O pré-candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, colocou a segurança pública no centro de seu discurso durante entrevista ao programa Jogo do Poder, da Rede CNT, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno. Ao longo da conversa, que vai ao ar neste domingo (12), às 23h20, ele defendeu o endurecimento do combate às facções criminosas, a retomada de territórios dominados pelo tráfico e o isolamento de líderes do crime organizado dentro dos presídios.
Caiado afirmou que pretende enviar ao Congresso, no primeiro dia de um eventual governo, uma proposta para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo ele, a medida abriria caminho para uma participação mais ampla das Forças Armadas no enfrentamento às facções e na recuperação de áreas sob controle do narcotráfico.
Ao abordar a situação do Rio de Janeiro, o pré-candidato elogiou a atuação das forças policiais em uma operação nos complexos da Penha e do Alemão, mas criticou a falta de continuidade na ocupação das comunidades. Ele também responsabilizou o governo federal pela entrada de armas e drogas no estado e acusou o presidente Lula de não tratar a segurança pública como prioridade.
Na disputa eleitoral, Caiado direcionou ataques a Flávio Bolsonaro, adversário no campo da direita, a quem chamou de “peru de Natal”. O pré-candidato afirmou que o PT teria interesse em manter Flávio competitivo no primeiro turno para derrotá-lo posteriormente. Ele ainda destacou sua experiência administrativa, sua passagem pelo Congresso e sua trajetória política como fatores que o diferenciariam do senador.
A entrevista também abordou a divisão interna do PSD, a relação com o grupo político de Eduardo Paes, a ligação pessoal de Caiado com o Rio de Janeiro, o crescimento das apostas esportivas e a situação fiscal do país.
Ricardo Bruno – O senhor encerrou seu governo em Goiás com aprovação superior a 80%. Um dos fatores associados a esse resultado foi o enfrentamento à violência e ao crime organizado. Como o senhor conseguiu reduzir os índices de criminalidade e que mensagem deixa para o morador do Rio de Janeiro, que muitas vezes já não tem esperança de dias melhores nessa área?
Ronaldo Caiado – Vou começar pelo fim da pergunta, falando diretamente com quem está nos assistindo. O mandamento número um do governo Caiado é: bandido não se cria. Ou muda de profissão, ou muda de estado e, agora, terá que mudar do Brasil. Essa é a regra que implantei. Não é apenas o que pretendo fazer; é o que fiz. A diferença é que não sou candidato para apresentar somente um plano de segurança pública. Quero mostrar aquilo que coloquei em prática. Muitas pessoas dizem que Goiás seria um estado menor e, por isso, mais fácil de administrar. Goiás tem 350 mil quilômetros quadrados e 246 municípios. Além disso, temos Brasília em nosso entorno, com uma das maiores rendas per capita do país. Naturalmente, essa região passou a ser um mercado muito disputado pelo narcotráfico.
Havia atuação do Comando Vermelho, do PCC e de outras facções. Cidades turísticas e municípios que enriqueceram com o desenvolvimento do agronegócio também foram invadidos pelo crime organizado. Existiam grupos especializados em roubo de combustíveis, mercadorias, cargas e veículos. Goiás registrava mais de 11 mil carros roubados por ano. Transportar combustível ou produtos de alto valor exigia batedores e segurança reforçada. Quando assumi, tive coragem de implantar um sistema diferente. Em Goiás, integrante de facção preso fica isolado. Ele não pode continuar comandando crimes de dentro do presídio.
Ricardo Bruno – O que significa dizer que o integrante de uma facção fica isolado?
Ronaldo Caiado – Significa que ele vai cumprir sua pena, mas não poderá mandar mensagens para fora da prisão ordenando assassinatos ou outros crimes. Muitas vezes, o criminoso preso se torna ainda mais poderoso porque está protegido pelo Estado e continua tendo contato com o mundo externo. Nós implantamos monitoramento, gravação das conversas, scanner corporal e controle ambiental dos presídios. Você não encontra telefone celular nem arma dentro das unidades prisionais de Goiás. Quando essa pessoa fica totalmente isolada, ela deixa de representar o mesmo perigo. Imagine a situação de um policial penal que é ameaçado por um faccionado, que diz que vai atingir seu filho ou sua família. Isso cria uma pressão psicológica enorme. Com o isolamento dos líderes, a integração das forças de segurança, o uso da inteligência, o controle penitenciário e a criação de batalhões especializados, conseguimos quebrar a estrutura das organizações. Depois que assumi, Goiás não teve assalto a banco no modelo do novo cangaço, grandes arrastões, invasões de terra ou ataques a carros-fortes. O crime caiu de maneira vertical.
Ricardo Bruno – O senhor afirma que Goiás se tornou um dos estados mais seguros do Brasil. Em que se baseia essa avaliação?
Ronaldo Caiado – Existe uma lei de mercado que ninguém revoga. Basta observar onde estão os seguros mais baratos para veículos, caminhões, cargas e propriedades. Hoje, em Goiás, muitas pessoas fazem seguro pensando mais em acidentes do que em roubos. Isso demonstra a mudança que ocorreu no estado. O cidadão voltou a ter liberdade para trabalhar, circular e abrir seu comércio sem viver dominado pelo medo.
Ricardo Bruno – Nos últimos governos, incluindo as gestões de Jair Bolsonaro e de Lula, muito se falou que a segurança pública é uma atribuição dos estados. Na prática, o governo federal acaba se afastando do problema. Caso seja eleito, qual será sua atuação junto aos estados no enfrentamento ao crime organizado?
Ronaldo Caiado – Você colocou o dedo na ferida. A lei é a mesma para todos os governadores. A diferença é que alguns têm coragem de enfrentar o problema e outros não. Há governadores bem-intencionados que pensam que ficarão no cargo por, no máximo, oito anos e depois terão que conviver com as consequências desse enfrentamento. Alguns acabam se acovardando diante das ameaças. Existem também aqueles que são cúmplices e foram eleitos com apoio do narcotráfico. O crime organizado está invadindo a política em todos os níveis, desde as câmaras de vereadores até estruturas nacionais. O Brasil caminha para um processo de mexicanização, não de venezuelização. As regras democráticas continuam existindo, mas grupos criminosos passam a disputar eleições com toda a estrutura de poder que construíram. Eles entram na política, no Judiciário, no Legislativo e na economia formal. Aos poucos, vão ampliando sua influência e tomando espaços de decisão.
Ricardo Bruno – Como esse processo aparece no Rio de Janeiro?
Ronaldo Caiado – No Rio de Janeiro, milhares de pessoas vivem sequestradas e escravizadas pelo narcotráfico. Existem barricadas, imposição de regras, julgamentos ilegais, condenações e assassinatos. O criminoso escolhe com quem uma jovem poderá se relacionar, estabelece punições e controla a vida das pessoas. Isso é terrorismo. O presidente Lula tratou criminosos como vítimas dos usuários de drogas e minimizou casos de roubo. Para mim, isso demonstra uma postura de tolerância excessiva com o crime. Impõe esse terrorismo todo e o Lula vira e fala: “Não, eles são vítimas dos viciados”. Isso é mais do que complacência, é conivência com o crime. Eles vivem entrelaçados, eles fazem parte deste financiamento, eles se beneficiam dessa situação. Então você vê que o Lula, você colocou bem, por que que o Lula nunca teve a coragem de fazer um enfrentamento ao narcotráfico, nunca teve. Por que que ele nunca teve uma ação? Pelo contrário, sabe o que ele queria? Ele queria tirar poderes dos estados.
Ricardo Bruno – O senhor acusa o governo federal de não enfrentar o narcotráfico?
