Empresa que Trump sancionou por suspeitas de elo com o PCC seria ligada a fintechs da Faria Lima

Empresas atingidas pelo Tesouro norte-americano mantêm relações societárias com companhias do setor financeiro em São Paulo, enquanto Ministério Público afirma não haver, até o momento, evidências que comprovem ligação com a facção

As sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos contra empresas e brasileiros suspeitos de participação em um esquema internacional de movimentação financeira ilícita chamaram a atenção para uma rede de fintechs com conexões societárias na região da Faria Lima, principal centro financeiro do país, informa o portal Metrópoles.

A medida foi anunciada pelo Departamento do Tesouro dos EUA na quarta-feira (1º/7) e representa a primeira aplicação de sanções desde que a administração do presidente Donald Trump passou a classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras.

As punições atingem dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma companhia registrada em Portugal. Entre os efeitos da decisão estão o bloqueio de bens e ativos sob jurisdição dos Estados Unidos, a proibição de cidadãos e empresas estadunidenses manterem relações comerciais com os sancionados e a possibilidade de aplicação de sanções secundárias a instituições financeiras estrangeiras que realizem operações consideradas relevantes com essas pessoas ou empresas.

Apesar da decisão das autoridades dos EUA, o promotor do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gakiya, afirmou à rádio CBN que, até o momento, não existem elementos que comprovem vínculo entre os sancionados e o PCC.

Empresas e brasileiros sancionados

Foram incluídas na lista do Tesouro dos Estados Unidos as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, de Portugal.

Também foram sancionados os brasileiros Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira.

Segundo as autoridades estadunidenses, Victor Shimada teria utilizado empresas sob seu controle para intermediar operações financeiras entre integrantes de organizações criminosas no Brasil e nos Estados Unidos. Entre as acusações apresentadas está a suposta movimentação de aproximadamente US$ 30 milhões por meio de criptoativos.

Conexões societárias levam à Faria Lima

A Pixwave possui como sócia a WTBO Consultoria em Gestão Empresarial, representada pelo empresário Paulo Morais Silva. Embora a WTBO não tenha sido alvo direto das sanções, a empresa integra uma rede de participações em fintechs e outras companhias do setor financeiro.

Até dezembro do ano passado, a WTBO mantinha sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Depois, transferiu seu endereço para o bairro da Água Branca, na zona oeste da capital paulista. No mesmo período, seu capital social foi ampliado de aproximadamente R$ 100 mil para R$ 9 milhões.

A empresa também era credenciada como correspondente bancária do Ouribank. Após a divulgação das sanções, a instituição informou que decidiu descredenciar a WTBO em razão de sua relação societária com uma das empresas atingidas pelas medidas dos EUA. O banco ressaltou, entretanto, que a companhia já estava inativa e sem exercer atividades como correspondente bancário desde 2024.

Outro ponto que chamou atenção foi a coincidência de endereços entre empresas do mesmo grupo empresarial.

A Banklabs Partners, da qual Paulo Morais Silva também participa, possui registro na Avenida Juscelino Kubitschek, utilizando exatamente o mesmo endereço cadastrado pela Victory Trading: número 1545, sala 47.

Anteriormente, a Banklabs funcionava na Avenida das Nações Unidas, no mesmo endereço atualmente registrado pela Pixwave.

Além dessas empresas, Paulo Morais Silva também participa de outras companhias do segmento financeiro com atuação em São Paulo, Jundiaí e Vila Velha, no Espírito Santo.

A reportagem procurou a WTBO, a Banklabs e o empresário por e-mail, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.

Acusações das autoridades estadunidenses

Documentos da Justiça dos Estados Unidos apontam que Victor Shimada seria conhecido pelo apelido de “Japa”, enquanto Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira utilizaria os codinomes “Prima” e “Lara Croft”, referência à personagem da franquia Tomb Raider.

Segundo a investigação, ambos teriam participado da movimentação e lavagem de recursos provenientes de atividades ilícitas, inclusive relacionados a fornecedores de drogas, entre eles Manuel Garcia-Urrea, conhecido como “Manny” ou simplesmente “M”.

As autoridades estadunidenses afirmam ainda que o grupo teria atuado em parceria com operadores localizados nos Estados Unidos, como Ygor Fokin Saviolli, identificado pelos apelidos “YG” e “Boa Sorte”. Conforme os documentos, o objetivo seria inserir dinheiro de origem ilícita no sistema bancário dos EUA para ocultar sua procedência e posteriormente devolver os recursos aos fornecedores das drogas e outros destinatários.

As investigações também citam operações envolvendo aproximadamente US$ 30 milhões, que teriam sido movimentados por diversas cidades dos Estados Unidos, incluindo Miami, Chicago, Atlanta, Los Angeles, Houston, Seattle, Denver, Cleveland, Rochester, Minneapolis, Kansas City e Pensacola.

Defesa nega envolvimento

Em nota encaminhada ao Metrópoles, a defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada informou que ainda não teve acesso aos documentos que embasaram as sanções aplicadas pelos Estados Unidos.

A manifestação afirma:

“A defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada tomou conhecimento, nesta data, das notícias acerca das sanções anunciadas por autoridades norte-americanas.

Até o presente momento, não tivemos acesso aos documentos oficiais e aos elementos que fundamentaram a medida, o que impede qualquer manifestação específica sobre seu conteúdo.

Não obstante, Victor Shimada nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro.

A situação será analisada com a cautela e a profundidade que o caso exige, após o efetivo acesso aos documentos que embasaram a medida e em conjunto com os profissionais que atuarão perante as autoridades competentes.

Por ora, qualquer conclusão seria precipitada. A defesa reafirma sua absoluta confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos pelos meios legais adequados”.

Nova classificação amplia alcance das sanções

As punições ocorrem menos de um mês após o governo dos Estados Unidos oficializar a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras.

A medida, assinada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, amplia significativamente os instrumentos jurídicos disponíveis às autoridades dos EUA para investigar e combater as atividades dessas organizações fora do território brasileiro.

Além do congelamento de ativos e da possibilidade de ampliar o cerco financeiro internacional, a nova classificação permite responsabilizar pessoas físicas e jurídicas que prestem apoio material às facções, além de impor restrições migratórias severas.

Com isso, estrangeiros comprovadamente vinculados ao PCC ou ao Comando Vermelho podem ter vistos cancelados, ser considerados inadmissíveis para ingresso nos Estados Unidos e, caso estejam no país, ficar sujeitos a procedimentos de deportação previstos na legislação estadunidense.

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