Esse município na região Norte do Rio de Janeiro é, com o perdão do clichê, um microcosmo do Brasil. Tem nome que parece indígena, “Quissamã”, mas que na verdade é angolano. Foi fundada por militares portugueses mais bravos que os povos originários que habitavam a região e, acabou ficando com o nome pelo qual, supostamente, era conhecido um ex-escravizado forro que vivia entre os goitacazes e, tal qual um barão do Rio Branco colonial, ajudou a pôr ordem numa região conflagrada.

Hoje ela vive dividida entre o orgulho da cultura afro‑brasileira presente no Machadinha, no jongo, na feijoada, e a dependência econômica dos royalties de petróleo. Um dinheiro que entra em verbas barulhentas, mas que às vezes demora a chegar até as promessas de pavimentação, saúde ou escolas.

Quissamã não é apenas uma alusão romântica, é uma cidade viva que tenta equilibrar sua herança pesada, bela, violenta e resiliente com as demandas concretas de modernidade. Visitá‑la é se deparar com casarões do século XIX silenciados, igrejas restauradas, festas que ainda mantêm velas acesas nas janelas, e cidadãos que sabem que suas raízes são mais complexas do que os guias turísticos mostram, mas que insistem em reconstruir, reivindicar e celebrar.

Centro de Quissamã | Crédito: Dhonatan Pessanha / Prefeitura de Quissamã

História

Fundada em 1539 e abandonada em 1548, a Capitania de São Tomé, também chamada Capitania do Paraíba do Sul, onde hoje fica Quissamã foi uma das mais efêmeras, trágicas e hilariantes tentativas de colonização do litoral brasileiro.

Mas vamos por partes.

O significado do nome da cidade já é controverso. Alguns estudiosos sustentam ter origem indígena, e sua etimologia é frequentemente associada a “lugar de muitas águas”, refletindo a abundância de rios e riachos da região.

Mas a outra hipótese é muito mais interessante. Tem origem angolana e está ligada a lendas envolvendo os “Sete Capitães” e um ex-escravizado alforriado (como veremos adiante) e bom de lábia.

Além de ser uma palavra de origem angolana, Quissamã é um Parque Natural que fica a 80km da capital Luanda, na foz do Rio Kwanza. Quissamã permaneceu sob a jurisdição de Macaé por séculos, como distrito, até que em 1989, pela lei estadual nº 1419, se emancipou, instalando‑se formalmente como município em 1º de janeiro de 1990, e ainda beliscando uma parte do território de Carapebus.

A guerra

Quase 50 anos após o abandono da Capitania de São Tomé, Gil de Gois, neto do primeiro donatário, brotou de novo na região. Ele retomou o projeto e fundou a Vila de Santa Catarina de Mós (onde ninguém mais sabe onde fica).

E até se revelou um bom gestor. Pacificou as relações com os indígenas e até adotou uma menina da etnia goitacás, que batizou de Catarina. Tudo caminhava bem, até baixar o Woody Allen no Gil de Góis.

Quando Catarina fez 13 anos, a esposa de Gil, Dona Francisca, descobriu que o marido tinha um caso amoroso com a menina. Aproveitando-se de uma viagem dele, Dona Francisca açoitou a garota violentamente.

Catarina fugiu para sua antiga tribo, que não gostou nada da história. Estourou uma guerra, que depois de cinco anos terminou em empate. Até os Goitacazes deixaram a região e voltaram para antigos territórios.

Mas e os tais “Sete Capitães”?

Em 1627 o primeiro governador do Rio de Janeiro, Martim de Sá, doou sesmarias às margens do Rio Macaé e até o Cabo de São Tomé (incluindo o território onde está Quissamã) a um grupo que passou a história como os “Sete Capitães”, como recompensa por serviços prestados.

Os “Sete Capitães” (Miguel Aires Maldonado, Gonçalo Correa, Duarte Correa, Manoel Correa, Antônio Pinto, João de Castilho e Miguel Riscado) eram militares que haviam se destacado contra os Goitacazes e, eventualmente, piratas que se assanhavam a ir além da costa.

Imediatamente a turma botou pra quebrar. Eles realizaram expedições de exploração, instalaram fazendas de gado, plantações de algodão, café, açúcar e batizaram boa parte das cidades e distritos da região.

E para equalizar os conflitos entre fazendeiros aventureiros, Goitacazes invocados e escravizados, nem sempre (embora muitas vezes), os “Sete Capitães” resolviam tudo na bala.

E aí finalmente entra a lenda do Quissamã.

