Criada na Vila Aliança, Zona Oeste do Rio, a musa Gabriella Mendes entendeu cedo que o samba podia ser mais do que festa: viraria destino. Descobriu o talento ainda menina, na ponta dos pés, sambando na Estrelinha, escola mirim da Mocidade Independente de Padre Miguel. “Fui pra uma festa em Bangu e teve apresentação da bateria com as passistas. Falei: ‘Mãe, eu quero’. Eu tinha cinco anos.”

A mesma determinação a levou ao posto de musa da Verde e Branco. Aos 23 anos, Gabi Mendes, como o Carnaval a conhece, desfila à frente de uma narrativa que dialoga com sua própria construção: Rita Lee, a padroeira da liberdade.

Foi esse o enredo que desafiou o gingado da carioca. Mais que samba no pé, o tema exige a capacidade de sustentar o próprio corpo como discurso. No auge da juventude, Gabi precisou costurar a malemolência do samba ao universo do rock brasileiro de Rita Lee — pop, psicodélico, debochado, feminino.

“A Rita era irreverente, fazia o que queria, não ligava para comentários. Não precisava de validação. Nós, mulheres, precisamos ser assim. É um enredo forte, pode inspirar outras mulheres”, diz em entrevista à Agenda do Poder, na série Artistas da Avenida.

Gabriella tinha oito anos quando entrou para a escola de samba mirim da Mocidade | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

De estrelinha à musa da Mocidade Independente

Mas a mistura de Agora só falta você, Caso sério, Lança-perfume com o desenho do samba caiu bem no colo da jovem menina, fundada no chão da comunidade.

“Tem gente que tem o dom, mas é preciso treinar. Eu treino muito. Dou aula também. A dança exige preparo físico, resistência, musicalidade. Não é só energia, é estudo, é repetição. O samba tem fundamento. Você precisa entender a bateria, respeitar o tempo, cuidar do corpo. É um trabalho artístico e também técnico”, pontua.

Gabi começou no mundo do samba cedo. Mas, mais cedo ainda, descobriu que levava jeito para a dança. Já fazia balé e jazz desde os três anos, mas encontrou no batuque outra forma de expressão: “Eu comecei na Mocidade, na Estrelinha, que é a escola mirim, com oito anos de idade, no projeto Passos da Zona Oeste, que era e ainda é coordenado pelo meu mestre Jorge Gonzaga”, conta.

Passou por Unidos de Bangu e Unidos de Padre Miguel até retornar à escola-mãe com mais maturidade. Em 2023, representando a Mocidade, disputou o concurso que a consagrou Rainha do Carnaval do Rio de Janeiro 2024. Entre 106 candidatas, levou a coroa principal.

Gabi Mendes sendo coroada como Rainha do Carnaval em 2024 | Crédito: Reprodução / Redes sociais

“Consegui evoluir a cada etapa. O que eu errei na primeira, consegui consertar na segunda. O que eu errei na segunda, na terceira já estava melhor. E fui seguindo assim, evoluindo, até que cheguei na final e não errei”, enumera.

O reconhecimento dentro de casa veio logo depois. Na final de samba da Mocidade, em outubro de 2024, foi anunciada musa da escola. “Quando eu virei musa, fiquei em choque. Na época, todo mundo me perguntava: ‘A Mocidade não vai te colocar de musa, não?’. Eu falava: ‘Ah, gente, eu não sei’”.

Com o primeiro filho ainda no ventre, Gabi aceitou, à frente da comunidade, o pedido que ansiava receber: “Eu já fui meio preparada, com esperança. Estava com roupa bonita, cabelo pronto, só esperando a hora. E foi muito bom ver a reação das pessoas, porque parecia que elas também estavam esperando aquilo acontecer”, lembra.

Ocupar esse espaço sendo uma mulher nascida e criada em comunidade, diz ela, carrega um peso simbólico. Principalmente para as pequenas passistas que veem no seu caminho o exemplo perfeito:

“As crianças se inspiram muito na gente, ainda mais uma musa que vem da comunidade. Eu posso chegar aqui de short jeans, de chinelo, de body, de top, e elas vão achar incrível, porque elas se veem em mim. É muito importante manter o respeito, o carinho, continuar sendo a mesma pessoa de antes”.

Ainda jovem, ela mesma deu aulas para meninas da Estrelinha e reconhece, no olhar delas, o mesmo sonho que teve.

“Eu já dei aula pras crianças da Estrelinha. Então foi aquilo: eu me vendo nelas, sabe? Ensinando o que um dia o Jorge já me ensinou, o que ele já me passou. Ver o brilho delas, o sonho de ser rainha, de ser musa, de ser uma grande passista, de estar na escola-mãe.”

A maternidade no mundo das passistas

Gabi recebeu convite para ser musa grávida do primeiro filho, o pequeno Gabriel | Crédito: Reprodução / Redes sociais

Em paralelo à agenda do samba, veio a maternidade. A musa é mãe de Gabriel, de 4 meses. Nas palavras da sambista, o começo foi assustador. A notícia da gravidez trouxe dúvidas, mas depois, redirecionou as prioridades.

“Fiquei com mais vontade de vencer, de poder fazer mais por mim e pelo meu neném. Ser mãe mudou muito a minha mente, me deu mais maturidade, mais garra”, detalha, emocionada.

Depois da gravidez, Gabi pensou que perderia oportunidades, mas foi surpreendida ao ser convidada para ser embaixadora do Rio Carnaval em 2026.

“Eu estava meio pra baixo, achando que ninguém ia me chamar pra nada, que minha vida tinha acabado. Aí recebi uma mensagem no Instagram e depois me confirmaram. Fiquei muito feliz, porque representar o maior espetáculo do mundo é uma responsabilidade imensa”, afirma.

Gabriella Mendes também exibe o trabalho nas redes sociais, onde acumula mais de 50 mil seguidores | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

Hoje, ela leva o filho aos ensaios e já imagina os próximos anos com o pequeno ao lado, como o mais novo Independente: 

“Eu sambei muito com ele na barriga. Brinco que deve ter pensado: ‘mãe, quero sair daqui, você balança demais’. Mas, quando eu coloco samba, ele fica calminho assistindo. Já é uma conexão. Vai crescer nisso, daqui a pouco está rodando pela quadra.”

Corpo em cena

O mundo do samba vem acompanhado da exposição, inevitável no posto que Gabi ocupa. Segundo a musa, da mesma forma que há admiração de muitas pessoas, há muitas críticas de outras, principalmente de mulheres.

O figurino compõe a estética do espetáculo, mas não autoriza interpretações que ultrapassem o limite do palco.

Gabi Mendes também é embaixadora do Rio Carnaval | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

“A mulher sambista é sensual, não é sexual. Eu já recebi comentário dizendo que só faltava eu ir pelada. Eu estava com um body vermelho, dentro do tema. Recebi muitos comentários positivos, mas também negativos. E a maioria dos comentários negativos vinha de outras mulheres. Eu estou fazendo meu trabalho, meu samba”, carimba.

A próxima temporada já ocupa o pensamento da musa, que tem um ritual próprio antes de entrar na Avenida:

“Eu me resguardo um pouco, descanso, bebo bastante água, isotônico, como frutas. Tento me alimentar bem para chegar preparada. A emoção e a ansiedade vão crescendo, então é importante estar com a saúde em dia.”

Rita Lee, a Padroeira da Liberdade é o enredo na Verde e Branco de Padre Miguel | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

Para Gabi, a contagem regressiva nunca cessa.

“O frio na barriga nunca acaba. Eu estou há mais de doze anos na escola e é sempre aquela emoção quando pisa na avenida. É o trabalho de um ano inteiro pra um dia. E quando dá certo, a sensação é de dever cumprido”.

Gabi Mendes, musa da Mocidade Independente de Padre Miguel

Familiares e amigos de Rita Lee, homenageada pela escola, estarão presentes em diferentes momentos do desfile.

“O samba da Rita é gostoso de escutar. Acho que, na avenida, vai dar certo. Fico nervosa para ver os carros, para ver como vai estar tudo. Acho que vai ser incrível”, vibra a musa.

A Mocidade Independente de Padre Miguel, 11ª colocada no último Grupo Especial, será a primeira a entrar na Avenida nesta segunda-feira (16).

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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