Há cidades que guardam sua memória em monumentos. O Rio de Janeiro, às vezes, a esconde em corredores apertados, entre pilhas tortas de livros, dedicatórias esquecidas e folhas amareladas pelo tempo. Em sebos espalhados por bairros como Botafogo, Glória e Centro de Niterói, leitores seguem entrando sem pressa, como quem procura alguma coisa que nem sabia existir.
Nos últimos anos, o livro físico passou a disputar espaço com livros digitais e audiolivros. O comércio de rua luta diariamente para sobreviver, já que as compras online também dispararam. Dados da pesquisa ‘Consumo Multicanal 2025’, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, mostram que 71% dos consumidores compram pela internet pelo menos uma vez por mês. Para uma parcela significativa, o hábito é ainda mais intenso: 15% compram semanalmente e 3% realizam compras praticamente todos os dias.
No meio disso tudo, os sebos continuam ali. Resistindo. Não apenas como lojas, mas como espaços de encontro.

A socióloga Thalita Medina vê nessa sobrevivência um retrato das mudanças do consumo contemporâneo.
“O fechamento de grandes livrarias em contraste com a resiliência dos sebos reflete uma crise no modelo de varejo de massa e uma mudança no consumo cultural. Sociologicamente, isso indica que, enquanto o mercado de livros novos sofre com a digitalização e altos custos, os sebos sobrevivem por operarem em uma lógica de economia circular e por oferecerem um acervo que foge da ditadura dos bestsellers”, afirma.
Ela diz ainda que esses espaços carregam uma dimensão simbólica cada vez mais forte em uma sociedade marcada pela velocidade. “Eles representam a persistência do objeto físico como suporte de memória em um mundo cada vez mais efêmero”.
Em comum, os sebos compartilham uma característica difícil de medir em números: a sensação de pertencimento. O cliente entra para procurar um livro e, frequentemente, acaba encontrando conversa, histórias, recomendações inesperadas e um certo silêncio confortável que as plataformas digitais não conseguem reproduzir.
Agenda do Poder visitou três locais com histórias e rotinas distintas: a Baratos da Ribeiro, em Botafogo, o Beta de Aquarius, na Glória, e a Livraria Sebo Republicana, em Niterói; e ouviu de proprietários, funcionários e clientes uma percepção em comum: em tempos de leitura acelerada pelas telas, ainda existe algo de insubstituível no contato físico com os livros.
Livros de ocasião
Fundado em 2001, o Sebo Baratos da Ribeiro nasceu em um momento de transformação do ramo no mercado carioca. O livreiro Maurício Andrade Gouveia lembra que fazia parte de uma geração diferente da tradição familiar que dominava o setor até então.
“Parte de uma onda de renovação no mercado livreiro cujos responsáveis foram figuras talentosas como Daniel Chomski (Berinjela), Rodrigo Ferrari (Folha Seca), Anna Dantes (Dantes) e Marcelo Lachter, dentre outros. Em comum: tinham todos 30 anos, eram apaixonados por livros, eram graduados em humanidades e não tinham laços familiares com esse ramo”, relembra.