Ronaldo Caiado – O governo federal nunca demonstrou coragem para assumir esse enfrentamento. A criação de um Ministério da Segurança Pública, por exemplo, poderia ser uma peça importante, mas não avançou. A Constituição determina que tráfico internacional de drogas, contrabando de armas e lavagem de dinheiro são crimes de competência federal. Mesmo assim, os estados acabam assumindo quase toda a responsabilidade. Além disso, recursos do Fundo Penitenciário e do Fundo Nacional de Segurança Pública muitas vezes são bloqueados ou contingenciados. Em sete anos, investi R$ 17 bilhões em segurança pública em Goiás. Nesse período, o governo federal enviou aproximadamente R$ 940 milhões. Isso demonstra que o assunto não é tratado como prioridade.
Ricardo Bruno – O presidente do Supremo Tribunal Federal mencionou que cerca de 100 magistrados estão ameaçados e vivem sob escolta. Isso também faz parte desse processo de avanço do crime organizado?
Ronaldo Caiado – Sem dúvida. Ainda existem magistrados que têm coragem de enfrentar essas organizações. Mas, ao mesmo tempo, há movimentos para questionar ou reduzir a segurança concedida a autoridades ameaçadas. Ninguém deseja viver cercado por seguranças. Todos querem morar em um país onde possam circular livremente. Porém, quando o narcotráfico ameaça juízes, promotores e outras autoridades, a proteção se torna necessária. Hoje, é difícil encontrar magistrados dispostos a assumir varas criminais porque eles pensam nos filhos e na família. Esse medo é uma das características do processo de mexicanização.
Ricardo Bruno – O senhor pretende classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Essa medida teria efeito prático ou seria apenas um slogan de campanha?
Ronaldo Caiado – Teria efeito prático. No meu primeiro dia de governo, vou encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta com essa finalidade e vou tratar sua aprovação como prioridade. O Rio de Janeiro, a Bahia, o Ceará, o Rio Grande do Norte e outros estados enfrentam uma expansão muito grande das facções. Existe também uma situação grave na Amazônia brasileira, onde atuam organizações brasileiras, venezuelanas, colombianas e mexicanas. A Amazônia tornou-se uma grande rota para a cocaína produzida em países vizinhos. O PCC e o Comando Vermelho têm capilaridade para transportar essa droga e exportá-la para a Europa e para os Estados Unidos. Países europeus já demonstram preocupação com esse processo. O domínio dessas organizações coloca em risco a credibilidade das exportações brasileiras.
Ricardo Bruno – A classificação como organizações terroristas permitiria o uso das Forças Armadas?
Ronaldo Caiado – Esse é um dos objetivos. Não é possível enfrentar organizações com atuação internacional apenas com as polícias militares de estados da Amazônia ou do Pará. As Forças Armadas não entram apenas para realizar uma prisão. Elas entram para reconquistar um território dominado. É necessário construir bases nas regiões de fronteira, realizar ataques imediatos contra as estruturas criminosas e devolver essas áreas ao controle do Brasil. Também pretendo procurar os países que fazem fronteira com o Brasil para criar uma cooperação semelhante à existente na Europa. A ideia é permitir uma atuação policial integrada, com maior liberdade de trânsito e operações conjuntas. Precisamos dar aos estados os equipamentos necessários, incluindo blindados, helicópteros sofisticados, inteligência artificial e recursos tecnológicos.
Ricardo Bruno – Autoridades do Rio já relataram que pedidos de blindados ao Exército foram negados por questões constitucionais. A classificação das facções como terroristas resolveria esse problema?
Ronaldo Caiado – Muitas vezes, usam argumentos jurídicos para evitar uma ação efetiva. Com a classificação como organizações terroristas, o Estado teria instrumentos mais claros para atacar a estrutura financeira e operacional desses grupos. Seria possível bloquear recursos, rastrear movimentações e dar prioridade ao enfrentamento. As facções precisam ser enquadradas pelo que realmente são.
Ricardo Bruno – Uma grande operação realizada nos complexos da Penha e do Alemão teve ampla repercussão nacional. O presidente Lula classificou a ação como uma carnificina, enquanto pesquisas indicaram apoio expressivo dos moradores das comunidades. Qual é sua avaliação?
Ronaldo Caiado – Foi uma das operações mais inteligentes e articuladas que vi. As forças de segurança conseguiram realizar a ação sem envolver o cidadão comum no confronto. Os integrantes das facções escolheram um campo de batalha diferente, conheciam o terreno e foram para o enfrentamento. A Polícia Civil, a Polícia Militar e as equipes de inteligência demonstraram grande capacidade operacional. O problema foi a falta de continuidade. Não se pode combater o crime organizado e depois permitir que ele reagrupe toda a estrutura. Depois da entrada das forças de segurança, deveria ter ocorrido a reocupação permanente do território. A maioria da população apoiou a ação porque as famílias vivem submetidas às ordens do narcotráfico.
Ricardo Bruno – O que significa reocupar esses territórios?
Ronaldo Caiado – Significa romper o domínio das facções e instalar a estrutura do Estado. As pessoas que vivem nessas áreas não têm liberdade para entrar ou sair com seus veículos, trabalhar ou tomar decisões sobre suas próprias vidas. A comunidade fica sitiada. O Estado brasileiro não cuida dessas pessoas, que acabam escravizadas pelo crime organizado. Não basta realizar uma operação bem-sucedida. É necessário permanecer, derrubar barricadas, garantir acesso às autoridades e instalar serviços públicos. Nenhum país democrático pode aceitar homens circulando nas ruas com fuzis e armas de calibre pesado.
Ricardo Bruno – O Rio de Janeiro não produz cocaína nem fabrica fuzis. Como essas armas e drogas chegam ao estado?
Ronaldo Caiado – Essa é exatamente a pergunta que precisa ser feita ao governo federal. Algumas comunidades possuem centenas de fuzis nas mãos de traficantes. Se o Rio não produz essas armas, elas entram pelas fronteiras, pelo litoral ou por outras rotas nacionais. O presidente da República deveria construir parcerias com os países vizinhos, atacar os pontos de entrada e fortalecer o controle da costa brasileira. Ao não fazer isso, o governo federal deixa a população do Rio entregue ao narcotráfico. Trata a violência como se fosse uma característica inevitável da cidade. O presidente não pode transferir para as facções a responsabilidade de governar uma região. É necessário assumir o comando do processo.
Ricardo Bruno – O senhor chegou a apresentar suas críticas diretamente ao presidente Lula?
Ronaldo Caiado – Sim. Durante uma reunião no Palácio do Planalto, o governo apresentou um plano de segurança pública. Pedi que a reunião fosse aberta e mostrei que a falta de ação federal transformava áreas do Rio em abrigo para lideranças do Comando Vermelho. Somente de Goiás, havia dezenas de integrantes de facções comandando crimes a partir de áreas dominadas no Rio. Sem enfrentamento e sem liderança do governo federal, nada acontece. Essa é uma briga que estou disposto a comprar porque é uma causa reconhecida pela população.
Ricardo Bruno – O senhor terminou sua gestão em Goiás com 88% de aprovação. A segurança pública explica parte desse índice?
Ronaldo Caiado – Sem dúvida. Até quem não votou em mim reconheceu a mudança na qualidade de vida. O trabalhador pode sair de casa de madrugada, pegar o ônibus com o celular na mão, carregar sua bolsa e trabalhar com tranquilidade. O comerciante consegue abrir a padaria ou montar sua feira sem medo. Em Goiás, bandido não se cria. Essa foi a regra imposta durante meu governo.
Ricardo Bruno – O Rio de Janeiro é historicamente um reduto do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro, seu adversário no campo da direita, tem aqui sua principal base eleitoral. O que o senhor diria ao eleitor de direita ou de centro-direita que pensa em votar nele, mas está incomodado com as últimas polêmicas?
