Eduardo Cunha é citado por prefeitos de cidades de Minas onde investiu em rádios e mandou emendas

Ex-presidente da Câmara é mencionado por gestores municipais na destinação de recursos para cidades mineiras onde adquiriu emissoras, enquanto investigação da PF aponta atuação na indicação de emendas parlamentares.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (Republicanos-MG), voltou ao centro de uma investigação após ser apontado pela Polícia Federal (PF) como responsável pela articulação de emendas parlamentares destinadas a municípios de Minas Gerais onde adquiriu emissoras de rádio. Segundo a apuração, os recursos somam R$ 6,1 milhões e teriam sido direcionados a 21 cidades mineiras durante o ano passado.

A atuação ocorre em meio aos planos de Cunha de disputar uma vaga na Câmara dos Deputados por Minas Gerais, estado onde busca ampliar sua presença política após construir sua trajetória no Rio de Janeiro. A aquisição de rádios integra a estratégia de fortalecimento de sua imagem no interior mineiro.

Embora não exerça mandato parlamentar, prefeitos beneficiados pelas verbas atribuíram publicamente a Cunha a indicação dos recursos, versão que difere da apresentada pelo ex-deputado.

Prefeitos atribuem recursos ao ex-presidente da Câmara

Um dos episódios envolve o município de Varjão de Minas. O prefeito Rafael de Toni (PL) divulgou uma relação de parlamentares responsáveis por recursos destinados à cidade e incluiu Eduardo Cunha como responsável por uma emenda de R$ 590 mil voltada ao custeio da atenção primária à saúde.

Na publicação, Cunha chegou a ser identificado como deputado federal, cargo que ocupou até ter o mandato cassado em 2016. O município informou que se manifestaria sobre o caso, mas não apresentou posicionamento até o fechamento da reportagem original.

Outro caso ocorreu em Piau (MG), onde o presidente da Câmara Municipal, Mica Carvalho (MDB), afirmou ter articulado, ao lado de Eduardo Cunha, a liberação de R$ 300 mil para a área da saúde. O recurso também faz parte do conjunto de emendas analisado pela Polícia Federal.

Polícia Federal aponta atuação direta nas indicações

De acordo com a investigação, Cunha teria sido o “verdadeiro solicitante” das emendas, enquanto deputados federais apareciam formalmente como autores das indicações nos registros oficiais da Câmara dos Deputados.

Para a PF, esse procedimento teria servido para ocultar o real responsável pela solicitação dos recursos, caracterizando uma suposta fraude no encaminhamento das emendas parlamentares.

As verbas analisadas contemplaram principalmente ações na área da saúde em municípios mineiros.

Compra de rádios integra estratégia política em Minas

Além das emendas, a investigação destaca a expansão do grupo de comunicação ligado a Eduardo Cunha em Minas Gerais. Em Guarani, por exemplo, o ex-deputado adquiriu uma emissora que posteriormente passou a operar como Rádio Maravilha, com transferência da estrutura para Ubá, cidade de maior porte na Zona da Mata.

Estratégia semelhante foi adotada em Raul Soares, onde uma rádio adquirida por Cunha tem previsão de ampliar sua cobertura para municípios como Ipatinga e Caratinga.

Segundo a investigação, algumas cidades beneficiadas pelas emendas coincidem com localidades onde essas emissoras foram instaladas ou tiveram expansão planejada.

Cunha nega irregularidades e diz que apenas fez sugestões

Eduardo Cunha rejeita qualquer irregularidade na destinação dos recursos. Segundo ele, não houve indicação direta de emendas, mas apenas sugestões apresentadas a parlamentares de seu partido, responsáveis pela decisão final sobre a alocação das verbas.

O ex-presidente da Câmara também afirma que a instalação das rádios não possui relação com os recursos destinados aos municípios e sustenta que os planos de expansão das emissoras já existiam antes das emendas.

Em decisão recente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Eduardo Cunha. Na decisão, o magistrado apontou indícios de que o ex-deputado exercia influência significativa sobre a destinação das verbas parlamentares mesmo sem ocupar mandato eletivo.

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