Estudante trans relata ataques após aprovação em Medicina na Uerj

Eduarda Odara passou a ser alvo de ofensas e críticas públicas depois de divulgar a aprovação pelo sistema de cotas raciais

A estudante Eduarda Odara passou a sofrer uma onda de ataques nas redes sociais, desde que postou sua recente aprovação no curso de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Mulher trans e negra, ela foi aprovada por meio do sistema de cotas raciais e relatou episódios de transfobia e racismo após tornar a conquista pública.

Nas redes, Eduarda celebrou o resultado com uma postagem em que afirmou ter sido aprovada no curso de Medicina da Uerj. “Vai ter trans preta não binária filha de camelô nesse curso, sim”, diz a legenda. Na postagem, ela aparece em fotos com o nome do curso e da instituição pintado nos braços.

Junto à comemoração, a jovem também divulgou a tabela de pontuação do vestibular, onde indicou a modalidade de ingresso e a posição entre os demais candidatos.

Depois da postagem, Eduarda virou alvo de críticas e ataques, que se intensificaram após a divulgação de um vídeo do fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à Presidência da República pelo partido Missão, Renan Santos.

No conteúdo, ele critica o sistema de cotas raciais, de gênero e sociais, cita nominalmente Eduarda Odara e questiona o critério de ingresso da estudante na universidade.

“Essa pessoa poderá se tornar médica tendo ficado na 1243 posição no vestibular. A questão é que o vestibular deveria aprovar apenas 104 pessoas. Os 104 melhores. Entretanto, como existem agora cotas pra negro e cotas pra trans, pessoas como Odara, mesmo tendo notas muito inferiores, sendo bem menos inteligentes, bem menos esforçados, acabam conseguindo a vaga da pessoa que se esforçou mais deveria ter”, diz Renan em um trecho do vídeo.

A Uerj adota o sistema de cotas desde 2003, com reserva de vagas para estudantes negros, oriundos da rede pública e em situação de vulnerabilidade socioeconômica, conforme legislação estadual.

Diante dos ataques, a jovem pediu ajuda aos seguidores nas redes sociais para que denunciassem a publicação de Renan Santos.

“Gente, eu preciso urgente da ajuda de vocês. Eu fiz um post no Twitter (X) comemorando minha vitória, ele alcançou proporções nacionais, e isso gerou vários debates negativos. Agora há um candidato à presidência usando minha imagem e dados para incitar ódio contra mim e ao sistema de cotas, como propaganda política. Denunciem o post por favor, não comentem para não engajar!”, escreveu a caloura.

Questionada por situação financeira

Além das críticas ao sistema de cotas, Eduarda também passou a ser alvo de publicações que questionavam sua situação financeira.

Em uma delas, usuários afirmaram que a estudante teria estudado na Escola Parque, instituição privada localizada na Zona Sul do Rio, com mensalidades superiores a R$ 4 mil, sugerindo que isso a tornaria inelegível para ações afirmativas.

Faculdade de Ciências Médicas da Uerj manifestou apoio

Após os ataques, o Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming da Uerj publicou uma nota manifestando apoio à caloura.

“Recentemente, o curso de Medicina da Uerj teve a grande honra de receber a brilhante estudante Duda Odara, que foi legitimamente aprovada no vestibular e legitimamente aprovada em todas as etapas do processo de análise social e racial exigido pela universidade para ingresso pelo sistema de cotas, sistema este do qual temos orgulho histórico de sermos pioneiros”, diz um trecho.

A faculdade também classificou as tentativas de deslegitimação da aprovação como inaceitáveis. “Apesar disso, nossa colega vem sendo alvo de ataques covardes, transfóbicos e racistas nas redes sociais, em uma tentativa patética de deslegitimar, invalidar e desacreditar sua aprovação, junto de todos os outros 103 aprovados. Isso é inaceitável”.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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