Quem vê a pequena Lua Miranda correndo entre as mesas da quadra do Palácio do Samba, comendo pipoca e chamando os amigos de “primos”, pode enxergar uma apenas uma menina feliz de oito anos. Mas basta dar um microfone na mão da criança ou espaço para sambar para perceber que, mesmo tão nova, ela já se impõe como quem carrega, ao mesmo tempo, a memória e o futuro do samba.
Musa da Mangueira do Amanhã, escola mirim da Verde e Rosa, Lua não está ali por acaso e mesmo com a pouca idade já mostra para o que veio.
“Meu sonho encontrou o da minha mãe. Eu entendi o que era ser musa e senti que aquele lugar era meu”, conta a pequena sambista.
Além do samba no pé — e da habilidade com as palavras —, a menina também coleciona outros talentos artísticos: toca diversos instrumentos, incluindo surdo, tamborim, atabaque e agogô, canta e é atriz. Nas telas, chegou a protagonizar a série “Resistência negra”, do Globoplay, ao lado de nomes como Djonga e Larissa Luz, participou de programas de televisão e foi estrela do curta que idealiza a primeira ministra negra no STF, uma iniciativa do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN).
Personagem da série especial Artistas da Avenida, da Agenda do Poder, a menina é a síntese do que a Mangueira projeta para o futuro: samba no pé, consciência racial na cabeça e o respeito sagrado a quem veio antes.
“A Sapucaí é a maior encruzilhada do mundo, e também foi construída pelos nossos ancestrais, pelos pretos”, dispara Lua, com a naturalidade de quem fala sobre um desenho animado. “Então, esse lugar aqui, esse chão, é das pessoas pretas, das crianças pretas. Eu não vou deixar o samba morrer, nem esse legado das pessoas pretas no samba”, completa a embaixadora do curso de Educação Antirracista da Mangueira do Amanhã.

O DNA dos Periquitos e o sonho da mãe
A história de Lua com a Mangueira começou muito antes de seu nascimento. Ela é bisneta de Antônio Abóbora d’Água, baluarte, diretor de patrimônio e um dos fundadores da Ala dos Periquitos — a primeira da escola. O legado musical desceu para o avô, Irapuã, ritmista de surdo, e chegou à mãe, Ivana Miranda, que desfilou na escola por mais de uma década, até o nascimento da filha — a quem hoje acompanha em todos os momentos.
Ivana, mangueirense roxa, sabia o destino da filha antes mesmo de ver seu rosto. “Quando minha mãe soube que estava grávida de mim, ela já escolheu o nome de musa, que é Lua, porque a lua inspira as pessoas”, conta a menina. “No meu primeiro carnaval, ela fez a minha roupa, adivinha de quê? De musa. Ficou muito fofo”.

A conexão da família com o Carnaval pelo lado materno foi tão forte que arrastou até quem estava de fora. O pai de Lua, que não era do universo do samba, foi levado para a escola por Ivana.
“Ela falou assim: ‘vem cá, que eu não vou deixar você de fora. Nosso legado tem que correr, tem que passar o anel de bamba”, narra Lua, que cresceu ouvindo sambas ainda na barriga da mãe — entre eles “A Mangueira Mora em Mim”, de Beth Carvalho — e desde bebê conviveu com instrumentos, ensaios e desfiles. Resultado: o pai estudou, aprendeu a tocar de tudo — de reco-reco a cuíca — e hoje toca surdo na bateria, o mesmo instrumento do sogro e de Antônio Abóbora d’Água.
‘Mangueira é como minha avó’
Apesar da responsabilidade de carregar o cargo de musa da “maior escola de samba do planeta” — como a sambista mirim classifica —, Lua encara o desafio com a leveza que só uma criança poderia ter.
“Ser musa é uma coisa muito empolgante e inexplicável. Imagina a empolgação de ser musa da maior escola de samba do planeta? É muita responsabilidade. Só que para mim está sendo uma coisa muito leve, confortável de fazer”.

Para a menina, a quadra da escola de samba é lugar de afeto. “A Mangueira é como se fosse a minha avó, e a quadra é como se fosse a casa da minha avó”, compara, com ternura. “É o nosso quilombo, como a minha mãe fala. A gente entra ali e se sente acolhido, se sente forte”, conta..
“A gente corre aqui, a gente toma sorvete, a gente brinca, a gente zoa, a gente pula no pula-pula… e quando a gente vai embora, parece que o nosso coração ainda está na Mangueira. Fica uma saudade imensa”, afirma Lua.
‘Você tem que ser 10 vezes melhor’
Ivana Miranda, mãe da pequena Lua, conta que o discurso articulado da filha — que impressiona em entrevistas e em suas atuações na TV — não é obra do acaso, mas fruto de uma construção intencional.
“As pessoas tomam um espanto de como uma criança preta de uma comunidade fala tão bem, como tem oratória. Eu não vejo isso como nada sobrenatural”, diz Ivana que atribui os resultados aos estudos e ao acesso a ambientes que estimulam o contato com atividades lúdicas.
“Pra mim, como pessoa preta, isso é o que a gente espera. Eu sempre ouvia dos meus pais: ‘olha, estuda, você tem que ser dez vezes melhor para competir com quem está nas melhores escolas’. Foi isso que eu botei no caminho da Lua — claro, de uma forma lúdica, porque ela é criança”.
Durante a pandemia, quando Lua tinha apenas dois anos, a casa respirava referências de artistas, filmes e músicas. “Desde pequena a Lua teve contato com instrumentos, teve iniciação musical. O canto trouxe para essa inspiração de mulheres pretas”, explica a mãe. “A gente cantava, assistia filmes, e aí quando a Lua começou a ler… esquece!”
A disciplina do estudo convive também com a liberdade do brincar, protegida pelos muros da Mangueira. Ivana reforça que o espaço oferece algo que muitas vezes o mundo fora da quadra nega: segurança e acolhimento.
“A Mangueira é, como a Lua falou, o nosso quilombo. Tem as tias que puxam a orelha e tomam conta. A Lua fica nessa quadra à vontade porque a gente sabe que tem aqui a tia pra olhar, o amigo que chama de primo. É a nossa casa, um lar. Pra quem tem juízo, a Mangueira é uma mãe”, define Ivana, que ressalta a importância da rede de apoio para a criação da filha.
Para ela, ver a Lua brilhar nesse ambiente é a garantia de que a história não será apagada. “Durmo tranquila sabendo que o futuro está garantido. É legado”.

Um futuro de oportunidades
Engana-se quem pensa que a musa mirim quer apenas os holofotes da pista. A pequena sambista já nutre planos ambiciosos para a gestão da folia.
“Quero ser rainha de bateria, mas também quero ser diretora cultural da Mangueira ou da Liesa”, projeta, citando inspirações como a rainha de bateria da Mangueira e presidenta da escola mirim, Evelyn Bastos, e a pesquisadora da agremiação, Stefhany Paz, que compõe o time do carnavalesco Sidnei França ao lado de Felipe Tinoco. “Eu gosto muito dessa coisa de cultura, de pesquisar, de ajudar na escolha do samba-enredo”.
Aos 8 anos, Lua Miranda já entendeu o que muitos levam uma vida para compreender: o Carnaval é festa, mas antes de tudo, é resistência. “A gente tem que honrar esse legado, principalmente nesse momento em que a nossa história está sendo apagada”, finaliza a pequena gigante, pronta para defender a Verde e Rosa em 2026.

A Mangueira fecha o primeiro dia dos desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí neste domingo (15).


Deixe um comentário