Operação expõe vínculos da BK Bank com Exército, Congresso, Correios e Prefeitura de Ribeirão Preto (SP) em meio a suspeitas de lavagem bilionária

Nome já conhecido em investigações sobre o crime organizado, a fintech BK Bank ressurgiu na Operação Spare, deflagrada nesta quinta-feira (25). Citada anteriormente na Operação Carbono Oculto como parte da engrenagem financeira do PCC, a instituição é apontada agora como peça-chave em um esquema de exploração de jogos de azar e venda de combustíveis adulterados. Antes de ser investigada, entretanto, a empresa chegou a prestar serviços para órgãos federais como Correios, Câmara, Senado, Exército e a Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), segundo reportagem do jornal O Globo.

Contratos com órgãos públicos

Após a primeira operação, os Correios suspenderam o contrato com a BK Bank, responsável por operacionalizar pagamentos com cartão em agências próprias. A estatal não confirmou, à época, que a decisão estava diretamente relacionada às investigações conduzidas pelo Ministério Público, Receita e Polícia Federal.

A licitação havia sido vencida em 2021, ainda sob o nome Berlin Finance. Segundo apuração do Globo, a empresa já acumulava falhas técnicas que pesaram na decisão da suspensão. Pouco depois, outro vínculo da fintech veio à tona: um contrato de R$ 18 mil com o Exército, firmado em agosto de 2025, para fornecer maquininhas de cartão à biblioteca da instituição.

Menos de um mês depois da assinatura, o BK Bank se tornou alvo de nova operação, levando a Força a anunciar a abertura de processo administrativo por descumprimento contratual. A própria fintech comunicou o Exército sobre o bloqueio de suas contas e a impossibilidade de prestar o serviço. Até hoje, não está claro se o contrato foi formalmente rescindido.

Suspensões no Legislativo e no Serpro

A lista de clientes da fintech incluía ainda o Serpro, a Câmara e o Senado. O Serpro, estatal de tecnologia ligada ao Ministério da Fazenda, informou que rescindiria o contrato de cinco anos no valor de R$ 271,9 mil, assinado em maio. Em nota, destacou que, no momento da contratação, o “grau de risco atribuído à instituição era considerado baixo”, mas que a rescisão reafirmava o compromisso da empresa com a integridade e a legalidade.

Na Câmara, um contrato assinado em maio de 2025 previa serviços de intermediação de pagamentos eletrônicos até 2027, por R$ 480 mensais. Após a operação da PF, a BK suspendeu o serviço, levando a Casa a reter pagamentos e iniciar processo de rescisão unilateral.

O Senado, por sua vez, mantinha contrato semelhante desde 2020, prorrogado sucessivas vezes — o último termo aditivo foi assinado em 26 de agosto, apenas dois dias antes da deflagração da operação. O valor anual girava em torno de R$ 34 mil.

Ribeirão Preto também na lista

Na esfera municipal, a fintech operou contratos na saúde e no transporte em Ribeirão Preto (SP). Acordos firmados na gestão passada foram encerrados antes da Operação Spare. A RP Mobi, empresa municipal de trânsito, pagou mais de R$ 3 milhões ao BK entre 2023 e 2025 para gerenciar pagamentos com cartão. Já a Secretaria de Saúde firmou um contrato de quase R$ 3,2 milhões para fornecer cartões de benefício vale fralda a famílias com ordem judicial.

Elo entre duas operações

Segundo as investigações, a BK Bank funcionava como banco paralelo do PCC, captando recursos, adquirindo empresas e ocultando a origem ilícita do dinheiro. Na Operação Carbono Oculto, a instituição já havia sido associada ao uso de “contas bolsão”, que reuniam recursos de diversos clientes, dificultando o rastreamento.

Na Operação Spare, o Ministério Público identificou movimentações financeiras idênticas em postos de combustíveis investigados, todas destinadas ao BK Bank, que ficava responsável por ocultar a destinação final. A Promotoria aponta ainda o uso de laranjas e empresas de fachada para movimentar recursos, citando companhias como Zangão Intermediações, Optimus Intermediações, Athena Intermediações e Cangas Intermediações e Negócios.

Volume bilionário sob suspeita

As apurações revelaram que o BK Bank movimentou cerca de R$ 17,7 bilhões em créditos e débitos com empresas ligadas ao PCC. Grande parte desse montante passou pela filial de Ribeirão Preto, com conexões diretas a usinas sucroalcooleiras e distribuidoras de combustíveis.

Outro braço da investigação aponta que a fintech intermediou operações de uma rede de postos que movimentou mais de R$ 54 bilhões, mas declarou ao fisco apenas 0,17% em tributos, percentual incompatível com empresas enquadradas no regime de lucro real.

BK Bank, Exército e Senado não haviam se manifestado até a última atualização da reportagem.

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