Em sua primeira entrevista após ter sido preso há 4 anos, o governador Sérgio Cabral denuncia o conluio de setores da imprensa com empresas envolvidas em fraudes e sonegações. Cita expressamente a Refit, controladora da Refinaria Manguinhos; a Caoa, fabricante Hyundai no Brasil, e o Sistema S como protagonistas de operações financeiras para “calar a imprensa” através da liberação de verbas publicitárias polpudas.
A Agenda do Poder teve acesso à integra da entrevista, sem edição ou corte, na qual o ex-governador faz mea-culpa; diz-se arrependido; promete jamais voltar a disputar eleições na hipótese de ser solto e afirma que, ao recomeçar, não convidaria para um café o Sérgio Cabral do passado.
Preso desde 2016, Cabral cumpre pena de inacreditáveis 282 anos, por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes relacionados ao desvio de recursos dos cofres públicos.
Da cadeia, em uma das galerias de Bangu 8, ele concedeu por escrito a seguinte entrevista à Veja:
– O Senhor está arrependido? Por quê?
Arrependido. Muito sofrimento pra mim e pra minha família.
2- Se o senhor pudesse começar de novo, quem não convidaria para um café?
Não convidaria o Sergio Cabral do passado, que achava normal, como tantos homens públicos e privados, obter benefício ilícito de uma situação.
3- Por que o senhor desviou tanto dinheiro dos cofres públicos?
Ao contrário de muitos, dos 3 poderes, não virei dono de rádio, televisão, fazendas, construção civil e etc. O percentual de 3% a 5% , quase que exclusivamente tratado com os grandes prestadores de serviço e grandes construtoras, não era o usual. A prática nos 3 poderes era de percentuais bem mais altos, 10% , 30%, nas realizações com o erário público, direta, ou indiretamente. Por praticar acordos menos danosos que o comum, achava-me ( erroneamente ) voando abaixo do radar.
4- O senhor achava que nunca seria descoberto? Por que?
Sim, a sensação de impunidade ainda está presente em parte expressiva da vida pública e privada do Brasil. Seja em práticas de corrupção, trocas de interesse e sonegação de impostos.
5 – A sua amizade por Lula era sincera?
Lula e eu nos gostávamos. O clima de boa relação entre o Governo Federal e o Governo do Estadual foi mais importante do que os recursos propriamente repassados pelo seu Governo. Exemplo : O maior volume de recursos da União para o Rio foi em 2010, 1 Bilhão de reais, enquanto o Rio investiu 6 Bilhões pelo Governo do Estado. O que nos afastou, foi em 2014, ele apostar no Lindberg, e achar que eu não tinha chances de eleger o Pezão.
6 – Lula mereceu ser preso? Por que?
Não sou Juiz
7 – Quem lhe deixou sentado a beira do caminho?
Não guardo mágoas.
8 – O que o senhor fez com tanta riqueza?
Gastei na vida política e na vida pessoal. Me arrependo disso. Devolvi na colaboração , ao confirmar que eram meus os 100 milhões de dólares , 60 milhões de reais em imóveis e as joias compradas , também devolvidas.
9 – Há políticos que se apropriaram dos bens públicos tanto ou mais que o senhor e continuam impunes, no exercício da vida pública? Quem ? Por que?
Que as autoridades sérias os alcancem. Estou a disposição para colaborar.
10 – O senhor foi condenado a mais de 280 anos de prisão. Quais suas chances de sair da cadeia?
Minha defesa entende que o fatiamento das ações e condenações , assim como a dosimetria, não se sustentam. Além do fato de ser colaborador , e na homologação, se prevê que se pode dar benefícios nessas ações com condenações já proferidas. Sou o único colaborador da Lava-Jato preso, e o STF já decidiu que prisão só depois da ação transitada em julgado. A Lei Anti Crime impôs mais rigor para se justificar a prisão preventiva. Não ameaço os processos, sou colaborador da justiça.
11 – Por que o senhor acha que o Ministro Dias Toffoli rejeitou sua delação?
Não houve rejeição. A delação está válida, e homologada pelo Ministro Fachin, que abriu inquéritos para investigar autoridades dos três poderes, com foro privilegiado. Toffoli recebeu inquéritos como presidente do STF, e arquivou 3 inquéritos sem ter distribuído a relatores.