Um angolano entre os indígenas

Consta que em uma incursão a uma aldeia goitacás, os “Sete Capitães” teriam encontrado vivendo ali numa boa, comendo peixe e dormindo em rede, um preto alforriado nascido em Angola que viria a se tornar peça-chave nas articulações entre indígenas, portugueses e escravizados.

Esse homem jamais foi identificado nominalmente em documentos oficiais. O que se sabe é que esse personagem é central para a construção simbólica da identidade quilombola de Quissamã; portanto sua identidade permanece no campo do folclore histórico, mas sua história é muito usada para explicar a origem da cidade.

Vale a pena conhecer o Centro Histórico de Quissamã?

O centro histórico de Quissamã preserva vários solares e casarões do século XIX, muitos pertencentes à família Carneiro da Silva, donos das fazendas em cuja sedes se passava a vida cotidiana dos barões.

O Museu Casa Quissamã, antigo Solar da Fazenda Quissamã, construído em 1826, é um dos marcos principais desse conjunto histórico.

Já a Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro, reconstruída em 1924 acrescentou mais um irônico tempero a essa salada que envolve ibéricos, africanos e povos originários. Ela ganhou um estilo eclético europeu, com influências de templos alemães no início do século XX.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro tem arquitetura em estilo europeu | Crédito: Reprodução

O que é o Complexo Machadinha?

O Complexo Histórico-Cultural Fazenda Machadinha é uma antiga fazenda de engenho de açúcar do século XIX que pertenceu à família Carneiro da Silva com casa grande, senzalas, armazéns, capela de Nossa Senhora do Patrocínio e outros anexos preservados.

Em 1979 ele foi reconhecido como um dos maiores quilombos e tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). Atualmente, a Fazenda Machadinha abriga cerca de 80 famílias. De acordo com dados do IBGE, elas correspondem a 4,43% da população do município.

Após décadas de abandono, a partir da desapropriação pelo município em 2003, o complexo passou por amplas reformas, e foi oficializado como centro cultural em 2009.

Hoje ele abriga um memorial que documenta as origens africanas, salas de artes, exposições, e mantém manifestações culturais como feijoada comunitária, o jongo da machadinha e o boi malhadinho.

Antiga fazenda pertenceu à família Carneiro da Silva com casa grande, senzalas, armazéns e até capela para Nossa Senhora | Crédito: Reprodução

O que tem para fazer no Parque Natural Municipal de Quissamã?

O município abriga parte de um dos maiores ecossistemas de restinga do Brasil, com lagoas costeiras, canais naturais, vegetação de restinga preservada, fauna típica e aves migratórias.

Além disso, há a Lagoa Feia, uma lagoa de água doce, considerada a segunda maior do Brasil. Trilhas ecológicas, observação de fauna, passeios de barco ou canoa em lagoas completam o pacote.

Quais os principais eventos da cidade?

A Festa de São Sebastião em Quissamã, celebrada tradicionalmente em janeiro, é uma das manifestações religiosas mais antigas e simbólicas da cidade reunindo o sagrado e o profano em procissões, shows e barraquinhas de todo tipo de comida.

Mas se o papo é gastronomia, imperdível é a Feijoada da Machadinha, uma celebração tradicional realizada anualmente todo 13 de maio na comunidade quilombola.

O ponto alto da festa está nas expressões culturais que a acompanham: roda de jongo, fado, samba, batuques e danças típicas da Machadinha, muitas delas de origem banto, preservadas por gerações.

A feijoada, portanto, é símbolo da partilha e da ancestralidade. Um ritual que mistura comida, dança, memória e política, servindo, literalmente, a história de um Brasil que se nega a esquecer de onde veio.

Quiosque do Quilombo Machadinha | Crédito: Reprodução

O que mais tem para fazer por lá?

É possível fazer turismo rural visitando fazendas antigas, participar de atividades culturais como jongo, fado, oficinas de artesanato, ou percorrer trilhas na Restinga de Jurubatiba.

Há experiências mais tranquilas para quem quer fugir da praia, como observar o pôr do sol sobre a Lagoa Feia, andar pelas alamedas de palmeiras imperiais em solares antigos oi visitar o Centro Cultural Sobradinho.

Melhor época para ir

A melhor época segue sendo nos meses de outubro a março, quando chove menos, calor mais estável, dias mais longos, clima mais propício para praias, lagoas, passeios ao ar livre.

Fora do verão pode ser menos cheio, mas algumas atrações culturais e festas locais acontecem em datas fixas que não variam com tanto rigor o clima.

Como chegar

Partindo da Guanabara até Quissamã são cerca de 240 km de estrada, o que costuma levar umas três horas e meia de carro. De ônibus, há saída diárias da Rodoviaria Novo Rio com tarifas a partir de R$ 100.

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