Durigan defende revisão da metodologia da inflação, mas mantém apoio à meta de 3%

Ministro da Fazenda afirma que índices precisam refletir novos hábitos de consumo, alerta para riscos fiscais no Congresso e aponta desafios estruturais para a redução dos juros no Brasil

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a abertura de um debate técnico sobre a atualização dos indicadores utilizados para medir a inflação no Brasil, argumentando que os hábitos de consumo da população mudaram significativamente nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, ele reafirmou seu compromisso com a atual meta inflacionária de 3% ao ano e descartou qualquer discussão sobre sua alteração.

As declarações foram feitas durante entrevista ao podcast da Warren Investimentos, gravada na última sexta-feira (12) e divulgada nesta segunda-feira (15). Na conversa, o ministro abordou temas centrais da política econômica, como inflação, juros, contas públicas, mercado cambial e os impactos de propostas em tramitação no Congresso Nacional.

Segundo Durigan, a economia brasileira passou por transformações profundas que não necessariamente estão refletidas de forma adequada nos índices de preços utilizados atualmente.

Mudança nos hábitos de consumo

Ao defender uma discussão sobre o aperfeiçoamento dos indicadores inflacionários, o ministro argumentou que parte da metodologia hoje empregada foi construída com base em padrões de consumo que já não representam plenamente a realidade das famílias brasileiras.

“O nosso modelo, por exemplo, dá peso para coisas que hoje não têm mais o peso que tinham anteriormente, e coisas que hoje têm peso, assinatura de streaming, serviço de nuvem às vezes já pesam muito mais do que algo que estava na metodologia há décadas”, afirmou.

Para Durigan, a atualização das métricas não deve ser encarada como uma flexibilização do controle inflacionário, mas como uma forma de garantir que os indicadores continuem retratando de maneira fiel a economia e o comportamento dos consumidores.

O ministro também manifestou apoio a discussões sobre possíveis aperfeiçoamentos no Boletim Focus, levantamento semanal realizado pelo Banco Central que reúne projeções do mercado financeiro para inflação, juros, câmbio e crescimento econômico.

Na avaliação dele, iniciativas voltadas ao aumento da transparência e do aprimoramento metodológico podem contribuir para fortalecer a credibilidade dos instrumentos de análise econômica.

Meta de inflação permanece intocada

Apesar da defesa de ajustes metodológicos, Durigan foi enfático ao afastar qualquer proposta de mudança na meta de inflação.

Segundo ele, o sistema de meta contínua adotado recentemente pelo país ainda está em processo de consolidação e compreensão por parte da sociedade e dos agentes econômicos.

A meta atual permanece fixada em 3% ao ano, com margem de tolerância definida pelo Conselho Monetário Nacional.

Para o ministro, preservar esse objetivo é fundamental para manter a previsibilidade da política econômica e reforçar a confiança dos investidores.

Juros altos têm múltiplas causas

Durante a entrevista, Durigan também comentou os fatores que, em sua avaliação, ajudam a explicar o elevado patamar dos juros no Brasil.

Ele destacou elementos estruturais da economia nacional, como a baixa taxa de poupança doméstica, a volatilidade cambial e a percepção de risco associada ao país.

“A questão da poupança é um elemento importante, a volatilidade no mercado de câmbio brasileiro é outro mecanismo que a gente ouve muito, ainda que não se diga muito isso, tem um prêmio de risco que o Brasil tem que pagar para garantir alguma estabilidade”, declarou.

Segundo o ministro, esses fatores acabam influenciando diretamente a formação das taxas de juros e dificultam um processo mais acelerado de redução do custo do crédito.

A análise ocorre em um momento em que o mercado acompanha atentamente as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir o nível da taxa Selic.

Controle fiscal continua no centro da estratégia

Outro ponto enfatizado pelo ministro foi a importância do equilíbrio fiscal para o funcionamento da economia.

Durigan reconheceu que a política fiscal exerce influência direta sobre a condução da política monetária e afirmou que o controle do crescimento das despesas obrigatórias é essencial para ampliar a capacidade de investimento do Estado.

Segundo ele, a busca por maior eficiência no gasto público continua sendo uma das prioridades da equipe econômica.

O ministro argumentou que o fortalecimento das contas públicas contribui para reduzir incertezas, melhorar a percepção de risco do país e criar condições mais favoráveis para a queda dos juros ao longo do tempo.

Preocupação com propostas do Congresso

Durigan também demonstrou preocupação com projetos atualmente em discussão no Congresso Nacional que podem elevar significativamente os gastos públicos.

O ministro afirmou que o governo seguirá atuando para impedir a aprovação de medidas consideradas fiscalmente insustentáveis, frequentemente classificadas pela equipe econômica como “pautas-bomba”.

Segundo ele, o Executivo está disposto a utilizar todos os instrumentos institucionais disponíveis para evitar impactos negativos sobre as contas públicas.

Entre as alternativas mencionadas estão vetos presidenciais e, em determinadas circunstâncias, o acionamento do Supremo Tribunal Federal (STF).

Impacto estimado supera R$ 100 bilhões

A preocupação do Ministério da Fazenda está relacionada ao potencial impacto financeiro de propostas em tramitação.

Na semana passada, a equipe econômica estimou que algumas dessas medidas podem gerar despesas ou perdas de arrecadação da ordem de R$ 111 bilhões por ano.

Entre os projetos monitorados pelo governo estão iniciativas que ampliam programas de renegociação de dívidas do setor rural, elevam o limite de enquadramento do Simples Nacional e aumentam pisos salariais para determinadas categorias profissionais.

Na avaliação da Fazenda, a aprovação dessas propostas poderia pressionar ainda mais a inflação, comprometer o equilíbrio fiscal e dificultar a redução sustentável das taxas de juros.

Debate econômico em meio a desafios

As declarações de Durigan refletem um momento em que o governo busca equilibrar diferentes objetivos da política econômica: manter a inflação sob controle, reduzir os juros, preservar a sustentabilidade fiscal e estimular o crescimento.

Ao defender a atualização dos instrumentos estatísticos sem alterar os fundamentos do regime de metas, o ministro procura abrir espaço para um debate técnico sobre a modernização dos indicadores econômicos, ao mesmo tempo em que reafirma o compromisso da equipe econômica com a estabilidade macroeconômica.

A discussão deve ganhar força nos próximos meses, especialmente diante das mudanças nos padrões de consumo da população e dos desafios impostos pelo cenário fiscal e pelo ambiente econômico internacional.

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