É pelo barulho dos galhos balançando e pelo ruído um tanto já conhecido que seu José*, de 70 anos, sabe que os ilustres visitantes estão chegando. Em menos de 1 minuto, as árvores que rodeiam sua casa, no Rio, ficam recheadas de micos saguis-de-tufo-branco, que esperam receber pedaços de bananas. Alguns dos animais se aproximam quando ele ainda está cortando a fruta. Outros, com filhotes nas costas, aguardam de longe.
Tem sido assim há mais de uma década, quando eles começaram a aparecer repentinamente pelo quintal. “Chegou aqui e comecei a dar comida para eles, foram se acostumando. Hoje, confiam em mim, não ficam ariscos quando eu me aproximo. Sei que não é o certo alimentar, mas eles estavam com muita fome quando chegaram, pareciam até perdidos”, conta.
Em janeiro, a rotina mudou. Um dos filhotes do grupo, que costumava se aproximar mais que os outros, desapareceu. No dia anterior, dois homens foram vistos derrubando os animais de uma árvore, às margens da rua, e colocando um deles em um pano, levantando a suspeita do tráfico de animais silvestres.
“Eles usavam um pedaço de madeira para bater nos galhos das árvores. Quando o filhote, que não sabe se defender, cai no chão, eles pegam em um pano e correm. Eu até tentei brigar com eles, mas não sabemos quem são essas pessoas”, relembra o aposentado.
O caso não é isolado. Micos vivendo em bairros com áreas de mata estão virando alvos de traficantes que aproveitam o crescimento desses animais para abastecer o mercado clandestino. O destino dos filhotes? Feiras livres, grupos de redes sociais, ou revenda para criadores ilegais em outras cidades, como explicam as autoridades.
Animais à venda
Dados obtidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) revelam que o número da espécie saguis (Callithrix), resgatados ou apreendidos no estado do Rio, quase triplicou de 2023 para 2024.
Em 2023, foram 42 indivíduos, sendo 35 resgatados, 3 apreendidos e 4 entregues voluntariamente. Já em 2024, esse número saltou para 129 — 117 resgatados, 8 apreendidos e 4 entregues. Em 2025, até 29 de maio, foram 9 apreensões.
A capital fluminense lidera com folga os registros: apenas em 2024, 77 animais tiveram origem no município do Rio, número que já chegou a 26 em menos de cinco meses de 2025. Também se destacam São Gonçalo e cidades da Baixada Fluminense, como Duque de Caxias e Nova Iguaçu.
Como funciona a rede clandestina
O delegado André Prates, titular na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), conta que as feiras clandestinas acontecem, em sua maioria, na Baixada Fluminense e na Zona Norte. No entanto, esse grupo criminoso vem adotando novos métodos para tentar dificultar o trabalho dos agentes. Há diversos inquéritos em andamento na especializada envolvendo a caça dos primatas.
“Hoje em dia, esses traficantes de animais, com medo de serem pegos pela polícia, estão negociando em grupos de troca de mensagem. Esses grupos se transformaram em feiras virtuais. A pessoa faz o Pix e ele manda o macaquinho por motorista de aplicativo. O cara nem sabe o que está transportando porque o bicho vai dopado, em uma mala ou uma bolsa”, explica.
O preço em que os micos são vendidos varia entre R$ 3 mil a R$ 6 mil. Segundo Prates, o alvo do grupo são os filhotes, que costumam ser pegos em armadilhas planejadas.
“Eles entram na mata, colocam tranquilizantes em frutas, atraindo o mico e, quando esses primatas se alimentam, eles ficam dopados, facilitando a captura. Eles não caçam colocando gaiolas. A população tem o hábito de alimentar os bichos, então eles se aproximam de áreas onde sabem que têm alimentação fornecida por humanos. E essas pessoas má intencionadas vão exatamente nesses pontos”, detalha.
Na quadrilha, cada criminoso tem um cargo: os caçadores, os que transportam os animais, os cuidadores e os vendedores. Funciona como uma rede organizada.
“É comum que eles falsifiquem documentos de origem e coloquem chips no animal, dando a falsa aparência de que o bicho veio de um criador regularizado. Muita gente compra para agradar a criança, como se fosse um mero animal domesticado”, diz, acrescentando que não existem documentos que permitam a venda dos primatas.
A quadrilha também está na mira da Polícia Federal. Segundo os agentes, há várias rotas interestaduais e internacionais de tráfico dos primatas, inclusive entre outros países que não o Brasil. “As investigações e produção de novas provas estão em andamento”, informou.
Quando a cidade vira selva
Os micos não são nativos de todas as regiões em que aparecem. Alguns, como os saguis-de-tufo-branco, se expandiram pela cidade após solturas irregulares.
“As espécies de saguis que vivem em ambientes urbanos no Rio de Janeiro foram introduzidas nesses ambientes. As duas espécies, saguis-de-tufos-brancos e mico-estrela, não são nativos da região e foram trazidos e introduzidos pelo tráfico de animais. São espécies que têm uma grande plasticidade ecológica e com a ajuda do ser humano, essas espécies e suas formas híbridas foram se habituando a viver em áreas urbanas”, explica o professor Leonardo de Carvalho, do Departamento de Ciências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Segundo o especialista, a convivência constante com humanos traz riscos para os dois lados. “Todo animal silvestre é potencial transmissor de zoonoses. Assim, o contato com esses animais é sempre arriscado. Mas o risco também é para o animal. Nós, humanos, carregamos o vírus da herpes, que pode ser fatal para os saguis”, explica.
Segundo o professor, a retirada de filhotes afeta não só o grupo, mas a dinâmica ecológica.
“No Jardim Botânico, por exemplo, o hábito de escarificar árvores em busca de goma, característica da espécie, já causou a morte de árvores da coleção do JB. Saguis são conhecidos por predar ovos de aves, e até mesmo filhotes em ninhos, embora um estudo sistemático para isso seja raro. Por fim, a transmissão do vírus da raiva, por uma mordida acidental, por exemplo, pode gerar o óbito de uma pessoa”, enumera.
Saiba como denunciar
No Brasil, os crimes de caça, maus-tratos e venda de primatas são considerados infrações ambientais e contra a fauna silvestre. As penas, somadas, podem passar de três anos de detenção, além de multas.
Quem compra esses animais ilegalmente pode ser enquadrado por receptação simples, crime que prevê reclusão de 1 a 4 anos, além de multa, por adquirir produto de origem criminosa.
A Polícia Civil disponibiliza um canal de denúncias anônimas por meio do Programa Linha Verde, pelo número 0300 253 1177. A população pode usar essa linha para comunicar crimes ambientais.
A Polícia Federal também disponibiliza um canal de denúncias neste link.
(*) Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.

