Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação e atual assessor de Jair Bolsonaro, disse hoje que entregará à Polícia Federal (PF) uma ata notarial com a íntegra das mensagens que ele trocou com o tenente-coronel Mauro Cid sobre as joias sauditas desde janeiro, quando a primeira reportagem do Estado de S. Paulo sobre o caso das joias sauditas foi publicada.
O ex-Secom foi convocado para depor à PF hoje sobre o caso, mas apresentou uma petição da OAB de São Paulo em defesa de seu sigilo profissional, uma vez que atuou como advogado de Bolsonaro no processo, para justificar sua decisão de ficar em silêncio. Ele confirmouas informações à jornalista Malu Gaspar, de O Globo.
O inquérito a respeito da venda das jóias recebidas como presente de Estado da Arabia Saudita por Bolsonaro corre no Supremo e foi instaurado pelo ministro Alexandre de Moraes.
Wajngarten sustenta que o histórico de conversas com Cid vai mostrar que ele só soube “pela imprensa” que as joias tinham sido compradas por Frederick Wassef “quando vi nos sites a foto dele embarcando em Viracopos”.
Num print da tela de seu celular enviado pelo próprio Wajngarten à equipe da coluna, ele mesmo escreve para o remetente “Major Cid/Bolsonaro”: “tem que devolver imediatamente”, e depois: “É impressionante como ninguém pensa”.
Depois dessa mensagem, vem um áudio de Mauro Cid gravado em 15/03, em que ele diz a Wajngarten: “Nem sabia que você estava no circuito”.
A seguir, dá-se o diálogo que aparece no relatório da PF sobre o caso. Cid afirma: “Parece que vão cassar a decisão do Augusto Nardi [sic]”, em referência à decisão monocrática do ministro Nardes que autorizou Bolsonaro a ficar com as joias sauditas até uma decisão final do Tribunal de Contas da União (TCU).
Wajngarten responde: “Vão mesmo. Por isso era muito melhor a gente se antecipar. Mas o gênio do [Marcelo] Câmara e Fred contaminam tudo”. A frase é uma referência a Wassef e ao coronel Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro que também articulou a recompra do relógio. “Burro demais. Contaminado”.
Wajngarten afirma que, quando Cid escreve, logo depois, “me disseram que você iria” e ele responde ao ex-ajudante de ordens “Era de longe o mais acertado”, ambos estão se referindo ao kit Rosé, um conjunto da marca suíça Chopard com uma caneta, um anel, um par de abotoaduras, um rosário árabe e um relógio recebidos pelo então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, ao vir da Arábia Saudita. Esse kit chegou a ser oferecido em sites de leilões, mas acabou não sendo arrematado.
O relógio de ouro branco e diamantes que Wassef foi aos Estados Unidos para “resgatar” fazia parte de um outro kit, também recebido de presente da Arabia Saudita. O relógio foi vendido em dezembro de 2022 a uma joalheria da Pensilvânia e estava naqueles dias sendo comprado por Fred Wassef.
Mas Wajngarten afirma que não sabia dessa movimentação e acreditava que as jóias estavam disponíveis para serem devolvidas imediatamente.
De acordo com o ex-Secom, quando Cid afirma nas mensagens “Me falaram que vc iria”, ele estaria se referindo à devolução das joias, e não à recompra do relógio.
Wajngarten afirma que o histórico de mensagens trocadas por Wajngarten com Wassef, que também vai constar na ata notarial, será suficiente para provar que os dois não tinham contato e que a última vez que conversaram foi em agosto de 2022, ainda durante a campanha de Bolsonaro pela reeleição.
Dessa forma, o ex-Secom espera convencer os investigadores de que não tem nada a ver com a operação desencadeada por Wassef para trazer o relógio ao Brasil e devolver ao Tribunal de Contas da União.
Como Wajngarten ainda não depôs no inquérito e não se sabe que outras evidências a PF tem a respeito do caso, é difícil saber se essa tentativa de escapar da Justiça vai funcionar.





