Tráfico e milícia controlam 80% dos provedores de internet em favelas do Rio, aponta Secretaria de Segurança

Parceria entre Anatel e governo estadual mira provedores usados como fachada por organizações criminosas em comunidades

Uma investigação conduzida pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro revelou que cerca de 80% das empresas que oferecem serviço de internet em comunidades do estado estão ligadas ou associadas diretamente ao crime organizado. O levantamento, feito a partir de denúncias e dados oficiais e reportado pelo jornal O GLOBO, aponta que a exploração da internet se tornou uma das principais fontes de receita de milícias e facções criminosas.

Com base nesse mapeamento, a Secretaria de Segurança firmou uma parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para implementar um plano de combate aos provedores clandestinos. Entre as medidas já adotadas, está a suspensão de um artigo do regulamento de outorgas que dispensava de autorização formal os pequenos provedores com até cinco mil acessos — regra que, segundo os investigadores, facilitava a abertura de empresas utilizadas como fachada pelo crime.

A nova diretriz exige que todos os provedores que se enquadram nesse limite regularizem sua situação até o dia 25 de outubro. Após essa data, quem não tiver obtido a outorga terá o serviço interrompido e o cadastro extinto.

Domínio nas favelas e empresas de fachada

O mapeamento realizado pela secretaria utilizou denúncias recebidas pelo Disque-Denúncia e pela Ouvidoria da pasta, cruzadas com registros da Anatel. A partir dessas informações, os investigadores identificaram provedores atuando em áreas controladas por organizações criminosas — tanto milicianos quanto traficantes — e consolidaram um diagnóstico do domínio territorial desses grupos.

O resultado foi alarmante: em grande parte das 813 favelas do município do Rio, o serviço de internet está sob monopólio de criminosos. Em muitos casos, os moradores são obrigados a contratar os serviços dessas empresas sob ameaça ou sem alternativa de mercado.

Atualmente, há 1.734 prestadoras de serviço de internet cadastradas no estado. Destas, 822 possuem outorga e 914 funcionam com dispensa — ou seja, dentro da antiga norma que agora está sendo revista. Na capital, são 638 empresas, sendo 305 autorizadas e 333 dispensadas da autorização formal.

Regulação como ferramenta de segurança pública

O secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, destacou que a parceria com a Anatel e a mudança nas regras representam uma importante frente de combate à estrutura financeira das facções.

“Em reunião com a Superintendência de Fiscalização da Anatel mostramos que uma norma deles estava sendo usada pelo crime como forma de receita, por meio de empresas que são, na verdade, fachadas do tráfico e da milícia. Eles entenderam a gravidade, ajustaram a resolução, e isso foi um avanço importante que contribuirá muito para a asfixia financeira do crime organizado”, afirmou.

O subsecretário de Inteligência, delegado Pablo Sartori, reforçou que a ação tem caráter estratégico e deve impactar também outros estados.

“É uma ação estruturante, com impacto real e duradouro. A Anatel teve sensibilidade para entender nossas demandas e promover uma mudança que já começa a mostrar resultados, enfraquecendo o crime aqui e em outros estados”, disse Sartori.

A expectativa da Secretaria de Segurança é que, com a nova exigência de outorga, o mercado ilegal de internet nas comunidades perca força gradualmente, permitindo o avanço de prestadoras regulares e a redução do poder de milícias e facções sobre os territórios. A medida também visa proteger os consumidores e garantir a expansão de um serviço essencial sob regras e fiscalização adequadas.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading