O Rio e demais estados da região Sudeste devem enfrentar temperaturas acima da média, ondas de calor e temporais concentrados nos próximos meses com a intensificação do El Niño, cenário que pode aumentar a transmissão de dengue e outras arboviroses, agravar doenças cardíacas e respiratórias e pressionar unidades de saúde. A avaliação foi apresentada durante uma coletiva com jornalistas de diferentes partes do país realizada nesta quarta-feira (16) pelo Ministério da Saúde, que detalhou as estratégias do Sistema Único de Saúde (SUS) para enfrentar os impactos esperados do fenômeno pelo Brasil.
A apresentação foi conduzida pelo ministro Alexandre Padilha e pelo secretário executivo adjunto da pasta, Nilton Pereira, e também contou com participação de representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo o ministério, a combinação de calor intenso com grandes volumes de chuva em períodos curtos está entre as principais preocupações para o Sudeste.
“Na região Sudeste, além do calor, nós teremos temporais, de forma muito concentrada, em pouco tempo, trazendo um volume anormal de água, que pode gerar uma série de consequências”, afirmou o secretário Nilton Pereira.

O calor também pode elevar o estresse térmico e afetar principalmente pessoas com doenças cardíacas e respiratórias, com possibilidade de agravamento de condições crônicas e quadros de sofrimento psicossocial, além de maior pressão sobre a rede assistencial, especialmente as UTIs. Já nas áreas sujeitas a chuvas intensas, populações que vivem em locais com risco de enchentes e deslizamentos estão entre as consideradas mais vulneráveis.
Outra preocupação é a dengue. Pereira afirmou que o Ministério trabalha com a possibilidade de aumento de casos da doença e de outras arboviroses ainda neste segundo semestre, após uma queda de 75% nos casos nos primeiros seis meses de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado.
Segundo o secretário, o Ministério da Saúde já destina cerca de R$ 10 bilhões a um plano de adaptação do SUS a eventos climáticos, com quase 100 ações previstas até 2035.
Reforço do SUS
Entre as medidas de preparação, o ministério destacou a criação de uma base regional da Força Nacional do SUS no Rio — uma das nove bases previstas para 2026 em cinco regiões do país — voltada ao atendimento de emergências como ondas de calor e enchentes. A pasta destacou que monitora mapas de calor extremo, reforça pontos de hidratação e prepara unidades de saúde com protocolos específicos para altas temperaturas em diferentes regiões do país.
Segundo Padilha, a experiência do Rio serviu de base para duas iniciativas nacionais: o protocolo de calor extremo do SUS, hoje disponível a profissionais de saúde e à população pelo aplicativo Meu SUS Digital, com atenção especial a idosos; e os Centros de Informação em Saúde e Clima, que cruzam dados epidemiológicos, assistenciais e meteorológicos para antecipar riscos — modelo que o ministério vem expandindo a outras cidades do país.
Padilha comparou resposta ao El Niño à pandemia
Durante o encontro, Padilha afirmou que os impactos das mudanças no clima já devem ser tratados como um problema direto para os sistemas de saúde. “A crise climática é uma crise de saúde pública”, disse, citando estudos e dados reunidos pelo Ministério da Saúde, pela OMS e pela Fiocruz para defender uma adaptação mais rápida da rede, entre eles o aumento de mortes associadas ao calor, o agravamento de doenças crônicas, a interrupção de serviços de saúde durante desastres e o surgimento de problemas sanitários em áreas onde antes eram raros.
O ministro também afirmou que a preparação para o El Niño está sendo orientada por evidências científicas e aproveitou a discussão para criticar a condução da crise sanitária durante a pandemia de Covid-19.
“Não podemos permitir no Brasil e no mundo que aconteça o que aconteceu na pandemia da Covid-19, onde houve o negacionismo, negar ciência, negar vacina, de ter uma postura irresponsável na pandemia aqui no Brasil, de enfrentar uma crise de saúde pública com a pandemia, gerando conflito com estados e municípios, virando as costas para as populações mais vulneráveis”, declarou. “Diferentemente do que aconteceu na pandemia, a preparação para o El Niño é baseada na ciência. Nós montamos um painel, o Ministério da Saúde ouve especialistas e respeita os dados produzidos pela nossa Fiocruz”, completou.

Riscos variam pelo país
O Ministério da Saúde ressaltou que os efeitos do El Niño variam conforme a região. No Norte, as principais preocupações são seca e queimadas. O Nordeste pode enfrentar estiagem, calor intenso e insegurança hídrica, enquanto o Centro-Oeste também deve registrar temperaturas elevadas e maior risco de incêndios.
No Sul, a atenção está concentrada em chuvas intensas, inundações e ondas de calor, com previsão de aumento de doenças como gastroenterites, além de possível interrupção de serviços de saúde por alagamentos — nesse caso, a pasta citou a descentralização de bases de atendimento, a qualificação da rede de urgência e emergência e o financiamento de soluções de água potável.
O MS reforçou que o SUS monitora doenças respiratórias e cardiovasculares, enfermidades transmitidas por água e alimentos, acidentes relacionados a desastres, impactos sobre a saúde mental e agravamento de condições crônicas.
Padilha afirmou que, diante das diferenças regionais, a comunicação com a população também deve ser direcionada a cada território. “Estamos organizando, fazendo o planejamento, seguindo a ciência e não gerando conflitos com estados e municípios, investindo, acompanhando de perto e nos colocando à disposição. Mas, as campanhas precisam acontecer regionalmente, porque os efeitos são diferentes. É muito importante que cada estado tenha seu plano de preparação”.







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