A prisão do ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos Peter Mandelson, nesta segunda-feira (23), aprofundou a crise política que já vinha abalando o governo britânico após a divulgação de novos documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein. O diplomata, de 72 anos, foi detido em sua residência e liberado no mesmo dia após pagamento de fiança, mas permanece sob investigação criminal.
A apuração foi aberta no início do mês, depois que arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos indicaram que Mandelson recebeu dinheiro de Jeffrey Epstein, financista condenado por comandar uma rede de tráfico sexual e abuso de menores.
A informação sobre a prisão foi divulgada inicialmente pelo jornal britânico The Times e reportada pelo g1. Procurada, a Polícia Metropolitana de Londres confirmou a detenção de um homem de 72 anos sob suspeita de má conduta em cargo público, sem divulgar oficialmente o nome do investigado.
“Agentes prenderam um homem de 72 anos sob suspeita de má conduta em cargo público. Ele foi preso em um endereço em Camden na segunda-feira, 23 de fevereiro, e foi levado para uma delegacia de polícia em Londres para interrogatório. Isto ocorre na sequência de mandados de busca e apreensão cumpridos em dois endereços nas áreas de Wiltshire e Camden”, disse a polícia em um comunicado.
No início do mês, residências de Mandelson em Londres e no oeste da Inglaterra já haviam sido alvo de mandados de busca.
Renúncias e silêncio
Após a abertura formal da investigação, Mandelson renunciou ao cargo que ocupava no Parlamento britânico e também deixou seu posto no Partido Trabalhista, legenda que atualmente governa o país. Ele é casado com um brasileiro.
Emails recentemente divulgados indicaram que o diplomata mantinha relação mais próxima com Epstein do que se supunha. Segundo os documentos, Mandelson teria compartilhado informações com o financista em 2009, quando era ministro no governo do então primeiro-ministro Gordon Brown.
Embora já tenha declarado no passado que se arrependia “profundamente” de sua associação com Epstein, Mandelson não comentou publicamente as novas revelações nem respondeu a pedidos recentes de posicionamento.
Pressão sobre Keir Starmer
A crise respingou diretamente sobre o primeiro-ministro Keir Starmer, responsável pela nomeação de Mandelson. No dia 10 deste mês, após o anúncio da investigação, Starmer afastou especulações de que deixaria o cargo.
“Jamais abandonarei o mandato que me foi confiado para mudar este país”, disse Starmer a jornalistas nesta terça. “Jamais abandonarei o povo pelo qual tenho a responsabilidade de lutar, e jamais abandonarei o país que amo”.
A popularidade do premiê já vinha em queda, com índices próximos de 18%. A controvérsia envolvendo Mandelson agravou o cenário. Dentro do Partido Trabalhista, há divisão: parte dos parlamentares defende a permanência de Starmer, enquanto outra ala pressiona por mudanças na liderança.
Dois auxiliares próximos ao premiê deixaram seus cargos em meio à turbulência. No dia 8, o chefe de gabinete Morgan McSweeney, que teria sugerido o nome de Mandelson para o governo, renunciou. No dia seguinte, o diretor de Comunicação, Tim Allan, também pediu demissão.
A sucessão de saídas aumentou a percepção de fragilidade política e levantou questionamentos sobre a estabilidade do atual governo.
Família real também atingida
As novas revelações envolvendo Epstein não se restringiram ao meio político. O ex-príncipe Andrew, irmão do rei Charles, foi preso na quinta-feira (19) sob suspeita semelhante à que recai sobre Mandelson.
Andrew já estava há anos sob escrutínio por sua relação com Epstein. Mensagens divulgadas pelo governo dos EUA indicam que ele teria repassado informações sigilosas sobre oportunidades de investimento ao financista quando atuava como representante comercial do Reino Unido.
Entre os arquivos divulgados, há também uma fotografia em que Andrew aparece agachado sobre uma mulher. A ex-esposa do irmão do rei, Sarah, também é mencionada nos documentos. Em mensagens trocadas com Epstein, ela relata detalhes íntimos da própria filha, a princesa Eugenie, mesmo após a primeira condenação de Epstein por prostituição de menores em 2008.
Um porta-voz do príncipe William e da princesa Kate afirmou recentemente que ambos estão “profundamente preocupados” e pensando nas vítimas. O Palácio de Buckingham declarou que está pronto para colaborar com as investigações conduzidas pela polícia no caso envolvendo Andrew.






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