Ronaldo Caiado – Em primeiro lugar, devo muito ao Rio de Janeiro e à cidade do Rio. Sinto-me um pouco carioca. Estudei medicina no Rio, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e trabalhei em hospitais como o Miguel Couto e o Hospital do Fundão. Fiz minha especialização aqui. Tenho a responsabilidade de, chegando à Presidência da República, retribuir tudo que o povo do Rio proporcionou na minha formação. Sobre a eleição, o Brasil não pode ficar limitado aos candidatos com maiores índices de rejeição. Não podemos transformar a disputa em uma escolha entre os menos rejeitados.
Ricardo Bruno – O senhor acredita que Lula prefere enfrentar Flávio Bolsonaro no segundo turno?
Ronaldo Caiado – Lula está cuidando de Flávio Bolsonaro como se fosse um peru de Natal. Mantém vivo no primeiro turno para servi-lo no segundo. O PT recuou em alguns ataques porque tem interesse em enfrentar Flávio. A avaliação é que ele seria um adversário mais fácil de derrotar. As pessoas sabem dos problemas e das dificuldades que atingiram sua candidatura. Em um segundo turno, como ele enfrentaria Lula, que controla toda a máquina do governo? Não podemos menosprezar essa estrutura. Lula derrotou Jair Bolsonaro quando Bolsonaro estava na Presidência. Flávio não tem o mesmo prestígio político do pai.
Ricardo Bruno – Jair Bolsonaro também enfrentou desgaste durante seu governo, especialmente na pandemia.
Ronaldo Caiado – Quando se está no governo, é preciso saber governar. Ninguém pode assumir a Presidência sem experiência. Quando fui candidato muito jovem, meu pai dizia que eu ainda não tinha experiência suficiente. Eu não o escutei e o resultado não foi positivo. Hoje, tenho uma história de vida, uma trajetória política e experiência como deputado, senador e governador. Em 40 anos de vida pública, não tenho envolvimento em nada que desabone minha trajetória.
Ricardo Bruno – O que diferencia Ronaldo Caiado de Flávio Bolsonaro?
Ronaldo Caiado – Primeiro, eu não sou peru de Natal de ninguém. Tenho uma história de vida e posições muito claras. Sempre defendi o direito de propriedade e a iniciativa privada. Tive coragem de enfrentar momentos em que o Brasil caminhava para uma maior estatização. Nunca fui envolvido em escândalos como Petrolão, Mensalão, rachadinha, fraudes no INSS ou Banco Master. Tenho uma trajetória respeitada na medicina e governei sabendo respeitar a decisão das urnas. Acredito na ciência, na pesquisa e nas vacinas. Governei um estado que se tornou referência em inteligência artificial. Goiás também avançou na identificação e exploração estratégica de terras raras pesadas. Estudo os assuntos, conheço minha responsabilidade e sei que preciso entregar resultados à população. No Rio de Janeiro, vou libertar as comunidades, reconquistar os territórios e devolvê-los às pessoas de bem. Sou um homem experimentado, que passou por várias etapas da vida. Tenho estatura moral para ocupar a Presidência da República.
Ricardo Bruno – O PSD está dividido. Eduardo Paes apoia Lula no Rio de Janeiro, Otto Alencar está alinhado ao governo na Bahia, o grupo de Minas Gerais tem ligação com Romeu Zema e há dúvidas sobre o engajamento de Ratinho Junior e Eduardo Leite. Como pretende unificar o partido?
