Ex-dono da Reag negocia com a PGR proposta de delação focada em Vorcaro

João Carlos Mansur apresentou 17 anexos e documentos sobre operações financeiras; proposta prevê pagamento de R$ 40 milhões em multas e ainda depende de assinatura e eventual homologação pelo STF

Adicione o Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

O ex-dono da Reag Investimentos João Carlos Mansur está na fase final de negociação de um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), informa a colunista Natália Portinari, do portal UOL. A proposta apresentada pelo empresário contém 17 anexos sobre suspeitas de crimes financeiros e concentra parte das informações em operações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Pelos termos em discussão, Mansur deverá pagar R$ 40 milhões em multas, valor equivalente ao que teria recebido da Reag durante o período de funcionamento da empresa. A proposta ainda passa por ajustes e não foi formalmente assinada.

Entre as informações entregues estão documentos sobre operações realizadas por fundos administrados pela Reag e suas relações com o Banco Master. Mansur afirma que estruturas financeiras teriam sido utilizadas para desviar recursos do banco, com participação de intermediários e empresas no exterior.

As afirmações fazem parte da proposta de colaboração e ainda precisam ser confrontadas com documentos e outras provas pelas autoridades responsáveis pelas investigações.

Delação concentra informações sobre Vorcaro

A relação entre a Reag e o Banco Master ocupa espaço central no material apresentado por Mansur. Segundo o executivo, a gestora prestava serviços ao banco e a Vorcaro desde 2019, quando o empresário assumiu o controle da instituição financeira.

A Reag teria participado da estruturação de operações envolvendo fundos de investimento. Mansur afirma que alguns desses veículos financeiros foram posteriormente utilizados em operações suspeitas para retirar recursos do Master.

De acordo com o relato entregue à PGR, fundos administrados pela Reag teriam empregado pessoas apontadas como laranjas entre seus beneficiários, além de estruturas offshore.

Mansur também relatou negociações mantidas diretamente com Vorcaro. Segundo sua versão, esses contatos demonstrariam que o então controlador do Master tinha conhecimento das operações sob investigação e estaria por trás delas.

O ex-dono da Reag entregou documentação que, segundo sua defesa, ajuda a reconstruir o caminho percorrido pelos recursos.

Mansur e Vorcaro chegaram a tentar uma colaboração conjunta quando ambos eram representados pelo advogado criminalista José Luís de Oliveira. A iniciativa não avançou.

As informações apresentadas por Vorcaro foram consideradas insuficientes pela PGR e pela Polícia Federal. Posteriormente, José Luís de Oliveira deixou o caso de Mansur, cuja defesa passou a ser conduzida pelo criminalista Aloísio Medeiros.

Acordo ainda precisa passar pelo STF

A colaboração de Mansur é negociada com a PGR e a Polícia Federal, mas ainda não está formalmente concluída.

Depois da assinatura, o acordo deverá ser encaminhado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso relacionado ao Banco Master.

Caberá ao ministro analisar uma eventual homologação, verificando se o acordo atende aos requisitos previstos na legislação.

Para a PGR, um dos pontos considerados relevantes é a possibilidade de utilizar as informações de Mansur para identificar o destino de valores bilionários que teriam sido desviados do Banco Master e localizar ativos que possam ser recuperados.

O executivo teria apontado novos nomes de empresas, entidades e fundos utilizados nas operações investigadas.

A assinatura de uma delação, por si só, não comprova as acusações feitas pelo colaborador. As informações precisam ser corroboradas por elementos independentes para que possam sustentar medidas judiciais ou acusações.

Fundos e operações no exterior entram no relato

Um dos anexos trata especificamente de estruturas que, segundo Mansur, estariam relacionadas a Vorcaro.

O ex-dono da Reag identificou pessoas que teriam aparecido formalmente como cotistas ou beneficiários de fundos, mas que, segundo ele, atuariam em nome do antigo controlador do Banco Master.

Entre os casos citados está o Jaguar Multimarket Fund Ltd, registrado nas Ilhas Cayman. O Banco Master teria transferido R$ 494 milhões para o fundo.

Formalmente, o beneficiário do Jaguar é Benjamim Botelho, parceiro comercial do Master e ex-dono da Sefer, gestora que também aparece nas investigações da Operação Compliance Zero.

Mansur afirma, porém, que o verdadeiro beneficiário da estrutura seria Vorcaro. Essa é uma das informações que deverão ser verificadas pelas autoridades a partir dos documentos apresentados na colaboração.

As investigações conduzidas pelo Banco Central e pela Polícia Federal tentam reconstruir uma rede de transações que envolvia empresas, fundos e ativos com valores questionados.

Operações teriam inflado patrimônio de fundos

Segundo as investigações, uma das estruturas sob suspeita começava com empréstimos concedidos pelo Banco Master a empresas recém-criadas e sem atividade operacional relevante.

Essas empresas aplicariam os recursos recebidos em fundos administrados pela Reag. Em seguida, o dinheiro passaria rapidamente por outros fundos relacionados aos mesmos intermediários.

