‘Direito à esperança’: Europa pressiona Turquia por mudanças que podem abrir caminho para libertação de líder curdo preso há 27 anos

Conselho da Europa cobra cumprimento de decisões judiciais e estabelece prazo para que Ancara reforme legislação sobre prisão perpétua; caso reabre debate sobre processo de paz e apela para que questão curda tenha uma solução política

O governo da Turquia enfrenta uma nova pressão internacional para adequar sua legislação às decisões da Justiça europeia em um caso que há décadas mobiliza organizações mundiais de direitos humanos e movimentos curdos. O prazo dado pelo Conselho da Europa para que Ancara implemente mudanças relacionadas ao chamado “direito à esperança” chegou ao seu momento decisivo nesta semana, recolocando no centro do debate a situação de Abdullah Öcalan, fundador do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), preso desde 1999.

A cobrança não se refere diretamente à libertação imediata de Öcalan, mas à exigência de que a Turquia altere seu sistema de prisão perpétua agravada, permitindo que condenados tenham alguma perspectiva legal de revisão da pena ou eventual liberdade no futuro. A Corte Europeia de Direitos Humanos entende desde 2014 que o modelo atualmente aplicado pela Turquia viola padrões europeus de direitos humanos.

O que está em jogo

Abdullah Öcalan cumpre pena na prisão turca da ilha de Imrali desde sua captura em 1999. Fundador do PKK, organização militante considerada terrorista pela Turquia, pela União Europeia e pelos Estados Unidos, ele continua sendo uma das figuras mais influentes do movimento curdo, mesmo após mais de duas décadas de encarceramento.

O Conselho da Europa concedeu à Turquia sucessivos prazos para que adapte sua legislação às decisões da Corte Europeia. Após o descumprimento do cronograma inicial, Ancara recebeu uma extensão adicional, cujo prazo final expirou em 9 de junho de 2026. O Comitê de Ministros europeu se reuniu nesta semana, nos dias 9, 10 e 11, para avaliar o cumprimento dessas determinações pela Turquia e voltou a analisar o nível de cumprimento das determinações pelo país.

O principal ponto discutido é o “direito à esperança”, princípio jurídico segundo o qual mesmo condenados à prisão perpétua devem ter acesso a mecanismos de revisão da pena e possibilidade futura de liberdade, desde que cumpridos determinados requisitos legais.

Turquia resiste às mudanças

O governo turco tem demonstrado resistência em aplicar esse entendimento ao caso de Öcalan. Em documentos enviados ao Conselho da Europa nos últimos meses, Ancara indicou que não pretende estender automaticamente esse direito aos condenados à prisão perpétua agravada, categoria na qual o líder curdo está enquadrado.

A posição turca ocorre em meio a um momento delicado da política interna. Desde 2025, o país vive uma nova tentativa de retomada do diálogo com setores do movimento curdo, após o PKK anunciar o fim de sua luta armada e iniciar um processo de desarmamento influenciado por apelos de paz feitos pelo próprio Öcalan.

Mudança de cenário político

Nos últimos meses, o debate sobre o papel de Öcalan ganhou novos contornos. Em outubro de 2024, Devlet Bahçeli, líder do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), aliado do presidente Erdoğan, surpreendeu ao defender que Abdullah Öcalan pudesse obter liberdade condicional caso aceitasse abandonar a luta armada e promovesse a dissolução do PKK. Na mesma linha, o próprio Erdoğan declarou que a Turquia precisa enfrentar seus problemas e buscar soluções, em vez de simplesmente ignorá-los.

Ainda em 2024, parlamentares do Partido da Igualdade e Democracia dos Povos (DEM) receberam autorização para visitar Abdullah Öcalan na prisão da ilha de Imrali. Em outubro, foi autorizada a visita do deputado Ömer Öcalan, sobrinho do líder curdo; posteriormente, em dezembro, os parlamentares Sirri Süreyya Önder e Pervin Buldan também puderam visitar o fundador do PKK. Os encontros encerraram um período de 43 meses de completo isolamento, durante o qual não havia chegado ao exterior nenhuma confirmação sobre as condições ou mesmo a sobrevivência de Öcalan.

Paralelamente, parlamentares turcos passaram a discutir mecanismos legais que poderiam facilitar uma solução política para o conflito, considerado um dos mais longos da história contemporânea do país. O confronto entre o Estado turco e o PKK começou em 1984 e deixou mais de 40 mil mortos ao longo de quatro décadas.

Revolução e Ciência das mulheres

Além da discussão sobre o encerramento do conflito armado, a figura de Öcalan continua exercendo influência sobre diferentes correntes do movimento curdo por razões que vão além da questão nacional. Ao longo das últimas décadas, suas reflexões passaram a abordar temas como democracia local, ecologia política e igualdade de gênero, conceitos que acabaram incorporados por organizações ligadas ao movimento curdo em diferentes países da região.

Uma das transformações mais significativas associadas a esse processo foi a ampliação do protagonismo feminino. A partir dos anos 1990, Öcalan passou a defender que a libertação dos curdos não poderia ser dissociada da emancipação das mulheres, argumentando que o patriarcado representava uma das formas mais antigas e profundas de opressão social.

Essas ideias influenciaram experiências políticas desenvolvidas por movimentos curdos, especialmente no norte da Síria, onde foram criados mecanismos avançados de participação feminina. Entre eles estão sistemas de copresidência, nos quais cargos políticos são ocupados simultaneamente por um homem e uma mulher, além de cotas obrigatórias para mulheres em instituições públicas e conselhos autônomos voltados para questões de gênero.

