Pelo menos 215 trabalhadores foram resgatados de situações análogas à escravidão em todo o país entre 15 de setembro e 15 de outubro, segundo dados preliminares divulgados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Os números fazem parte do levantamento inicial da Operação Resgate V, uma das maiores forças-tarefa de combate ao trabalho escravo no Brasil. As informações são do portal g1.
Ao todo, foram realizadas 47 ações em 19 estados e no Distrito Federal. Minas Gerais concentrou o maior número de operações (nove), seguido por São Paulo (seis) e Pará (quatro). As fiscalizações resultaram no pagamento de mais de R$ 1,4 milhão em indenizações por danos morais individuais e coletivos.
A operação é fruto de uma ação conjunta do MPT, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública da União (DPU) e Polícia Federal (PF).
Auditores boicotam sistema oficial do governo
Apesar dos números expressivos, os dados ainda são parciais e não refletem a totalidade dos casos. Isso ocorre porque os auditores-fiscais do Trabalho, vinculados ao MTE, se recusam desde setembro a registrar as informações no sistema oficial do governo federal.
O movimento é uma forma de protesto contra a decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, de assumir diretamente a investigação sobre um caso de trabalho escravo envolvendo a empresa JBS Aves. A categoria afirma que a medida compromete a autonomia e a integridade da fiscalização.
Em nota enviada ao g1, o Ministério do Trabalho informou que “por meio da Secretaria de Inspeção do Trabalho participou da Operação V, porém os dados finais ainda estão em fase de compilação”.
Trabalhadores viviam em condições degradantes
Durante as inspeções, as equipes encontraram situações que expõem a gravidade da exploração laboral no país. Foram identificadas moradias em barracos de lona e madeira, jornadas exaustivas, ausência de saneamento, e casos em que as vítimas pagavam ao próprio empregador pelo transporte até o local de trabalho.
O coordenador nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete), Luciano Aragão, destacou o caráter desumano das condições encontradas.
“Encontramos situações de extrema vulnerabilidade social, com trabalhadores vivendo em condições degradantes, sem acesso aos direitos mais básicos”, afirmou. Ele ressaltou que a integração entre os órgãos públicos foi “essencial para garantir o resgate das vítimas, responsabilizar os empregadores e prevenir novas violações”, disse.
Casos em diferentes regiões do país
No Maranhão, dez trabalhadores foram libertados em três propriedades rurais. Em Monção, um vaqueiro atuava havia 15 anos sem registro ou salário fixo, vivendo com a família em uma casa de taipa, sem banheiro nem água potável, e exposto a cobras venenosas. Situação semelhante foi registrada em Pinheiro, onde um homem de 57 anos trabalhou por mais de uma década recebendo apenas bezerros como pagamento.
Em São Paulo, 16 trabalhadores bolivianos foram resgatados de uma oficina de costura na capital. Eles enfrentavam longas jornadas, condições insalubres e endividamento imposto pelo empregador. Uma das vítimas, uma mulher, foi obrigada a retornar ao trabalho apenas uma semana após o parto.
No interior paulista, três homens foram libertados de uma carvoaria em Capão Bonito, onde viviam em alojamentos precários, sem equipamentos de segurança ou acesso à cidade. Em Itapeva, um jovem de 18 anos trabalhava em uma fazenda de hortaliças e bebia água de um córrego usado por animais.
Em Nova Maringá, Mato Grosso, 17 pessoas, incluindo um adolescente, foram encontradas em uma fazenda de extração de madeira. Viviam em barracos de lona, sem alimentação adequada nem pagamento. A empresa responsável pela contratação pertence à modelo Taiany França Zimpel, eleita Miss Mato Grosso 2024, que afirmou, em nota, que sua empresa apenas prestava serviços terceirizados à fazenda.






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