Preso desde o último dia 16, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, prepara uma mudança de estratégia que pode alterar os rumos da investigação sobre o Banco Master, informa a colunista do Globo Malu Gaspar. A defesa do executivo pretende solicitar ao Supremo Tribunal Federal (STF) a transferência do Complexo Penitenciário da Papuda para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília, com o objetivo de viabilizar negociações para um acordo de colaboração premiada.
O pedido será encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Segundo os advogados, a permanência na Papuda dificulta a condução de tratativas envolvendo eventual delação, além de não oferecer as condições necessárias para esse tipo de negociação.
Mudança na defesa e foco na delação
A nova estratégia jurídica foi acompanhada da troca de advogados. Paulo Henrique Costa dispensou o criminalista Cléber Lopes e contratou Eugênio Aragão e Davi Tangerino para assumir o caso. Aragão, que foi ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff, deve liderar as tratativas para um possível acordo de colaboração.
A expectativa é que o ex-dirigente do banco estatal se reúna com os novos defensores ainda nesta semana, já com o foco voltado para a negociação com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
O movimento segue um roteiro semelhante ao adotado por Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Ele também deixou a penitenciária após sinalizar disposição para colaborar com as investigações e teve a transferência para instalações da Polícia Federal autorizada por Mendonça. Na ocasião, Vorcaro também substituiu sua defesa e passou a ser representado por um advogado especializado em delações.
Disputa por acordo e pressão por tempo
Nos bastidores da investigação, há uma corrida entre os investigados para firmar acordos de colaboração. De acordo com fontes ligadas ao caso, Paulo Henrique Costa busca “passar à frente” de Vorcaro nas negociações, diante do risco de perder relevância caso outro delator feche acordo primeiro.
A lógica é que informações inéditas e relevantes aumentam as chances de benefícios em eventuais acordos. Caso outro investigado antecipe sua colaboração, o conteúdo apresentado por Costa pode ter menor peso para as autoridades.
Fator político e pedido de transferência
Além da estratégia jurídica, a defesa também aponta questões institucionais para justificar a transferência. A Papuda é administrada pelo governo do Distrito Federal, o que, na avaliação dos advogados, pode representar um entrave, já que o ex-governador Ibaneis Rocha é apontado como possível personagem central em uma eventual delação.
Esse cenário também motivou a saída do advogado anterior, que mantém relação profissional com o ex-governador. Ibaneis deixou o cargo no fim de março para disputar uma vaga no Senado, sendo substituído pela vice, Celina Leão.
O ex-governador tem negado irregularidades, mas sua atuação no contexto das negociações envolvendo o banco estatal está entre os pontos analisados pela Polícia Federal.
Investigação envolve bilhões em operações
As apurações miram a aquisição, pelo BRB, de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas fraudulentas do Banco Master. O negócio ocorreu em meio a tratativas para uma possível compra da instituição privada.
À época, a operação foi defendida publicamente pelo então governador Ibaneis Rocha, que afirmou que a iniciativa ampliaria a presença do banco estatal no sistema financeiro nacional e traria retorno financeiro expressivo.
“O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou o governador em agosto de 2025 ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a compra da instituição privada.
Acusações e provas reunidas pela PF
Paulo Henrique Costa é investigado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a Polícia Federal, ele teria recebido vantagens indevidas do Banco Master para viabilizar a aprovação das operações.
Entre os elementos levantados estão seis imóveis de alto padrão — quatro em São Paulo e dois em Brasília — avaliados em R$ 146 milhões. De acordo com os investigadores, R$ 74,6 milhões teriam sido efetivamente pagos.
Na decisão que autorizou a prisão, o ministro André Mendonça afirmou que o ex-presidente do BRB “atuava como um verdadeiro mandatário” de Daniel Vorcaro dentro da instituição financeira.
Ainda segundo a decisão, Paulo Henrique Costa “visitava ou validava os imóveis selecionados”, acompanhava o andamento das aquisições e chegou a “demonstrar preocupação com a falta de documentação formal do arranjo”.
As investigações também apontam que os imóveis eram escolhidos com base em critérios pessoais e familiares, com participação direta nas tratativas entre Costa, Vorcaro e o advogado Daniel Monteiro, também preso por ordem do Supremo.
Com a possível formalização de acordos de colaboração, a expectativa é que novos detalhes sobre a operação venham à tona, ampliando o alcance das investigações e esclarecendo a atuação de diferentes agentes públicos e privados no caso.






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