Maurício conta que o grupo chegou a ensaiar, ainda no início dos anos 2000, uma experiência pioneira de venda online de livros usados, antes mesmo da popularização da Estante Virtual, site famoso por oferecer esse tipo de serviço. Mas a Baratos seguiu outro caminho.
“O que mudou, nesses 25 anos, foi que o Sebo Baratos abandonou completamente, e muito cedo, o e-commerce e diversificou seu campo de atuação, dando especial ênfase aos LPs e quadrinhos e às atividades culturais, como saraus, pocket shows e lançamentos de livros”, explica.
A mudança para Botafogo, em 2015, alterou também o perfil dos leitores. Segundo Maurício, o bairro aproximou o sebo de uma nova geração que cresceu acompanhando canais literários na internet e romances de fantasia juvenil.
“A vinda para Botafogo, em 2015, coincide com o fortalecimento da literatura ‘Jovem-Adulta’, a popularização dos romances de Fantasia e o surgimento dos Book Tubers e Tik Tokers dedicados à leitura, o que atrai um público muito mais jovem”, enumera.
Nos corredores da Baratos, a lógica da descoberta continua sendo mais importante do que a da busca objetiva. Maurício costuma repetir que quem entra em um sebo com uma lista rígida corre o risco de sair frustrado. O verdadeiro garimpo exige disponibilidade para o acaso.
“A expressão francesa para ‘livros usados’ é mais elegante e precisa: ‘livros de ocasião’. Então, o bom garimpador chega na Baratos com a curiosidade atiçada e sem pressa, pronto para se surpreender.”
Maurício Andrade, fundador e gerente do Sebo Baratos da Ribeiro
A cidade dentro dos livros
No Beta de Aquarius, na Glória, a história também começou a partir de uma relação afetiva com os livros. Ana Maria Albernaz, da administração do sebo, conta que o espaço surgiu em 1999, idealizado pelo marido Antônio, fundador do sebo.
“Ele tinha uma biblioteca muito boa e estava desempregado, então pensou: ‘Bom, eu amo livro, amo a biblioteca, então eu vou abrir uma livraria’”, relembra.
A proposta era criar uma livraria aberta para a cidade, literalmente. O horário estendido virou marca registrada do espaço, que fica na Rua do Catete.
“É um diferencial nosso até hoje, que é que a gente está aberto o tempo todo. Temos um horário de funcionamento super amplo. É de 9h às 21h, de segunda à sexta; e sábado, domingo e feriado, de 10h às 18h”, conta, com humor.
Ana Maria observa que o perfil dos frequentadores mudou bastante nas últimas décadas. Se antes os sebos eram associados a um público mais especializado e concentrado no Centro do Rio, hoje atraem leitores diversos e muito mais jovens.
“Nos últimos cinco anos, houve uma diversificação completa do público. Tem os frequentadores tradicionais de sebo, que são pessoas mais velhas, mas o que tem mais é o afluxo de pessoas jovens que estão conhecendo o trato com o livro mais recentemente”, observa.

Ela acredita que a experiência física da leitura continua sendo um diferencial impossível de reproduzir completamente no digital.
“Você vem aqui, vai poder abrir, folhear, ler um pedaço… É uma experiência que não tem concorrente.”
Ana Maria Albernaz, administradora do Beta de Aquarius
Essa relação sensorial aparece também nas análises da professora de Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Michely Jabala. Para ela, os sebos são espaços onde memória, convivência e literatura se cruzam continuamente.
“Todo espaço que contém os livros, que contém literatura, vai contribuir para a formação de memória e um espaço de encontro. Muitas vezes, os sebos permitem a gente folhear os livros mesmo que não vá comprar”, diz.
O acaso como resistência
Em Niterói, a Livraria Sebo Republicana recebe diariamente estudantes universitários, adolescentes uniformizados e leitores que chegam sem necessariamente saber o que procuram. A proprietária Marcella Diniz percebeu uma mudança clara no comportamento do público nos últimos anos.
“Os jovens, tanto de faculdade quanto de colégio, frequentam bastante o sebo. Eles vão lá com o uniforme do colégio, olham, conversam entre si sobre livros”, conta.
Os títulos mais procurados acompanham tendências contemporâneas, misturando clássicos com sucessos recentes de mercado. Mas é justamente a imprevisibilidade que transforma o passeio em experiência. Marcella resume isso como “a magia do sebo”.
“Já aconteceu da pessoa entrar procurando uma coisa e sair levando outra completamente diferente, porque os livros ficam espalhados pelo sebo. O legal é procurar, olhar com calma”, orienta.
O funcionário Sildemar Silva acompanha esse movimento diariamente. Segundo ele, muitos leitores chegam em busca de livros acadêmicos e acabam levando romances e obras literárias contemporâneas.
“Eles procuram principalmente os livros que estão sendo muito comentados, que viraram filmes. Um exemplo disso é a obra A empregada, de Freida McFadden, que recentemente estreou no cinema e fez sucesso”, avalia o vendedor, que já trabalha no espaço há cinco anos. “Buscam também muito o Kafka”, acrescenta.

