Exportações de carne bovina para União Europeia podem ser suspensas a partir de setembro, alerta setor

Mercado europeu exige comprovação de que animais não receberam antimicrobianos, enquanto governo brasileiro negocia prazo de adaptação para evitar interrupção das vendas

A indústria brasileira da carne bovina avalia que há um risco elevado de interrupção das exportações para a União Europeia a partir de setembro. O motivo é a dificuldade de comprovar, conforme exigido pelo bloco europeu, que os bovinos destinados ao mercado não receberam antimicrobianos durante todo o ciclo de vida.

Enquanto isso, o governo federal intensifica as negociações para tentar obter um período de transição que permita ao Brasil adequar seus sistemas de controle. Paralelamente, também está em análise a possibilidade de restringir ou até proibir o uso desses produtos no país como forma de atender às exigências europeias.

A proposta, porém, enfrenta resistência dos pecuaristas, que defendem uma solução construída em conjunto entre produtores, frigoríficos e autoridades para evitar prejuízos à cadeia produtiva.

Mercado europeu tem peso estratégico para o Brasil

Embora represente aproximadamente 6% do volume exportado e da receita obtida com as vendas externas de carne bovina, a União Europeia é considerada estratégica para o setor brasileiro.

Segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, trata-se de um mercado de alto valor agregado, responsável pela compra de cortes que normalmente não encontram espaço em mercados asiáticos.

Além da rentabilidade, atender aos rigorosos padrões sanitários europeus fortalece a imagem da carne brasileira no comércio internacional, já que decisões adotadas pela União Europeia costumam influenciar outros mercados importadores.

Em 2025, o Brasil exportou cerca de 128 mil toneladas de carne bovina para o bloco europeu, movimentando aproximadamente US$ 1 bilhão.

Governo busca acordo para evitar impactos

As negociações entre Brasil e União Europeia continuam em andamento na tentativa de estabelecer um período de adaptação antes da aplicação integral das novas regras.

Caso as exportações sejam interrompidas, o setor estima que a retomada das vendas possa levar pelo menos dois anos. Esse é o tempo necessário para acompanhar todo o ciclo produtivo dos animais e comprovar que eles não receberam antimicrobianos.

Nos últimos dias, representantes dos frigoríficos, produtores rurais e integrantes do governo participaram de reuniões para discutir alternativas. O tema também deverá ser debatido pela Câmara Setorial da Carne Bovina do Ministério da Agricultura.

De acordo com a Abiec, o objetivo é encontrar uma solução coletiva que preserve o fluxo comercial com a União Europeia sem comprometer a competitividade da pecuária brasileira.

Setor enfrenta cenário desafiador em 2026

Além da possível suspensão das vendas para a União Europeia, a cadeia da carne bovina também enfrenta dificuldades relacionadas ao esgotamento da cota de exportação destinada à China.

A expectativa da Abiec é de uma redução de aproximadamente 10% nas exportações brasileiras em 2026 em comparação ao ano anterior, quando o país embarcou cerca de 3,5 milhões de toneladas.

O setor também cita desafios internos, como custos de produção elevados, dificuldades de acesso ao crédito e redução da demanda internacional, fatores que já levam algumas indústrias a conceder férias coletivas e avaliar medidas como suspensão temporária de contratos de trabalho.

Diante desse cenário, a avaliação é de que 2026 exige cautela por parte das empresas, enquanto governo e setor privado buscam alternativas para preservar a presença da carne bovina brasileira nos principais mercados internacionais.

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