12 – O que achou da PGR não ter fechado um acordo de delação premiada com o senhor?
Continuo a disposição para colaborar com as autoridades.
13 – O que o senhor disse para a Polícia Federal nos inquéritos que estavam no STF, e foram rejeitados pelo Ministro Dias Toffoli?
Quem são os Ministros do STJ e TCU delatados?
Essas informações estão sob sigilo, não posso me pronunciar.
14 – Qual foi o dia em que o senhor cruzou a linha da corrupção? Você se lembra desse momento? Quando viu que não tinha volta?
No Brasil, quando você se torna líder majoritário, é inevitável. A legislação brasileira é pouco pragmática. O financiamento público é uma falácia. Somos um país que proíbe as mulheres pobres, de interromper uma gravidez indesejada de maneira digna, no entanto, as autoridades sabem onde funcionam as clínicas ilegais. Será que os europeus, norte americanos e canadenses tem menos apreço à vida que nós brasileiros?
E o jogo? Somos o único país das Américas a proibi-lo.
E a maconha? O mundo avança e retrocedemos, e ai a corrupção aumenta.
15 – O senhor acha que foi uma decepção para o seu pai?
Meu pai é o maior carioca vivo. Como disse o arquiteto já falecido , Marcos Vasconcelos, o Cabral “ é o verdadeiro túnel rebouças, liga a Zona Norte à Zona Sul” . Há 7 anos enfrenta o Alzheimer. Minha mãe, intelectual como ele , é uma mulher extraordinária. Apesar da dificuldade de locomoção, ela faz questão de vir a toda a visita ( não a vejo a 5 meses por conta da pandemia ).
16 – Se fosse solto amanhã, o que o senhor faria para viver? Ainda sonha em voltar para a política? Para qual cargo?
Vou trabalhar com dignidade e recomeçar minha vida. Não disputo mais eleição.
17 – O que o senhor sabe da relação do clã Bolsonaro com as milícias?
Meu governo prendeu centenas de milicianos, e parlamentares envolvidos com a milícia. Jamais ouvi dos meus colaboradores da área de segurança pública, qualquer menção vinculando a família Bolsonaro com as milícias.
18 – Witzel usa os mesmos nomes e o mesmo esquema de gestões anteriores?
Não tenho como opinar.
19 – O episódio que ficou conhecido como “ Farra dos Guardanapos” é considerado um marco. Como vê a cena hoje?
Naquele dia recebi a “Legion d’Honneur” do Senado Federal Francês, no Palácio de Luxemburgo. Dali seguimos para um jantar oferecido pelo cunhado do Eduardo Eugênio, presidente da FIRJAN, e que estava na comitiva , o Barão de Waldner, em um clube exclusivo na Avenida Champs-Elysées. Eram 100 convidados. Na minha mesa estavam o Embaixador Brasileiro, Eduardo Paes, Eduardo Eugênio, Thierry Peugeot, e o então dono da Alstom e de um conglomerado de telecomunicação na França. Nenhum de nós estávamos na foto.
Garotinho comprou as fotos em 2012, do padrasto da Jordana , falecida no desastre de helicóptero em 2011, quando o Cavendish e sua empresa Delta estavam envolvidos com escândalos em Goiás. Garotinho pagou 300 mil reais pelas fotos. Quem me contou foi o José Lucas Magalhães Lins, ex marido da Jordana, e pai de seu filho que tragicamente veio a falecer junto com a mãe no desastre aéreo. Zé Luca, seu pai José Magalhães Lins, e toda a família , me ofereceram um jantar em desagravo à exploração das fotos pelo Garotinho. Na época havia boatos de que o Zé Luca, que faleceu lutando contra um câncer no cérebro, teria sido responsável pelas fotos. Ele com a família no jantar, repudiaram essa boataria.
Garotinho editou as fotos para omitir as presenças dos empreiteiros Benedito Júnior , da Odebretch, e Ricardo Pernambuco Filho, da Carioca Engenharia, que estavam presentes no jantar.
20 – O senhor foi condenado pelo Juiz Marcelo Bretas. As condenações foram justas?