O estudante Gabriel Ferreira, de 19 anos, costuma passar mais tempo andando entre as prateleiras do que efetivamente procurando um título específico.
“No começo eu vinha aqui só atrás de livro da faculdade, mas depois percebi que o mais legal do sebo é justamente encontrar coisas que você não estava procurando. Outro dia eu achei um livro do Caio Fernando Abreu perdido numa prateleira e fiquei lendo umas páginas ali mesmo. Parece que o livro encontra a gente antes da gente encontrá-lo”, conta.
Entre dedicatórias e algoritmos
Há uma espécie de arqueologia afetiva nos sebos. Um marcador de página esquecido, uma fotografia dentro de um romance, um bilhete antigo, uma assinatura numa folha de rosto. Pequenos vestígios de vidas desconhecidas continuam circulando junto com os livros.
“Outro dia, eu encontrei aqueles santinhos que eram calendários pequenininhos. Pensei: ‘Gente, de quem foi esse livro?’”, relembra a professora Michely Jabala.

Na Baratos da Ribeiro, Maurício guarda uma folha de dedicatórias encontrada dentro de um livro comprado anos atrás. Colegas de escritório haviam escrito mensagens engraçadas para um aniversariante. O papel acabou colado no vestiário da equipe.
Há também histórias que parecem ficção. Maurício conta que uma cliente reencontrou no sebo um livro que havia emprestado duas décadas antes para um amigo que nunca devolveu.
“Ela encontrou um romance beatnik que havia emprestado para um amigo 20 anos antes. Perderam contato. E ela recomprou o livro”, compartilha.
Para Thalita Medina, essa lógica da descoberta espontânea se opõe diretamente ao funcionamento das plataformas digitais.
“Enquanto o algoritmo confina o leitor em uma ‘bolha’ de gostos pré-estabelecidos, o sebo permite a serendipidade. Essa imprevisibilidade é uma forma de resistência cultural.”
Thalita Medina, socióloga
Lugares que insistem em existir
Mais do que comércio, os sebos seguem funcionando como pontos de convivência urbana. Lugares onde desconhecidos conversam sobre autores, política, música, cinema e cidade.
“O hábito de frequentar sebos possui uma densa dimensão social, funcionando como o que a sociologia chama de ‘terceiros lugares’”, explica Thalita Medina.
Maurício Andrade Gouveia acredita que toda livraria bem estabelecida acaba inevitavelmente se transformando em centro cultural.
“Livrarias reúnem pessoas, que trocam ideias, travam amizades e fazem planos. Naturalmente esses encontros geram saraus, shows, happenings, piquetes, manifestos, artigos, exposições”, enumera.
Para Michely Jabala, existe também uma dimensão democrática importante nesses espaços. Ela afirma que o sebo costuma ser menos intimidador do que bibliotecas ou grandes livrarias.
“O sebo costuma ser mais despojado, um espaço mais acolhedor.”
A professora avalia que, em um país marcado pela desigualdade de acesso à leitura e pela ausência de bibliotecas públicas em muitos bairros, os sebos acabam funcionando como portas possíveis de entrada para o livro.
Saiba onde encontrar os sebos
- Baratos da Ribeiro
Endereço: Rua Dezenove de Fevereiro, 90 – Botafogo
Horário: de segunda a sexta das 10h às 19h, sábados até às 17h. Fecha nos domingos e feriados.
- Beta de Aquarius
Endereço: Rua do Catete, 127 – Glória
Horário: de segunda à sexta das 9h às 21h, e sábado, domingo e feriado de 10h às 18h.
de 9h às 21h.
- Livraria Sebo Republicana
Endereço: Rua Almirante Tefé, 685 – loja 03 – Centro, Niterói
Horário: de segunda a sexta, das 10h às 17h30. Sábado de 10h às 14h


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