É comum entrar numa área de mata e ouvir o farfalhar das folhas, o canto das aves e outros sons sutis da vida silvestre. No entanto, ao longo das últimas décadas, o desmatamento, a caça e o tráfico de espécies nativas foram esvaziando esse coro. Mesmo cercado por áreas de proteção ambiental, o Rio não ficou imune, e os dados confirmam isso.

Em setembro, a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), com apoio de outras instituições, prendeu 47 pessoas na Operação São Francisco, contra o tráfico de animais silvestres. Mais de 800 bichos foram resgatados.

Meses antes, em março, uma ação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em parceria com a Polícia Federal, apreendeu 194 animais numa feira de Duque de Caxias — entre eles um pixoxó, ave ameaçada de extinção. As multas aplicadas somaram R$ 270,5 mil.

Segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), 38 milhões de animais são retirados da natureza todos os anos no Brasil. Nove, de cada dez traficados morrem antes de chegar às mãos do consumidor final. Os dados ainda mostram que US$ 2 bilhões (R$ 10,7 bi) são movimentados anualmente por esse comércio ilegal no Brasil. 

Essa é a 3ª maior atividade ilegal do mundo, atrás apenas do tráfico de armas e de drogas, de acordo com a Renctas. Apesar do cenário assustador, Organizações Não Governamentais (ONGs) do Rio tentam inverter a lógica, reintroduzindo muitas dessas espécies na Mata Atlântica.

Ações que mudam estatísticas

Quem percorre o Parque Nacional da Tijuca, na Zona Norte, nas últimas semanas tem ouvido algo diferente: um grito agudo e estridente, que rasga o ar e soa como um sinal de que a floresta respira de novo.

Depois de dois séculos desaparecidas, as araras-canindé começam a se preparar para voltar a sobrevoar o céu carioca. O projeto é um dos vários conduzidos pelo Refauna. Além desse, há ainda iniciativas semelhantes do Instituto Vida Livre — duas ONGs distintas, mas movidas pelo mesmo objetivo: restaurar o equilíbrio natural das coisas.

O Refauna e o retorno das araras ao céu carioca

Quatro aves resgatadas vivem hoje no Parque Nacional da Tijuca, onde passam por um processo de readaptação à vida livre. Lá, elas são monitoradas o tempo todo por um grupo de biólogos e voluntários do Refauna. 

“É uma espécie que está extinta há 200 anos no Rio de Janeiro e a gente tem registros históricos que comprovam que ela é nativa daqui.”

Lara Renzeti, coordenadora de reintrodução do projeto

O cuidado é visível em cada detalhe: além de não falar alto quando perto do viveiro em que as aves estão temporariamente, para não causar estresse, os especialistas ainda deram nomes de batismo aos animais: Fátima, Suely, Fernanda e Selton.

Fátima, Suely e o casal Fernanda e Selton | Foto: João Victor Chaves / Agenda do Poder

As araras vieram do Parque Três Pescadores, em São Paulo, e agora passam por exercícios de voo e alimentação natural. Quando estiverem prontas, serão soltas na floresta. A previsão é de que isso aconteça em janeiro de 2026.

“Eles vieram de resgate, passaram por uma avaliação comportamental e chegaram em junho. Tínhamos expectativa de deixá-los em aclimatação entre quatro e seis meses. Mas, como é o primeiro grupo, ainda estávamos entendendo como ia funcionar esse processo”, complementa Lara.

Para que o processo de soltura dê certo, a especialista destaca alguns pontos: “Eles precisam conseguir buscar alimento por conta própria, encontrar locais onde conseguem fazer os ninhos, arara normalmente fica em cavidades de palmeiras e não temos tantas no tamanho que ela precisa. Por isso, vamos oferecer ninhos artificiais. E também é muito importante que elas não se aproximem de seres humanos, porque as pessoas às vezes podem não saber como lidar, podem existir as más intenções. A ideia é conseguirmos indivíduos que ou tenham medo de humanos ou não tenham nenhum interesse”.

O retorno das araras também representa a retomada de processos que a floresta havia perdido.