Ronaldo Caiado – Todo candidato gostaria de ter um articulador político como Gilberto Kassab ao seu lado e como candidato a vice. Se o PSD não tivesse coragem de lançar uma candidatura própria, o primeiro turno seria praticamente igual ao segundo. Teríamos apenas os candidatos do PT e do PL com maior estrutura. Outros partidos não tiveram coragem de oferecer legenda para uma candidatura alternativa. Cada estado tem suas peculiaridades. Já tentamos impor uma verticalização das alianças nacionais até os municípios e isso não sobreviveu. O que Kassab apresentou aos governadores foi muito claro: teremos uma candidatura presidencial e, ao mesmo tempo, respeitaremos os palanques estaduais.
Ricardo Bruno – Como funcionaria essa composição no Rio de Janeiro?
Ronaldo Caiado – Minha candidatura terá material associando Ronaldo Caiado e Kassab, na chapa presidencial, a Eduardo Paes no governo estadual. Em São Paulo, teremos composição com Tarcísio de Freitas. No Rio Grande do Sul, com Gabriel Souza. Em Santa Catarina, com João Rodrigues. No Paraná, também estaremos próximos ao candidato apoiado por Ratinho Junior. Uma parcela significativa dos eleitores de Eduardo Paes não vota em Lula. Eduardo tem votos de centro que não acompanham automaticamente a esquerda. Respeitamos a escolha dele, mas o eleitor não é obrigado a seguir a mesma decisão. Cada pessoa analisará qual é o melhor candidato à Presidência.
Ricardo Bruno – Existe uma articulação com o grupo político de Eduardo Paes, mesmo que ela não seja ostensiva?
Ronaldo Caiado – Há pessoas ligadas à organização da campanha no Rio acompanhando toda a agenda. Também realizamos uma reunião em Teresópolis que foi um grande sucesso. Tivemos representantes de dezenas de municípios da Região Serrana, vereadores, lideranças políticas, líderes comunitários, representantes do setor rural, evangélicos e católicos. Foi uma mobilização espontânea que lotou uma quadra esportiva e reuniu milhares de pessoas.
Ricardo Bruno – O senhor morou e estudou no Rio de Janeiro. O que aprendeu durante esse período?
Ronaldo Caiado – Quando saí de Goiás, ainda muito jovem, fui inicialmente estudar em Belo Horizonte. Depois consegui vir para o Rio, onde tinha uma tia. Fiz meu curso preparatório para o vestibular na região da Cinelândia e fui aprovado para medicina. No início, morei em uma república na Lapa, perto da subida de Santa Teresa e da Beneficência Portuguesa. Depois, quando minha situação melhorou, fui morar próximo à Praça do Catete. Pegava ônibus todos os dias, morava em pensão e trabalhava. Comecei muito cedo a me dedicar à cirurgia. Tive a oportunidade de conviver com grandes professores e médicos, como Lúcio Galvão, Ivo Pitanguy, Clementino Fraga Filho e Josias de Freitas. Depois de conhecer diferentes áreas cirúrgicas, escolhi a ortopedia e me especializei em cirurgia da coluna vertebral.
Ricardo Bruno – Como era prestar vestibular naquela época?
Ronaldo Caiado – Era uma experiência marcante. Fazíamos prova no Maracanã, com uma prancheta na mão, sentados no cimento e sob um calor de 40 graus. Você olhava ao redor e via milhares de pessoas disputando 80 ou 100 vagas. Era um impacto enorme, muito diferente do sistema atual.
Ricardo Bruno – O senhor também criou uma relação pessoal com a cidade?
Ronaldo Caiado – Sim. Sou torcedor apaixonado pelo Flamengo e frequentava o Maracanã nos domingos e feriados. Também aproveitei as praias, que considero um dos espaços mais democráticos do mundo, onde todas as pessoas convivem. O Rio teve um papel extremamente importante na minha vida. Quando trabalhava no Hospital Miguel Couto, entrávamos tranquilamente na Rocinha para atender pessoas acidentadas e prestar assistência. Era outro momento. Havia respeito pelos estudantes e profissionais. Era possível circular pela cidade sem as dificuldades atuais. O Rio sempre foi uma referência de cultura, medicina e ciência para quem vinha do interior do Brasil.
