Ele tem mais de 90 anotações criminais e acumula 15 mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio por crimes como homicídio qualificado, tráfico de drogas e associação para o tráfico. Integrante do primeiro escalão do Comando Vermelho (CV), é apontado por investigações da Polícia Civil como o responsável pela “caixinha” da facção criminosa, como é chamado o fundo usado para compra de armas e munição para financiar tentativas de invasão a territórios controlados por facções rivais.

Apesar da relevância na facção, Paulo Cesar Baptista de Castro, o Paulinhozinho, adota um perfil discreto, propício para que escapasse de operações policiais nos últimos 18 anos e passasse a ser conhecido como o “Fantasma do CV” por investigadores. Mas o seu nome voltou a ficar em evidência nesta semana ao ser apontado como o mandante de um violento ataque flagrado por câmeras de segurança na noite desta quarta-feira (18) em um acesso ao Morro da Mineira, no Catumbi, região central do Rio.

A ação, com o objetivo de invadir um território ocupado pelo Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival ao CV, deixou duas pessoas mortas e outras duas feridas. Entre os feridos, estava uma menina de 9 anos. Atingida no ombro, a criança está intubada e estável, mas ainda sem previsão de alta hospitalar. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga o caso. Marcos Vinícius Oliveira, 37, morreu no local. Já Henrique da Silva, 24, morreu horas depois.

Nas imagens, é possível ver uma criança brincando em um pula-pula quando começa uma correria de pessoas em fuga. Entre elas, crianças e adolescentes. Uma mulher que aparenta ser a mãe da menina no pula-pula então a pega no colo e busca proteção, com o auxílio de um homem. Outra mulher cruza com ela e puxa um carrinho de bebê. Ao perceber a aproximação de um homem de capacete, que cruza por ela correndo e atirando, ela se abaixa e puxa bruscamente o carrinho. Em seguida, já no chão, observa como está a criança. O vídeo não registra o momento em que a menina de 9 anos é baleada.

Segundo testemunhas, o ataque começou quando dois homens desceram de uma moto entre as ruas Neco do Estácio e Alcebíades Barcelos e começaram a abrir fogo. Eles fugiram em seguida em meio à ousada ação que teria sido arquitetada por Paulinhozinho em meio a uma disputa por território entre facções rivais na região central do Rio.

Como foi ação da Polícia Civil para prender Paulinhozinho

Em maio de 2025, Paulinhozinho escapou de mais uma operação policial para capturá-lo. Mas foi por pouco. Na ocasião, agentes da Polícia Civil descobriram um prédio de quatro andares que funcionava como escritório financeiro e espaço de lazer para o CV no Morro Fallet-Fogueteiro, reduto do criminoso na região central do Rio. Criminosos abriram fogo na direção dos agentes para que o criminoso pudesse escapar.

Polícia Civil teve acesso a imagens de maços de dinheiro e máquina de contar cédulas / Crédito: Reprodução

Logo em seguida, os policiais da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) conseguiram acessar o local, mas Paulinhozinho não estava mais lá. No ambiente luxuoso, havia até churrasqueira e banheira de hidromassagem. Foram apreendidos três quilos de maconha, celulares, laptop e um cordão de ouro avaliado em R$ 100 mil.

Três pessoas do Amazonas acabaram sendo presas na ocasião. Imagens anteriores obtidas pelos investigadores mostram mais de dez maços de notas sobre a mesa ao lado de uma máquina de contar dinheiro e de um copo de uísque.

“Ele [Paulinhozinho] tem papel fundamental dentro da facção por ser um dos administradores da ‘caixinha do CV’. Já o prédio funcionava como centro de lazer e de finanças da quadrilha”, disse, na ocasião, o delegado Luís Otávio Franco.

Vista da Favela da Rocinha | Fernando Frazão / Agência Brasil

Tomada do CV na Rocinha e ataque com 50 fuzis no São Carlos

Paulinhozinho teve participação ativa em duas ações que causaram terror no Rio de Janeiro nos últimos anos e que ajudaram a tornar o CV ainda mais poderoso na capital fluminense. Em setembro de 2017, foi um dos responsáveis por arquitetar o “golpe de estado” que fez com que a Favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, saísse do domínio da facção criminosa conhecida como Amigos dos Amigos (ADA).

A versão foi confirmada naquele ano pelo funkeiro Fabiano Batista Ramos, o MC Tikão, que se apresentou à Polícia Civil e detalhou os bastidores de uma guerra que deixou ao menos 20 pessoas mortas e motivou até intervenção do Exército. Em depoimento, ele disse ter sido o responsável por tirar o traficante Rogério 157 da Rocinha durante o cerco formado pelas Forças Armadas. O funkeiro disse, ainda, ter feito a intermediação do encontro que selou a troca de facções de Rogério 157 para o CV. O acordo foi firmado em um encontro com Paulinhozinho, indicam as investigações.

Ataque em 2020 deixou quatro mortos no São Carlos, região central do Rio / Crédito: Reprodução

No fim de agosto de 2020, Paulinhozinho foi apontado como um dos mentores de uma ofensiva do CV que deixou ao menos quatro pessoas mortas no Complexo do São Carlos, região central do Rio. Entre as vítimas fatais, estava uma moradora que usou o próprio corpo como escudo humano para salvar o filho em meio ao fogo cruzado.

Segundo investigações da Polícia Civil, a ação fez parte de um plano de expansão do CV, que também incluía o Morro da Mineira, alvo de um ataque nesta semana.

Os criminosos envolvidos na ação sob o domínio de Paulinhozinho há quase seis anos usavam coletes à prova de balas e roupas camufladas para dificultar a identificação deles nas áreas de mata. Com invasões simultâneas e separadas em pequenos grupos, os traficantes usaram cerca de 50 fuzis, granadas, pistolas, carros e motos para agir.

A tomada do território só não ocorreu porque a Polícia Militar ocupou a região na época. Mas, nesta semana, em uma nova ação supostamente chefiada por Paulinhozinho, o CV voltou a tentar invadir a região, em uma área apontada como estratégica para o plano de expansão territorial da facção criminosa na região central do Rio.

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