“Ela (a arara) tem uma forma muito particular para interagir com determinadas espécies de plantas. Então, consegue acessar recursos alimentares que outras espécies aqui do parque não conseguem, e dispersar algumas sementes a longa distância”, detalha a especialista.

‘Refaunação’

Bugios estavam extintos no Rio há, pelo menos, 200 anos | Foto: Marcelo Rheingantz / Refauna

Desde 2010, o Refauna trabalha para reverter um fenômeno silencioso, mas devastador: a chamada síndrome das florestas vazias. São áreas de Mata Atlântica que, vistas de longe, parecem saudáveis, mas que perderam seus animais ao longo do tempo por causa da caça, do desmatamento e do tráfico de fauna.

“A gente tende a achar que isso é o normal, mas não. Quando não tem os animais, chamamos de floresta defaunada. Nove em cada 10 plantas da Mata Atlântica dependem dos animais para dispersar suas sementes. Então, se não tem os animais, essas florestas não vão se regenerar e, com o tempo, estão condenadas a deixar de existir. O Refauna surge para reverter esse quadro”, explica o biólogo e diretor executivo do projeto, Marcelo Rheingantz.

A reversão começou há 15 anos, com um projeto que uniu ciência e monitoramento.

“A gente começa em 2010 com a reintrodução das cutias, aqui no Parque da Tijuca. Depois, em 2015, iniciamos a reintrodução dos bugios, um macaco que estava extinto aqui há pelo menos 200 anos. Em 2020, começamos a reintrodução do jabuti-tinga, que também estava extinto há pelo menos dois séculos. E, agora, estamos no processo de reintrodução da arara-canindé”, enumera.

Outros locais de atuação

Além do Parque Nacional da Tijuca, o Refauna atua em outras áreas estratégicas do estado, todas dentro do Mosaico Central Fluminense:

  • Reserva Ecológica de Guapiaçu (Cachoeiras de Macacu)
  • Parque Estadual dos Três Picos (Nova Friburgo / Teresópolis / Cachoeiras de Macacu): onde o grupo trabalha na reintrodução das antas, extintas no estado há mais de 100 anos
Antas sendo reintroduzidas à natureza | Reprodução / Refauna

E, no caso das araras-canindés, o projeto tem um plano ambicioso. “A nossa ideia é liberar, nos próximos cinco anos, pelo menos 50 araras aqui. Para que a gente comece a ter uma população, uma reprodução, e elas consigam se manter, como aconteceu com as cutias”, reforça Rheingantz.

O Refauna lançou uma campanha de arrecadação para viabilizar as etapas finais do projeto das araras-canindés. A iniciativa busca ajuda no financiamento para o monitoramento, a alimentação, os equipamentos e o período de aclimatação das aves no Parque Nacional da Tijuca. As doações podem ser feitas nesse link.

Instituto Vida Livre: o resgate que dá uma segunda chance

Outro trabalho que soma forças a reintrodução de animais na floresta é o Instituto Vida Livre. O projeto surgiu como uma inquietação do biólogo Roched Seba, ainda nos corredores da Coppe-UFRJ, onde ele pesquisava formas de unir ciência, gestão e conservação.

“Eu sempre gostei de animais. Durante a minha faculdade de comunicação, fui ser voluntário em um zoológico e ali entendi que esse era o universo que queria trabalhar. Fui fazer mestrado em engenharia de produção na Coppe e foi então que criei o Instituto Vida Livre, que hoje é uma plataforma de serviços e projetos de pesquisa científica e serviços de manejo para conservação da nossa biodiversidade”, diz Seba.

Roched Seba, fundador do instituto | Reprodução / Instituto Vida Livre

O projeto começou a ganhar forma em 2015, quando o cantor Ney Matogrosso, apaixonado pela natureza e primeiro apoiador do instituto, abriu sua propriedade em Saquarema para a criação da primeira Área de Soltura de Animais Silvestres (ASAS). 

“O Ney é proprietário de uma reserva particular do patrimônio natural e sempre sonhou que esse local também pudesse ajudar animais e serem livres. Foi então que propusemos a nossa primeira área de soltura autorizada pelo Ibama na propriedade dele”, relembra.

Ali, no meio da Serra do Mato Grosso, viveiros foram instalados para que cada animal pudesse completar sua reabilitação antes de voltar para o habitat natural. O local se tornou o ponto de partida de uma rede que cresceria muito além.

De lá para cá, o Instituto ampliou sua atuação e se tornou um dos principais parceiros do Ibama-RJ e das forças de fiscalização ambiental na destinação de animais apreendidos do tráfico e resgatados em áreas urbanas. Hoje, mantém 11 áreas de soltura, sendo 10 no Rio de Janeiro e uma em São Paulo, que juntas somam cerca de 8 mil hectares de habitat protegido.

Rotina de cuidados e apoio de artistas

Nessas áreas, a rotina é de cuidado individualizado: exames, reabilitação comportamental, manejo ambiental, monitoramento pós-soltura. 

“Para cada caso, o protocolo de reabilitação para soltura é definido de forma individualizada. Em 10 anos de trabalho já são quase 15 mil animais atendidos.”

Roched Seba, fundador do Instituto Vida Livre

Ao longo da trajetória, mais de 15 mil bichos já passaram por lá: tamanduás, jaguatiricas, pumas, gambás, jiboias, papagaios, tucanos, corujas, tatus, preguiças, jabutis. Muitos chegaram feridos, eletrocutados, atropelados ou vítimas do tráfico. Saíram livres.

Buba, preguiça-de-três-dedos que foi eletrocutada | Reprodução / Instituto Vida Livre

O Vida Livre leva ainda oficinas para crianças internadas no Instituto do Coração (HCFMUSP) e participa de iniciativas culturais como a ArtRio, aproximando o público urbano da causa da fauna. Entre os apoiadores, nomes como Glória Pires, Maria Bethânia, Marisa Monte, Xuxa, Vera Holtz e o próprio Ney Matogrosso. 

Leis endurecidas

A ideia de liberdade também se ampliou para a esfera política. Em 2023, o Instituto iniciou um trabalho de advocacy para fortalecer as leis ambientais brasileiras. A primeira vitória veio com o PL 347/03, aprovado nesta quarta-feira (5).

Esse projeto altera a Lei de Crimes Ambientais e endurece a pena por matar ou apanhar animais silvestres, nativos ou em rota migratória sem permissão. Antes, a detenção era de 6 meses a 1 ano. Agora, pode passar a ser de 2 a 5 anos. O texto segue para análise do Senado. Saiba mais detalhes nesse link.

Operação São Francisco

A operação mais recente contra o tráfico de animais contou com o apoio do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro (Gaema/MPRJ), do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Operação de combate ao tráfico de animais silvestres | Divulgação / Carlos Magno

As investigações da DPMA revelaram que a organização criminosa, que também traficava armas e munições, era dividida nos seguintes grupos: 

  • Caçadores: eram responsáveis pela captura dos animais em grande escala;
  • Atravessadores: faziam o transporte das espécies até os centros urbanos;
  • Falsificadores: produziam documentos e selos públicos adulterados para “esquentar” a origem dos animais;
  • Núcleo de armas: fornecia armas e munição para garantir a segurança das atividades ilegais;
  • Consumidores finais: incluíam diversos compradores que mantinham o mercado clandestino ativo.

Dois dos pontos de vendas eram feiras clandestinas na Pavuna, Zona Norte, e em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Havia ainda um núcleo especializado em primatas, que caçava, dopava e vendia macacos para outros integrantes do grupo. Muitos deles eram retirados das matas fluminenses, como o Parque Nacional da Tijuca e o Horto.

Os animais resgatados foram encaminhados ao Cetas (Centros de Triagem de Animais Silvestres), onde recebem cuidados e avaliação antes de voltarem à natureza.

Saiba como denunciar

No Brasil, os crimes de caça, maus-tratos e venda de primatas são considerados infrações ambientais e contra a fauna silvestre.

A Polícia Civil disponibiliza um canal de denúncias anônimas por meio do Programa Linha Verde, pelo número 0300 253 1177. A população pode usar essa linha para comunicar crimes ambientais.

A Polícia Federal também disponibiliza um canal de denúncias neste link.

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