Os recursos acabariam sendo direcionados à aquisição de ativos considerados de baixo ou nenhum valor de mercado. Esses papéis, entretanto, teriam sido contabilizados por valores muito superiores aos efetivamente praticados, inflando o patrimônio declarado pelos fundos.

Um dos exemplos apontados pelas investigações envolve o fundo High Tower. A estrutura teria adquirido por R$ 850 milhões carteiras de crédito consideradas de difícil recuperação do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).

Posteriormente, os papéis teriam sido registrados como se valessem R$ 10 bilhões.

Na avaliação dos investigadores, operações desse tipo permitiriam retirar ativos problemáticos do balanço do banco e transferi-los para estruturas do mercado de capitais, onde passariam a aparecer com avaliações muito superiores.

Seis fundos relacionados à Reag chegaram a somar R$ 102,4 bilhões em patrimônio declarado. O número, entretanto, não corresponde necessariamente ao valor efetivamente desviado. Ele representa o tamanho das estruturas financeiras que estão sob investigação.

Segundo os investigadores, a triangulação teria ganhado força entre 2023 e 2024, período em que o Banco Master enfrentava dificuldades de caixa.

Mansur também é investigado em outras operações

O próprio João Carlos Mansur é alvo de investigações.

No ano passado, ele foi investigado na Operação Carbono Oculto, que apurou suspeitas envolvendo a utilização de fundos administrados pela Reag para lavagem de dinheiro relacionada ao crime organizado.

A Reag, que atuava como gestora e administradora de fundos, posteriormente foi liquidada pelo Banco Central.

Mansur também passou a ser investigado pela relação com o Banco Master na Operação Compliance Zero, cujo caso chegou ao STF sob relatoria de André Mendonça.

Paralelamente à negociação com a PGR e a Polícia Federal, o empresário mantém tratativas com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), responsável pelas investigações da Carbono Oculto.

A proposta de delação inclui informações relacionadas a essa operação. Entre elas estão operações de fundos da Reag utilizados pelos empresários do setor de combustíveis Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco.

Jaques Wagner e ACM Neto são citados em anexos

Pelo menos dois políticos aparecem nos anexos apresentados por Mansur: o senador Jaques Wagner (PT-BA) e ACM Neto (União-BA), candidato ao governo da Bahia.

No caso de Wagner, Mansur relatou a compra de ingressos para um show de Taylor Swift realizado no Allianz Parque, em São Paulo, em 2023.

Segundo o relato, Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, pediu a Mansur que comprasse os ingressos, avaliados em R$ 63,3 mil, que posteriormente foram utilizados para presentear Wagner.

Procurado, o senador afirmou que a compra foi “um pedido pessoal do senador a um amigo para que o ajudasse a conseguir os ingressos”.

Wagner declarou ainda que “não conhece João Carlos Mansur e nunca teve relação com a empresa Reag”.

ACM Neto, por sua vez, aparece no material por ser o único cotista do fundo de investimentos Seattle 95, administrado pela Reag até 2025.

Por meio do Seattle 95, foram realizados investimentos no fundo Structure, relacionado a empréstimos consignados originados pelo Banco Master.

ACM Neto afirmou que é cotista do Seattle, “criado no final de 2021 por meio do aporte de recursos próprios de origem declarada e lícita”.

“Para cumprimento das regras da CVM, o fundo contratou a Reag Investimentos como administradora desses recursos. O fundo, portanto, era cliente da Reag, à época uma das principais administradoras de fundos do país.”

“A rentabilidade obtida pelo fundo foi completamente compatível com a realidade de mercado e todos os impostos foram devidamente recolhidos. Tudo transcorreu com total transparência, com dados públicos e regulados pela CVM, na mais absoluta legalidade.”

Seattle concentrou recursos em fundo ligado ao Master

O Seattle 95 investiu aproximadamente R$ 4,8 milhões no Structure em quatro operações realizadas entre novembro de 2021 e julho do ano passado.

Em fevereiro de 2023, 98,6% do patrimônio do Seattle estava concentrado nessa aplicação.

ACM Neto realizou dez aportes no fundo, que totalizaram R$ 7,92 milhões. Em outubro do ano passado, o patrimônio chegou a R$ 11,94 milhões, representando um ganho de R$ 4,01 milhões e rentabilidade média de aproximadamente 17% ao ano.

Além do Seattle 95, a Reag DTVM administrava outros fundos que aparecem ligados a personagens investigados ou citados no caso Master.

Entre eles estão o Astralo 95; o Haena 808, pertencente a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no banco; e o Whynot, de Valério Marega Júnior, gestor investigado no caso envolvendo Jaques Wagner.

A eventual homologação da colaboração de Mansur poderá abrir uma nova etapa nas investigações sobre o Banco Master e as estruturas administradas pela Reag. Antes disso, porém, a proposta ainda precisa ser assinada, passar pela análise do Supremo e, principalmente, ter as informações apresentadas pelo executivo verificadas pelas autoridades.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo