Quem vê o pequeno Gael de Oliveira Andrade, de apenas 5 anos, nos ensaios da Unidos de Vila Isabel, pode se confundir. O tamanho é de criança, mas a postura, o olhar cerrado ao cantar o samba e a intimidade com o ritmo sugerem alguém que frequenta a Boulevard 28 de Setembro há décadas. E talvez, no campo da fé e do afeto, isso não esteja tão longe da verdade.
Estrela do episódio de estreia da série “Artistas da Avenida”, da Agenda do Poder, que conta a trajetória de nomes das escolas do grupo de acesso do Carnaval, Gael não apenas desfila; ele rege a multidão. Nos últimos ensaios técnicos, a performance do menino viralizou nas redes sociais, onde ele acumula mais de 18 mil seguidores no perfil gerenciado pelos pais. Mas, por trás dos vídeos fofos existe uma história de cura para uma das famílias mais tradicionais da Azul e Branco das terras de Noel Rosa.
Mesmo tão pequeno, ele já acumula feitos de gente grande: em 2025, foi o intérprete oficial da Herdeiros da Vila, tornando-se a criança mais nova a assumir o posto na escola mirim; integrou a comissão de frente da Vila Isabel em um ensaio técnico; além de já ser presença garantida em palcos e ensaios de diversas agremiações.
Samba que corre nas veias
Gael é a quarta geração de sua família na Vila Isabel. Bisneto de Jaiminho Harmonia — eterno diretor histórico da escola — e filho do mestre de bateria Macaco Branco e da musa Dandara Oliveira, ele carrega o peso dessa linhagem com uma naturalidade desconcertante.
“A gente costuma dizer que o Gael é um anão de 75 anos. Provavelmente é a reencarnação de algum sambista, porque ninguém viu uma criança tão pequena gostar tanto de samba”, conta Dandara, emocionada. Para a mãe, a conexão do menino vem de natureza.
“Ele acorda, abre o olho, pega o controle e coloca samba-enredo no YouTube. Ver o amor dos meus filhos pelo samba ser genuíno é só motivo de orgulho. Eu não forço nada. Hoje é mais fácil eles me chamarem para ir à quadra do que eu chamá-los”, conta.
A paixão, aliás, não é exclusividade de Gael. O “pequeno gigante” divide o amor pelo pavilhão com o primogênito Enzo, de 15 anos, que também desfila na escola mirim, e com a caçula Inaê, de apenas 1 ano, completando o trio que garante a renovação da dinastia na agremiação.
Para o pai, a simbiose entre a vida doméstica e a quadra é tão profunda que a distinção entre família e agremiação quase desaparece. “A nossa história toda se confunde e se funde dentro da Vila Isabel. Conheci o amor da minha vida aqui e constituí essa família linda. Se a gente colocasse Vila Isabel no sobrenome da nossa família, nós teríamos completa propriedade para fazer isso”, define Macaco Branco.
Dandara reforça que o ambiente da agremiação é um celeiro de formação humana, que vai muito além da folia. “Não tem lugar melhor para criar um filho do que dentro de uma escola de samba. Aqui a gente tem harmonia, tem conhecimento e tem ancestralidade”, pontua a musa.

Tinga, o herói que canta samba e veste azul e branco
Se alguém dúvida do que diz a mãe de Gaelzinho, a prova de que a alma de sambista precede a infância está nos ídolos do menino. Enquanto crianças da idade do pequeno bamba idolatram heróis da ficção, o “Vingador” de Gael segura um microfone e veste azul e branco.
“Se você perguntar para ele: ‘quem você gosta mais, o Homem-Aranha ou o intérprete Tinga?’, ele vai falar na hora que gosta mais do Tinga”, brinca Dandara.

O fascínio pelo puxador oficial da Vila Isabel é um capítulo folclórico à parte. A idolatria é tamanha que, em seu primeiro aniversário, Gael rejeitou temas infantis tradicionais: o bolo e a decoração foram dedicados exclusivamente ao cantor, a quem ele chama carinhosamente de “Tio Tinga”. Aos dois anos, a admiração ganhou contornos físicos com um totem em tamanho real do intérprete, que virou mobília intocável da casa.
“Não tem nada melhor do que a gente ter nossos amigos como nossos heróis. O carinho que ele tem pelo Tinga, e também pelo Bruno Ribas (atual intérprete da Unidos de Padre Miguel), mostra que a nossa cultura pode, sim, ser símbolo de vitória e riqueza para as nossas crianças”, reflete a mãe.
Presente de Natal
Se hoje Gael é sinônimo de festa na quadra, sua chegada ao mundo, em dezembro de 2020, foi o bálsamo necessário em um ano marcado pela tragédia. Meses antes, a família havia perdido os bisavós do menino, Jaiminho Harmonia e Dona Lourdes, para a covid-19 em um intervalo de apenas duas semanas. O luto havia silenciado a casa.
“Aquele Natal seria muito triste pela perda dos avós, mas a chegada dele, no dia 23 de dezembro, acalmou nossos corações”, relembra Macaco Branco, emocionado.
O pai, que comanda o coração da escola, vê no filho um talento que não foi ensinado, mas que veio “de fábrica”, reforçando a tese familiar sobre a ancestralidade. “Ele tem presença de palco, domínio de público, sabe cantar no tom, fazer cacos no momento certo. Tem instrumento que ele nunca pegou na vida que já sai tocando do jeito que tem que tocar. Eu não ensino nada a ele, isso é dele, vem no ‘preset’ esse lance da parte musical, o amor pelo carnaval e pela escola”, afirma.
“Eu não digo que ele é uma reencarnação do vô e vó, mas de repente, em outras vidas, ele foi um sambista que amou tanto o carnaval, tanto a vila Isabel, que voltou pra poder continuar esse legado e continuar apaixonado. Ele já demonstrava isso tudo muito no DNA, isso veio muito com ele”, completa o mestre de bateria.
‘Eu também rejo’
Seja cantando o hino da escola mirim para 2026, “Sonhos e tambores, tintas e prazeres da Herdeiros para o herdeiro”, ou o samba oficial do Grupo Especial, “Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que um Sambista Sonhou a África” — ambos em homenagem a Heitor dos Prazeres —, Gael demonstra uma seriedade técnica de gente grande.
Ao ser perguntado sobre suas habilidades, ele lista com a simplicidade de quem fala de brinquedos, mas com a precisão de um ritmista”. “Sei tocar surdo, tarol, repique, caixa… e tamborim… e chocalho” diz, Gaelzinho pausadamente, tentando não esquecer nenhum item da orquestra que já domina — mas já deixando alguns de fora.
A inspiração, claro, está dentro de casa. E a ambição já está definida: “Quero ser igual ao meu pai. Eu admiro porque ele rege a bateria, e eu também rejo”.

‘O Carnaval nunca vai morrer’
Gael não caminha sozinho. Ao seu lado, o irmão mais velho já trilha seus próprios passos na agremiação. A relação dos dois é de cumplicidade. “A minha relação com o Gael é muito boa. Claro que tem briga, porque somos irmãos, mas é assim: a gente briga, daqui a pouco está abraçado, depois se batendo de novo e depois dizendo ‘você é meu melhor amigo’, diz Enzo, sorrindo para o irmão.
Ele, que foi inserido no dia a dia da Vila Isabel logo que nasceu e também carrega nas veias o dom de seus ancestrais, conta que quer deixar sua marca na agremiação. “Para mim, integrar a Vila Isabel e a Herdeiros da Vila é natural, é o meu dia a dia. Mas eu tenho noção da importância. Quero que, no futuro, as pessoas digam: ‘O Enzo passou por aqui’. Quero deixar minha marca”.
Integrantes da Herdeiros da Vila, os irmãos vão mostrar o talento na avenida na semana que vem. “Estou ansioso para o desfile e com sede de vitória”, crava Enzo.

Para Dandara e Macaco Branco, ver o amor dos filhos tanto pela escola quanto pelo samba é a garantia de que a cultura resistirá.
“A criança é a esperança de Oxalá. Ela não deixa de ser aquela árvore que a gente plantou a semente lá atrás para que a nossa floresta continue sempre florida e bastante saudável. O futuro está nas crianças. Enquanto existirem ‘Gaéis’, “Enzos” e “Inaês” o samba e o Carnaval nunca vão morrer”, finaliza o músico.


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