Não sou juiz. Quanto às condenações , minha defesa entende que o fatiamento das ações e condenações, assim como a dosimetria, não se sustentam.
21 – Ficou mágoa com o Juiz Marcelo Bretas? Por quê?
O conheci na condição de réu, e ele de Juiz.
22 – O senhor está preso desde 2016. O que a cadeia ensina?
Como pregou Paulo aos Coríntios, permanecem a Fé, a Esperança e o amor ; porém, o Amor é a maior dádiva da vida.
23 – Foi muito difícil se acostumar com a rotina na cadeia? Por quê?
Depois da saúde, a privação da liberdade é o maior sofrimento humano.
24 – Qual foi o pior momento dentro da prisão?
A prisão da minha mulher , Adriana , mãe dos meus filhos menores.
25 – O senhor foi acusado de ter regalias na prisão. É verdade?
Jamais tive.
26 – Além dos já conhecidos beneficiários do esquema no Rio, como empreiteiras, quais empresas privadas mais se beneficiaram? Por que?
A promiscuidade ocorre nos 3 poderes, entidades para estatais, e no setor privado, numa forte dinâmica. Basta checar o volume publicitário da REFIT/Refinaria de Manguinhos, na mídia, ou do grupo CAOA. Só pra ficar em duas empresas com problemas sérios com o Fisco, e que calam a imprensa com polpudas verbas publicitárias , desproporcionais aos produtos que divulgam. Ou basta ver os gastos do Sistema “S” nos veículos de comunicação em todos os Estados, mesmo na pandemia! Para evitar matérias investigativas sobre gestores que ficam décadas no comando de orçamentos polpudos.
27 – Pezão ficou rico? Por quê?
Ele teve a disciplina de morar nos mesmos imóveis modestos. Em audiências ja esclareci fatos ao Juiz Bretas e estou a disposição da justiça. Sua má gestão e incompetência prejudicaram o Rio.
28 – Sobrou algum amigo? Quais?
Meus filhos são meus melhores amigos.
29 – Sente-se abandonado?
Há 5 meses não tenho visitas, só sinto falta da minha família.
30 – Qual a sensação de estar no topo do mundo, e de repente, desabar?
Não há topo, nem chão, há a beleza da vida.
31 – Como está pagando as suas contas?
Minhas contas estão bloqueadas e estou preso há três anos e 9 meses. A família tem lutado muito.
32 – O senhor ja comprou pesquisas eleitorais ? Como? Quais? Por quê?
Esse tema está sob sigilo
33- Em 2014, o senhor comprou , segundo a sua delação, o PSD e o Solidariedade para apoiar o Pezão. Comprar partidos para fazer aliança era comum? Quais outros partidos o senhor comprou? Em quais eleições? Como foram as negociações?
Sobre esse assunto não posso me pronunciar.
34 – Na sua delação figuram personagens do MP-RJ. Inclusive o Ex Procurador Geral de Justiça Cláudio Lopes foi preso pela Operação Lava Jato. Como foi sua relação com o MP-RJ no período que foi Governador?
Sobre o assunto específico também não posso me pronunciar. Durante os meus dois mandatos meu relacionamento era exclusivo com quem ocupava a Procuradoria Geral de Justiça- PGJ Marfan Vieira Martins ( 2007/2008 e 2013/2014 ) e Cláudio Lopes ( 2009/2010 e 2011/2012 ).
35 – Eduardo Paes, seu ex aliado, disse em entrevista a Veja, que a relação de vocês era apenas institucional. É isso mesmo?
O que vocês acham?
36 – A corrupção nunca acabará na política brasileira?
O caminho é fortalecer a democracia. Temos poucos anos verdadeiramente democráticos em nossa história republicana.
EXCLUSIVO! A íntegra da entrevista de Sérgio Cabral à Veja sem cortes
Em sua primeira entrevista após ter sido preso há 4 anos, o governador Sérgio Cabral denuncia o conluio de setores da imprensa com empresas envolvidas em fraudes e sonegações. Cita expressamente a Refit, controladora da Refinaria Manguinhos; a Caoa, fabricante Hyundai no Brasil, e o Sistema S como protagonistas de operações financeiras para “calar a…






Deixe um comentário