Essa joia nordestina e fluminense, já protagonizou encenações de autonomia econômica dignas de nação independente nos bastidores do Segundo Reinado. Delimitaram-se terras com o verniz de país, organizaram produção industrial independente e até canalizaram suas vilas com mais eficiência do que a burocracia imperial. Ironia fina? Talvez.

Mas esse “Brasil dentro do Brasil”, como Quissamã era retratada pelos seus oligarcas agrários, tinha presença tão forte que quase dava para emitir seu próprio “operário” — uma espécie de moeda local.

Tudo começou com as sesmarias distribuídas em 1627 aos Sete Capitães, heróis improvisados para conter invasores e consolidar os limites coloniais entre o rio Macaé e o cabo de São Tomé. Daí nasceu uma centelha de autonomia: currais, operações de gado seminômade, e depois canais artificiais que conectavam lagoas ao mar. Era apenas o começo de uma “ilha” produtiva com regras que lhe eram muito próprias.

Séculos depois, a coroa imperial autorizou — com pompa e subsídio — o funcionamento do primeiro Engenho Central da América do Sul em Quissamã, inaugurado em 12 de setembro de 1877 ao som de locomotivas importadas e aplausos reforçados pelo quase-monopólio local do açúcar.

Era um contexto de poder econômico tão absoluto que, nos armazéns da Cia. Engenho Central, a ficha local “O Operário” passou a valer como dinheiro vivo — quase uma versão século XIX da Mumbuca de Maricá — que circulava entre os entes da economia regional como se fosse a própria moeda quissamaense.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro | Crédito: Reprodução

História

O mito de Quissamã como “Brasil dentro do Brasil” nasce justamente da sua fundação peculiar. Em vez de uma simples sesmaria perdida, o território virou laboratório de autonomia agrária desde 1627, quando um grupo de militares que ficou conhecido como os “Sete Capitães” pediu ao governador do Rio de Janeiro, Martim Correia de Sá, que lhes cedesse as terras da antiga capitania de São Tomé, no Norte Fluminense, em troca de vigiar a costa, estabelecer fazendas e por último, mas não menos importante, dar um fim dos Goitacazes que habitavam a região.

Canais como o Furado, abertos ainda no século XVII, foram feitos de engenharia que davam ao distrito um ar de autossuficiência raríssimo na colônia. No século XIX Quissamã virou sinônimo de aristocracia açucareira e poder paralelo ao Império: recebia ministros, bispos e até Pedro II em seus solares, como se fosse corte dentro da corte.

O que eram os ‘Códigos de Quissamã’?

Os chamados “códigos” de Quissamã nunca foram impressos em papel, mas funcionavam quer uma beleza na prática. Trabalhadores eram regidos por normas internas dos engenhos, as relações comerciais obedeciam a tabelas de preços decididas localmente e até o crédito era regulado pelos fazendeiros.

Tratava-se de um regime de “economia fechada” avant la lettre: produzia-se açúcar, cachaça e carne; consumia-se dentro; e, quando sobrava, negociava-se com o Rio de Janeiro.

Existiu uma moeda chamada ‘O Operário’?

Criada como ficha da Companhia Engenho Central, a cédula conhecida como “O Operário” era usada para pagar trabalhadores nos armazéns locais. Não era uma moeda oficial do Império, claro, mas funcionava como tal dentro dos limites do engenho.

O detalhe controverso é que a conversão para réis só podia ser feita em Araruama, o que, na prática, prendia o trabalhador ao sistema produtivo local. Era uma economia circular de dar inveja a qualquer banco central moderno.

O que tem para fazer por lá?

Do passado aristocrático restam símbolos preservados como o Museu Casa Quissamã, antigo solar da família Carneiro da Silva, que guarda móveis, retratos e memórias da era imperial.

O município também oferece atrativos naturais: o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, com lagoas e trilhas, e a tradicional produção de cachaça artesanal, herança do ciclo açucareiro. Há ainda festas religiosas e circuitos de turismo histórico que resgatam a glória e a pompa de quando Quissamã parecia se levar a sério como nação.

Museu Casa Quissamã guarda memorabilia do período imperial | Crédito: Reprodução

Onde fica e como chegar?

Quissamã está no Norte Fluminense, a cerca de 220 km da Guanabara. De carro, a viagem leva em média 3h30 pela BR-101. De ônibus, as passagens variam entre R$ 110 e R$ 150 conforme o horário e o tipo de assento. Uma viagem que custa menos que muitas entradas em bares da Zona Sul e leva o visitante direto a uma ex-nação açucareira que, um dia, sonhou em se bastar.

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