A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou no último fim de semana o nível de alerta para o surto de ebola registrado na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. A classificação de emergência de saúde pública de importância internacional representa o estágio mais alto de alerta da entidade diante do avanço da doença, que já soma quase 600 casos e 140 mortes suspeitas.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que o cenário ainda não se enquadra como uma “emergência pandêmica”, mas destacou preocupação com a velocidade da disseminação do vírus e os desafios enfrentados pelas autoridades sanitárias da região afetada.
Especialistas brasileiros, ouvidos pelo O Globo, no entanto, avaliam que o risco de o ebola provocar surtos no Brasil é considerado baixo, apesar da necessidade de monitoramento constante por parte das autoridades de saúde.
Por que o risco para o Brasil é considerado baixo
Segundo o infectologista Leonardo Weissmann, do Hospital Regional Jorge Rossmann, em São Paulo, a principal razão para o baixo risco de disseminação internacional está na forma de transmissão do vírus.
O ebola não é transmitido pelo ar, diferentemente de doenças respiratórias como Covid-19 e influenza. O contágio ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou mortas pela doença.
De acordo com o especialista, embora seja possível que algum viajante infectado entre em outros países, a capacidade de propagação do vírus é muito mais limitada em comparação a agentes infecciosos de transmissão aérea.
O atual cenário preocupa autoridades internacionais principalmente pela dificuldade de conter o avanço da doença em áreas de conflito e com infraestrutura de saúde precária.
Casos em Uganda elevam atenção internacional
Para o infectologista André Bon, coordenador da área de Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas, a possibilidade de um caso importado chegar ao Brasil neste momento é considerada “muito baixa”.
Ele explica que as recomendações da OMS estão concentradas principalmente nas províncias afetadas e nos países vizinhos à região do surto. Ainda assim, alguns fatores têm chamado a atenção da comunidade internacional.
Entre eles estão a identificação de casos em outras províncias da RDC e registros de viajantes contaminados em Uganda após passagem pelo Congo. O especialista ressalta, porém, que o problema permanece mais regionalizado neste momento.
A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, afirma que os casos identificados em Uganda merecem atenção especial devido à presença de conexões aéreas internacionais mais intensas na capital do país.
Falta de vacina agrava preocupação da OMS
Outro fator que levou a OMS a decretar emergência internacional é a circulação da variante Bundibugyo do ebola, para a qual ainda não existem vacinas ou terapias específicas disponíveis.
Além disso, a organização destacou o elevado número de mortes entre profissionais da saúde, indicando transmissão relacionada ao atendimento médico, e a presença do vírus em grandes centros urbanos da RDC.
A província de Ituri, uma das regiões mais afetadas, enfrenta agravamento de conflitos armados desde o fim do ano passado, o que dificulta ações de vigilância epidemiológica, diagnóstico e isolamento de pacientes.
Especialistas afirmam que o monitoramento rápido de viajantes vindos das áreas afetadas será essencial para impedir qualquer possibilidade de transmissão internacional.
Brasil deve manter vigilância epidemiológica ativa
Os infectologistas defendem que o Brasil mantenha sistemas de vigilância preparados para identificar rapidamente casos suspeitos em viajantes procedentes das áreas afetadas.
Entre as medidas consideradas fundamentais estão o isolamento imediato de pacientes suspeitos, investigação laboratorial e rastreamento de contatos próximos, caso necessário.
Rosana Richtmann lembra ainda que o período de incubação do ebola costuma variar entre dois e 12 dias. Durante essa fase, a pessoa infectada ainda não transmite o vírus.
Ela destaca que indivíduos com sintomas avançados dificilmente conseguiriam realizar viagens internacionais, mas reforça a importância de planos de contingência para lidar com possíveis casos importados.
Segundo especialistas, experiências anteriores mostram que protocolos de saúde pública executados de forma rápida e eficiente conseguem interromper cadeias de transmissão e evitar a disseminação internacional da doença.





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