O maior leilão de linhas de transmissão de energia já realizado no Brasil foi vencido nesta sexta-feira (15) pelos chineses da State Grid. O certame aconteceu na B3, em São Paulo.
Eles arremataram sozinhos o lote 1, o maior dos três blocos licitados, com investimentos estimados em R$ 18,1 bilhões, 83% do total de R$ 21,7 bilhões previstos para todos os lotes. A concessão tem prazo de 30 anos.
Analistas apontavam a Eletrobras como forte concorrente pelo alto volume de investimentos necessários, mas a companhia nem chegou a entrar na disputa por esse lote. Privatizada, a companhia fez propostas apenas para os lotes 2 e 3, mas acabou sendo superada pelos concorrentes e não arrematou nenhum deles.
O leilão foi considerado um sucesso por especialistas, embora tenha tido baixa concorrência pelo elevado volume de investimentos requeridos. O certame terminou com um deságio médio de 40,85% sobre a máxima Receita Anual Permitida (RAP) de R$ 3,8 bilhões.
A RAP é o valor anual a ser recebido pelas empresas pela prestação dos serviços, e esse montante é pago pelos consumidores, uma vez que está embutido na conta de luz.
Com o desconto oferecido pelos chineses (39,90%), serão pagos por ano, somando os três lotes, R$ 2,28 bilhões às empresas, o que representa redução de cerca de R$ 1,5 bilhão em relação ao valor máximo. Ao longo dos 30 anos, a economia para o consumidor final será da ordem de R$ 37,9 bilhões.
O RAP do lote 1, o maior de todos era, de R$ 3,2 bilhões e a State Grid fez um lance de R$ 1,9 bilhão. Vencia a disputa quem oferecesse o maior desconto sobre a RAP máxima estabelecida pelo edital.
O presidente da Aneel, Sandoval Feitosa, afirmou que o deságio vai permitir uma expressiva economia para o consumidor na conta de luz. Ele disse que com mais esse leilão, além do realizado em junho passado e o que vai acontecer em março de 2024, o país reconfigura seu sistema de transmissão de energia, com mais de 17 mil km de novas linhas.
— São 10% de todo o sistema de transmissão. Em menos de um ano contratamos mais do que levamos cem anos para construir — afirmou ele, reafirmando que a região Nordeste é a nova fronteira de energia renovável do país.
Também fizeram propostas pelo lote 1 a Cymi, Construções e Participações Consórcio Olympus, formado por Aluar e Mercury Investiments.
Ramon Haddad, vice-presidente da State Grid Brazil, lembrou que este também foi o maior leilão do qual a empresa já participou. Ele afirmou que a proposta oferecida pelo lote 1, com elevado deságio, foi muito estudada e permite que a empresa consiga implementar o novo sistema de transmissão no país.
O vice-presidente da estatal chinesa observou que os recursos a serem investidos são de responsabilidade da State Grid no Brasil, e que já estão sendo estudados vários formatos de financiamento. Mas ele admitiu que qualquer movimento dos controladores chineses para ajudar na captação de recursos são bem-vindos.
— Não somos aventureiros. Esse foi o deságio possível para conseguirmos a implementação dessa tecnologia — afirmou.
Ele disse que a proposta da empresa no Brasil é de longo prazo e, mesmo com o elevado investimento previsto no lote 1, a companhia mantém interesse no novo leilão de transmissão que será realizado em março de 2024.
A State Grid foi ao leilão na B3 com uma comitiva de mais de 70 pessoas e comemorou com muito barulho a vitória do maior lote do leilão. Na disputa pelos outros dois lotes, chamou a atenção o fato de a Eletrobras não ter levado nenhum deles.
O lote 2 foi vencido pelo Consórcio Olympus, composto por Alupar e Mercury Investiments. O consórcio ofereceu R$ 239,5 milhões, deságio de 47% sobre RAP máxima de R$ 451,9 milhões. O lote também recebeu propostas da Eletronorte (subsidiária da Eletrobras) e Mercury Investiments e FIP Warehouse
O lote 3 foi o único a ir para a disputa viva-voz entre a espanhola Celeo Redes Brasil e a Eletrobras. Saiu vencedora a Celeo com lance de R$ 101 milhões, deságio de 42,39% em relação à RAP de R$ 175,6 milhões.
O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, presente ao evento, afirmou que o sucesso do leilão mostra que o Brasil voltou a dialogar com o mundo e que ele acredita na política de busca de soluções para a sociedade entre o setor privado e público. Ele disse que só este ano foram contratados quase R$ 40 bilhões em investimentos em linhas de transmissão no país.
— Os investimentos têm impacto positivo nos cinco estados onde as linhas serão instaladas e com isso estamos construindo os degraus para garantir energia limpa e renovável para todo o país, especialmente a produzida no Nordeste — disse o ministro.
Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os lotes licitados preveem a construção de nove empreendimentos em cinco estados – Goiás, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins. Os prazos de construção variam entre 60 e 72 meses, e a expectativa é de geração de 36,9 mil empregos.
Ao todo, foram licitados 4.471 km em linhas de transmissão para construção, manutenção e operação, sendo 3.007 km de novos linhões e seccionamentos e de 9.840 megawatts (MW) em capacidade de conversão nas subestações.
O lote 1, vencido pelo chineses, prevê a construção de 1.513 km de novas linhas de transmissão em corrente contínua e manutenção de outros 1.468 km, atravessando três estados (Maranhão, Tocantins e Goiás). O prazo de conclusão para este lote será de 72 meses, o mais longo já concedido pela Aneel, devido ao porte e à complexidade da obra.
O lote 1 também prevê o uso da tecnologia bipolo, que é nova no Brasil e tem ultra-alta tensão de 800 kV, permitindo o transporte de energia com redução de perdas. No mundo, há apenas quatro fabricantes que oferecem a tecnologia de conversores de corrente contínua em alta tensão, conhecido como “HVDC”.
No Brasil, essa novidade só é utilizada em Belo Monte e operada pela chinesa State Grid num linhão que conecta a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, ao Rio de Janeiro. Antes disso, o Brasil utilizava a tensão de 600kV nos sistemas de transmissão em corrente contínua.
O lote 2 soma 1.102 km de linhas em Goiás, Minas Gerais e São Paulo e demanda investimentos de R$ 2,5 bilhões. O lote 3 tem 388 km de linhas em São Paulo e requer investimentos de R$ 1 bilhão.
As assinaturas com as empresas vencedoras devem ocorrer em março de 2024.
Com informações de O Globo.