Uma das contribuições intelectuais mais originais do movimento curdo é a chamada Jineolojî. A palavra deriva de “jin”, que significa mulher em curdo. Seus defensores a descrevem como uma nova forma de conhecimento centrada na experiência feminina e crítica às estruturas patriarcais presentes tanto no capitalismo quanto nos Estados nacionais modernos. A Jineolojî é ensinada em academias, centros comunitários e programas educacionais ligados à administração autônoma curda.

Direito à esperança pode ter impacto além de Öcalan

Embora o nome de Abdullah Öcalan seja o mais conhecido, as mudanças exigidas pela Europa não afetariam apenas o líder curdo. Centenas de outros presos condenados à prisão perpétua agravada também poderiam ser beneficiados por eventuais reformas legais, incluindo outros militantes curdos presos.

Para organizações de direitos humanos, a discussão representa um teste sobre o compromisso da Turquia com os padrões jurídicos europeus. Já para o governo turco, qualquer flexibilização envolvendo Öcalan continua sendo um tema altamente sensível.

O resultado das discussões no Conselho da Europa poderá indicar os próximos passos da pressão internacional sobre Ancara. Ainda que uma eventual libertação de Öcalan não esteja automaticamente vinculada ao prazo que vence neste mês, a adoção das reformas exigidas pela Corte Europeia é vista como um passo indispensável para que essa possibilidade exista no futuro.

A trajetória do líder curdo

Abdullah Öcalan é uma das figuras mais influentes do Oriente Médio nas últimas décadas. Para muitos curdos, ele é um símbolo da luta por reconhecimento político e cultural. Para o governo turco e diversos países ocidentais, ele é o fundador de uma organização militante considerada “terrorista”.

Nascido em 1948 na região sudeste da Turquia, área com forte presença curda, Öcalan fundou em 1978 o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), conhecido pela sigla PKK. Inicialmente, o movimento defendia a criação de um Estado curdo independente. Com o passar dos anos, passou a concentrar suas reivindicações em maior autonomia regional, direitos culturais e reconhecimento político dos curdos dentro da Turquia.

Nas décadas seguintes, o pensamento político de Öcalan passou por mudanças significativas. O líder curdo abandonou a defesa da criação de um Estado nacional curdo independente e passou a propor um modelo baseado em autonomia local, participação comunitária e pluralismo político, conceito que seus apoiadores chamam de “confederalismo democrático”.

Foi quando a questão das mulheres ganhou papel central. Öcalan passou a sustentar que uma sociedade democrática só poderia existir com ampla participação feminina na vida política e social. Suas teses inspiraram o surgimento de organizações de mulheres dentro do movimento curdo e influenciaram políticas implementadas em áreas administradas por grupos ligados ao movimento.

Nesse contexto, durante a guerra na Síria, surgiram as unidades militares femininas conhecidas como YPJ (Unidades de Proteção das Mulheres), que ganharam notoriedade internacional por sua atuação no combate ao Estado Islâmico.

Após anos vivendo na Síria e coordenando as atividades do PKK, Öcalan foi capturado em 1999 em uma operação internacional realizada no Quênia e levado para a Turquia, onde permanece preso na ilha de Imrali. Desde então, continua exercendo grande influência sobre setores do movimento curdo.

Quem são os curdos?

Os curdos são um dos maiores povos sem Estado do mundo. Estima-se que existam cerca de 30 milhões de curdos espalhados principalmente pela Turquia, Iraque, Síria e Irã. Somente na Turquia, eles representam aproximadamente um quinto da população do país.

Apesar de possuírem língua, cultura e identidade próprias, os curdos nunca conquistaram um país independente após o fim do Império Otomano e a redefinição das fronteiras do Oriente Médio no século XX.

Como começou o conflito entre a Turquia e o PKK?

O conflito armado teve início em 1984, quando o PKK lançou uma insurgência contra o Estado turco. O grupo alegava que os curdos enfrentavam repressão política, restrições culturais e falta de representação adequada em seu território.

Durante décadas, os confrontos envolveram guerrilheiros do PKK, forças de segurança turcas e, em alguns momentos, populações civis. O conflito se espalhou por áreas do sudeste da Turquia e também por regiões montanhosas do norte do Iraque, onde o PKK estabeleceu bases.

Segundo estimativas amplamente citadas por organismos internacionais e veículos de imprensa, mais de 40 mil pessoas morreram desde o início da insurgência.

Por que o conflito é tão complexo?

A questão curda envolve diferentes dimensões:

— Direitos linguísticos e culturais;

— Participação política dos curdos;

— Demandas por autonomia regional;

— Segurança nacional da Turquia;

— Impactos das guerras na Síria e no Iraque.

Enquanto muitos curdos defendem maior reconhecimento e descentralização política, o Estado turco argumenta que precisa combater grupos armados que supostamente ameaçam a integridade territorial do país.

Além disso, o fato de o PKK ser classificado como organização terrorista pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia dificulta negociações e amplia as divergências sobre o tema.

As tentativas de paz

Ao longo dos anos ocorreram diversas tentativas de diálogo. Entre 2013 e 2015 houve um processo de paz relativamente avançado entre o governo turco e representantes ligados a Öcalan, mas as negociações acabaram fracassando.

Mais recentemente, surgiram novos esforços para encerrar definitivamente o conflito. Em 2025, Öcalan fez um apelo para que o PKK abandonasse a luta armada e se dissolvesse, numa iniciativa considerada histórica.

O grupo então anunciou o encerramento da luta armada, mantendo um braço armado apenas para autodefesa, e iniciou um processo de desarmamento, abrindo espaço para uma nova fase de negociações e recolocando o futuro de Abdullah Öcalan no centro das discussões políticas da Turquia e da Europa.

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