Ferrovia que liga Sul Fluminense a Minas será a primeira concessão ferroviária em 2026

Corredor Minas-Rio, que liga Barra Mansa e Angra dos Reis ao Sul de Minas, será ofertado à iniciativa privada em modelo inédito, sem cobrança de outorga

O trecho ferroviário que conecta o Sul Fluminense a Minas Gerais deverá ser o primeiro a sair do papel no novo plano de concessões ferroviárias do governo federal a partir de 2026. Considerado estratégico para a economia do Rio de Janeiro, o chamado corredor Minas-Rio promete destravar investimentos, criar uma nova rota logística para o café e reacender o debate sobre transporte de cargas e passageiros na região.

O início da concessão de trechos ferroviários à iniciativa privada já está sendo preparado e o primeiro projeto a ser ofertado deve ser o corredor que liga cidades do Sul de Minas Gerais — como Arcos, Lavras e Varginha — aos municípios fluminenses de Barra Mansa e Angra dos Reis. Ao todo, são 740 quilômetros de trilhos, atualmente subutilizados, mas com potencial logístico considerado elevado pelo Ministério dos Transportes.

O traçado integra hoje a malha da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), administrada pela VLI, mas encontra-se quase inoperante em vários pontos e exige investimentos relevantes em modernização e ampliação da capacidade.

Modelo inédito de concessão sem outorga

O projeto será retomado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por meio de um chamamento público, um modelo inédito no setor ferroviário. Nesse formato, a União oferece a infraestrutura ao mercado, condicionando a autorização à realização de investimentos, sem exigir pagamento de outorga.

A proposta prevê contratos de até 99 anos de exploração. Caso haja mais de um interessado, o governo selecionará a proposta considerada mais vantajosa ao interesse público. A aposta do Executivo é que o modelo atraia investidores dispostos a recuperar ferrovias abandonadas ou subutilizadas no país.

Fim da concessão da FCA acelera decisões

A urgência do governo se explica pelo calendário. A concessão original da FCA, firmada em 1996 por 30 anos, se encerra em agosto/setembro de 2026. Com o fim do contrato, parte dos mais de 7 mil quilômetros de trilhos deverá ser devolvida à União.

Diante desse cenário, o governo busca dar destino aos trechos que serão retomados e, ao mesmo tempo, viabilizar a prorrogação antecipada de parte da concessão com a VLI, evitando descontinuidade da operação ferroviária.

Segundo o Ministério dos Transportes, o corredor Minas-Rio reúne uma combinação rara de fatores:

  • demanda real por transporte de cargas,
  • estudos técnicos já concluídos,
  • inspeções realizadas,
  • e decisão política de priorização.

O trecho foi incluído no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o que o transforma em prioridade institucional, com acompanhamento direto da Casa Civil da Presidência da República. Para o mercado, isso funciona como um selo adicional de segurança jurídica e política.

Café, fertilizantes e nova rota de exportação

A diversificação de cargas é uma das principais apostas do projeto. Estudos indicam que o corredor pode se tornar uma nova rota de exportação do café brasileiro. O Sul de Minas é a principal região produtora do país, responsável por mais de um terço da produção nacional.

A ferrovia permitiria ligar diretamente essa produção ao porto de Angra dos Reis, criando uma alternativa logística ao escoamento hoje concentrado em rodovias e em portos mais congestionados, como Santos.

Além do café, o corredor também pode viabilizar a importação de fertilizantes e o transporte de cargas gerais. Atualmente, toda a malha da FCA movimenta cerca de 32 milhões de toneladas por ano, majoritariamente minério de ferro e insumos siderúrgicos.

Bilhões em investimentos previstos

O plano ferroviário em elaboração pelo governo federal projeta números robustos. A expectativa é de R$ 139,7 bilhões em investimentos em obras e R$ 516,5 bilhões em operações ferroviárias ao longo dos contratos.

Além do chamamento público, o planejamento prevê oito grandes traçados entre 2026 e 2027, incluindo ferrovias totalmente novas, revitalização de trechos degradados e integração direta com portos.

Ponte regulatória para evitar interrupção

Com o contrato da FCA perto do fim, o governo estuda uma prorrogação emergencial de até dois anos, analisada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A ideia é assinar um termo aditivo temporário, funcionando como uma ponte regulatória até a conclusão da renovação antecipada com a VLI.

Técnicos da agência avaliam que os meses restantes são críticos para finalizar todas as etapas do processo. A legislação de 2017 autoriza esse tipo de solução quando há risco de descontinuidade do serviço.

Apesar disso, o Ministério dos Transportes mantém oficialmente o cronograma para renovar a concessão até agosto, com previsão de envio do processo ao Tribunal de Contas da União (TCU) ainda em 2026 — etapa que não tem prazo definido para conclusão.

Interesse regional e turismo ferroviário

O debate sobre a reativação do eixo ferroviário também mobiliza lideranças locais. Em janeiro de 2025, prefeitos do Sul Fluminense e da Costa Verde se reuniram em Barra Mansa para discutir a retomada da ligação ferroviária até Angra dos Reis e a reimplantação do Trem Turístico da Mata Atlântica, reforçando o potencial turístico do projeto.

Participaram do encontro prefeitos de Barra Mansa, Volta Redonda, Quatis, Rio Claro, Angra dos Reis e Piraí, além do deputado estadual Munir Neto.

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