Ricardo Bruno – As apostas esportivas e os jogos on-line dividem opiniões e são acusados de destruir famílias. Qual é sua posição sobre as bets?
Ronaldo Caiado – Como presidente da República, terei instrumentos para coibir algo que está destruindo a economia do país e endividando famílias. Existem casos de pessoas que chegam ao suicídio, agressões dentro de casa e violência contra a mulher relacionados à dependência dos jogos. A ludopatia é reconhecida como uma doença. A pessoa se torna dependente da aposta da mesma forma que ocorre com outras drogas. O problema é ainda mais grave porque colocaram um cassino dentro do celular. Jovens têm acesso fácil a jogos como o chamado Tigrinho e, quando os pais percebem, já estão endividados. Durante a Copa do Mundo, houve crescimento expressivo dos gastos com apostas. São bilhões de reais retirados da economia familiar.
Ricardo Bruno – Caso seja eleito, o senhor acabará com as bets?
Ronaldo Caiado – Não é simples acabar com tudo porque existem plataformas paralelas e operações instaladas em países vizinhos. Mas haverá fiscalização e controle de verdade. Não veremos essa expansão irrestrita de publicidade e patrocínios. Todo estado tem autorização para criar sua loteria. Em Goiás, não criamos. Sempre defendi que as pessoas devem trabalhar, produzir e poupar. Precisamos recuperar uma cultura de poupança, não incentivar cidadãos a jogar seu dinheiro fora, destruir a família e aumentar o endividamento.
Ricardo Bruno – O senhor responsabiliza o governo Lula pela expansão das apostas?
Ronaldo Caiado – As bets passaram a exercer uma influência enorme. Quando fui senador, ajudei a derrubar uma proposta relacionada ao tema. Hoje, o Brasil tem juros altíssimos, milhões de pessoas endividadas e uma parcela enorme da população com o nome negativado. O governo cria programas para renegociar dívidas, mas precisamos perguntar o que levou essas pessoas ao endividamento. Nenhum país consegue se desenvolver com uma taxa real de juros tão elevada. Precisamos tomar medidas duras, fazer uma reforma administrativa, cortar gastos públicos e dar o exemplo. Foi isso que fiz em Goiás. Precisamos reequilibrar o Brasil e abandonar um modelo populista que aumenta benefícios na reta final do mandato sem preocupação com o equilíbrio fiscal.
Ricardo Bruno – O senhor também critica o crescimento da dívida pública?
Ronaldo Caiado – A dívida chegou a aproximadamente 84% do Produto Interno Bruto, depois de o governo ter recebido o índice na casa dos 72%. No governo Bolsonaro, o maior crescimento da relação entre dívida e PIB ocorreu durante a pandemia da Covid-19. O atual governo não enfrentou uma pandemia, um terremoto ou outra tragédia dessa dimensão que explique tamanha deterioração das contas públicas.
Ricardo Bruno – Para encerrar, qual é a diferença entre o Ronaldo Caiado da União Democrática Ruralista, nos anos 1980, e o Ronaldo Caiado de hoje?
Ronaldo Caiado – Hoje, já não tenho nenhum fio de cabelo preto. Isso representa a experiência de vida. Mas não abri mão dos meus princípios. A coerência é fundamental. Uma pessoa não deve medir sua trajetória apenas pela popularidade, mas pela forma como mantém suas posições ao longo do tempo. É isso que define um exemplo de vida. Ninguém governa apenas com discurso; governa com o próprio comportamento. Quando eu era governador, os policiais recebiam minhas ordens e batiam continência porque conheciam minha trajetória e minha integridade. A polícia conhece a vida das pessoas. Quando existe respeito, o governante tem capacidade de comandar e promover mudanças. Quando alguém abre mão de seus princípios em busca de vitórias temporárias, perde a autoridade necessária para realizar as transformações que o Brasil precisa.





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