O sepultamento de Herus Guimarães Mendes, de 23 anos, neste domingo (9), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, foi marcado por forte comoção e revolta. O jovem foi morto na madrugada de sábado (8) durante uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no Morro Santo Amaro, no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, em meio a uma festa junina na comunidade.
“Meu filho foi alvejado saindo de uma padaria. Estava feliz, tinha emprego, amava dançar quadrilha. Tiraram isso dele. Ele foi comprar um lanche e não voltou”, declarou, emocionado, o pai da vítima, Fernando Guimarães.
Herus, que havia começado a trabalhar com redes sociais na mesma empresa onde o pai atua, foi atingido por dois disparos, um deles na veia femoral. Apesar de ter sido levado com urgência ao Hospital Glória D’Or por amigos que romperam o cerco policial, ele não resistiu aos ferimentos.
O episódio desencadeou uma série de denúncias de moradores e familiares sobre a truculência dos policiais durante a incursão. Testemunhas relataram que o corpo do jovem foi arrastado por escadarias e que houve deboche por parte dos agentes mesmo após os disparos.
“Arrastaram o corpo do meu filho escada abaixo. Eu vi o tiro de fuzil que atravessou o corpo dele”, contou a mãe, Mônica Guimarães. Ao lado do marido, ela fez um apelo: “Eu não quero uma nota, senhor governador Cláudio Castro. A sua nota não me ajuda. A sua nota não faz a minha dor passar. A sua nota não vai trazer o Herus para casa. Eu só quero justiça. O policial só debochava. Eles só debochavam.”
A casa onde a família estava, segundo Fernando, abrigava mais de 40 pessoas na noite da festa, entre elas crianças e idosos. “Houve troca de tiros quando os policiais entraram. Era uma festa junina, as pessoas estavam com roupas brilhosas. O Herus saiu da padaria e foi alvejado. Ele estava de casaco preto, comprando um lanche”, completou o pai.
Mônica ainda relatou o desespero ao tentar contato com o filho: “Eu subi na janela e chamava por ele. As mensagens chegavam no celular, mas ele não respondia. O Herus nunca deixou de me atender. Naquela hora, eu já sabia que tinha acontecido alguma coisa.”
Tradição interrompida
Herus era apaixonado por festas juninas e fazia parte de uma quadrilha desde a infância, tradição que herdou do pai. Tinha deixado as danças para se dedicar ao filho pequeno, Tel, que será agora criado pelos avós e pela mãe.
“A gente vai criar o Tel junto com a mãe dele. Como vai ser agora, quando meu neto chegar em casa e não encontrar o pai?”, disse Fernando, em lágrimas.
Durante o velório, o corpo de Herus foi coberto com uma bandeira do Flamengo, seu time do coração. Amigos de infância descreveram o jovem como “alegre e grato por tudo”, entusiasmado com o futuro e com o novo emprego.
Afastamento e investigações
Diante da repercussão do caso, o governador Cláudio Castro anunciou o afastamento imediato dos responsáveis pela operação. Foram retirados de seus cargos o coronel André Luiz de Souza Batista, comandante do Comando de Operações Especiais (COE), o coronel Aristheu Lopes, comandante do Bope, além de 12 policiais que participaram da ação.
“Agora pela manhã, em uma reunião com os secretários de Estado de Segurança e da Polícia Militar, determinei o afastamento imediato dos responsáveis por autorizar a operação na madrugada de ontem, na comunidade do Santo Amaro, em meio a uma festa popular”, afirmou o governador em nota.
A ação do Bope deixou outras seis pessoas feridas, entre elas um adolescente de 16 anos, que permanece internado no Hospital Souza Aguiar. Segundo moradores, os policiais atiraram mesmo diante da evidência de que ocorria uma celebração com grande número de pessoas.
A Polícia Civil abriu inquérito para apurar os fatos, e a Defensoria Pública do Rio está acompanhando as investigações. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) já iniciou a coleta de depoimentos e acionou a perícia. Moradores foram pessoalmente à delegacia denunciar abusos.
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